"A linguagem é a casa do ser. E nessa morada habita o homem. Os pensadores são os guardiães dessa morada" M. Heidegger
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domingo, outubro 26, 2008
W, de Oliver Stone
O filme de Oliver Stone, W, que estreou nos cinemas portugueses a 23 de Outubro, é uma interpretação muito curiosa e paradigmática de uma liderança com boas intenções, mas que perante a ignorância e obtusidade de um líder, termina por fazer mais mal que bem. Josh Brolin é o actor que dá vida à personagem cheia de trejeitos sulistas e rica em gaffes de George W Bush, o ainda presidente dos EUA. Desde a vida boémia aos bastidores truculentos e quase conspirativos de Washington e da sua administração, Stone pinta um retrato de um homem renascido, ex-alcoólico que se virou para Deus, e crente de que este lhe confiou uma missão divina.
De notar a excelente perspectiva dos bastidores que conduziram Bush à guerra no Iraque. Passa a ideia de que Bush junior agiu como filho frustrado, ávido de vontade em provar o seu valor ao pai (George Bush) que sempre o preteriu ao filho Jed, e o epitetou de falhado desde os seus tempos de juventude. Bush junior queria ir mais longe, terminar o que o pai não foi capaz de terminar, decidir onde o seu pai hesitou. Claro que esta predisposição quase freudiana foi terreno fértil para as inevitaveis pressões do poder, protagonizadas pelo seu ambicioso vice-presidente Dick Cheney e por Rumself, homem de acção e pouca profundidade. De notar a constante desinformação por parte dos seus próximos em relação ás hipotéticas armas de destruição, e o constante «passar da batata quente» entre os mesmos responsáveis quando as tais armas de destruição massiça se revelaram um logro. De notar a obtusidade de um homem como Bush, avesso a pensamentos profundos e dado a agir segundo o instinto do momento (guts). A necessidade de instaurar um império capaz de controlar o petróleo mundial, império incompleto sem o dominio absoluto das jazigas de petróleo iraquiano, um quarto de todas reservas de ouro negro do mundo. Plano este revelado por Cheney, e que pelos vistos existia desde os anos 90. De notar a oposição inicial de Colin Powel ao plano de invasão e a sua perspectiva racional, na tentativa de perceber o porquê de tanta pressa em invadir um país soberano sem provas conclusivas e coerentes da ligação de Saddam à Al-Qaeda. Bush acreditava ser o homem certo para «libertar todo o médio oriente». Na sua ignorância (e nisto não estava só) julgava que um Iraque democrata seria exemplo e motivação para todas os povos do médio oriente sedentos de liberdade (teria ele pensado nos palestinianos?), e que a democracia se propagaria como o pólen das flores. Nunca se teve em conta a questão étnica, as divisões latentes fragilmente mantidas á custa do terror de Saddam. Divisões essas responsáveis pelo pântano que é hoje o Iraque. Nunca se teve em conta o erro de usar a violência para acabar com a violência. Curioso também é o papel atribuido a Karl Rove, homem forte e de confiança de W. Bush, desde a sua candidatura a Governador do Texas. Rove foi capaz de, a pedido do próprio Bush, limar as muitas arestas que faltava limar, tentando transformar um homem ignorante do Texas - a quem não só faltava o dom da palavra como se tornava perigoso fazer uso dela – no homem mais poderoso do mundo, mas também no mais solitário.
Goste-se ou não de Bush vale a pena ir ver o filme, sobretudo para que se possa entender melhor como funcionam as tramas politicas que conduzem o mundo, e como é dificil ao homem mais poderoso do planeta conciliar todos os interesses e ser capaz de, sobre pressão, tomar as mais importantes e influentes decisões do mundo. Em época de eleições nos EUA, do filme pode-se perceber pelo menos como não agir, e como é importante que a posição de presidente da nação mais influente do mundo esteja a entregue a alguém de inteligência superior, cultura profunda, responsabilidade e visão abrangente. Neste filme Bush fica menos mal na fotografia que, por exemplo, Dick Cheney. Bem dizia Sócrates: a Ignorância é a mãe de todos os males.
segunda-feira, outubro 20, 2008
Revolução a 4 de Novembro?

Estamos na prática a 3 semanas das mais disputadas e interessantes eleições do mundo. Dia 4 de Novembro saberemos se o novo inquilino da Casa Branca será o conservador McCain, ou o democrata e liberal Obama.
Como sempre, cada eleição norte-americana é terreno fértil para várias indústrias, sobretudo as do marketing. Movem milhões de dólares, dinheiro que acaba por não ser totalmente desperdiçado na medida em que há muito empregos em jogo – ainda que temporários - e empresas que recebem um novo fôlego.
Para mim, a grande incógnita não está na personalidade do novo presidente. A minha pergunta é se o novo presidente será capaz de ser mais do que um simples relações públicas dos lobbys que verdadeiramente, comandam a potência industrial, militar e política que são os EUA. Saberá o novo presidente bater o pé á CIA, ao FBI, aos lobbys petrolíferos e a quaisquer outras forças poderosas e sombrias, abrigadas nos bastidores? E se conseguir, o que impede que se torne um novo Kennedy cuja(s) bala(s) pôs(eram) fiz ao sonho da mudança? Será forte, ou será um peão? Terá conteúdo, ou será um pacote vazio de propaganda? Haverá de facto condições para uma mudança, ou o status quo é mais poderoso que o ceptro de um presidente?
O que é mais frustrante é que um candidato a presidente não possa (sob pena de perder votos) dizer aquilo que de facto pensa acerca dos assuntos que lhe são apresentados. Quando diz o que pensa, ele toma uma posição. Tomar uma posição é preterir outra, que por vezes vai contra a opinião geral do eleitorado. Os presidentes são-no frequentemente feitos de frases feitas. É assim que ganham eleições. O que são quando presidentes em exercício mostra frequentemente esta realidade.
segunda-feira, outubro 06, 2008
Marcha Mundial pela Paz - Evento no Porto

No âmbito do Dia Mundial da Não Violência (proclamado a 2 de Outubro, data do nascimento de Mahatma Gandhi), o Centro de Culturas do Movimento Humanista realizou no sábado dia 6, no Porto, um evento particularmente bonito e interessante, que pretendeu divulgar a Marcha Mundial pela Paz e pela Não Violência, projecto a nível mundial organizado pela MSG (Mundo Sem Guerras). A Marcha Mundial pela Paz e pela Não Violência, tem como objectivo que em cada país, as mais variadas organizações ou grupos de cidadãos realizem as mais variadas actividades tendentes a consciencializar as populações e os agentes políticos para três pontos essenciais, vistos como prerrogativas para a Paz. São eles:
- O desaparecimento das armas nucleares, a redução progressiva e proporcional do armamento. A renúncia dos governos à guerra como meio de resolução de conflitos.
- Gerar uma consciência social mundial contrária a todo o tipo de violência (económica, física, psicológica, racial, religiosa, sexual).
- Recuperar o melhor das diversas culturas e povos da Terra.
Ora, como já vem sendo hábito, o Centro de Culturas do Movimento Humanista Português ouviu o apelo. A apresentação da Marcha Mundial teve lugar no Café Guarany pelas 15 horas, apesar de pouco tempo depois a sala se ter mostrado pequena para receber todos os curiosos que se foram juntando. Cerca de 50 pessoas estiveram presentes.
Para culminar, cerca de 50 voluntários prepararam e formaram um cordão humano em 3 pontos diferentes da cidade. Cada um dos voluntários segurava um guarda-chuva com uma letra inscrita, e no conjunto podia ler-se MARCHA MUNDIAL (PELA) PAZ E NÃO-VIOLÊNCIA 2 OUT 09 - 2 JAN 10.
Ficam três fotos que ilustram bem o que se passou.



Deixe-nos um comentário dizendo o que, para si, é mais importante para que haja definitivamente Paz. Os melhores comentários serão publicados.
terça-feira, setembro 30, 2008
Pura Solidariedade Animal
Ao que parece, o instinto de solidariedade não é de todo um exclusivo da espécie humana. Cientistas sul-coreanos filmaram este video no mar do Japão, em que vários golfinhos tentam manter um seu companheiro à superficie, impedindo-o de ir ao fundo e se afogar. Ao que parece o golfinho estava muito doente. Apesar do esforço admirável dos seus companheiros em mantê-lo à superficie para que pudesse respirar, uma hora depois ele acabou por ir ao fundo e morrer.
quarta-feira, setembro 24, 2008
Conto Inacabado para Governantes Inacabados

É muito dificil dirigir os homens. É mais fácil empurrá-los.
Tagore, Rabindranath
Tinha nascido para ser rei. Possuía todas as qualidades de um homem nascido para dirigir, liderar, governar. De uma inteligência fabulosa, analítica e racional; uma disciplina prodigiosa que regia a sua vida quase ascética; uma bondade e um senso de justiça exemplar; um carisma que lhe permitia estar tão à vontade com um carpinteiro como com um monarca da sua índole. Nunca acreditou nas ideias de um Maquiavel. Um príncipe não tinha que ser temido para ser respeitado; um príncipe respeitava e fazia-se respeitar, por isso era amado. Conhecia todos os funcionários, secretários, guardas e demais cortesãos pelo nome próprio. Saia frequentemente do reino, quase sempre rodeado apenas da guarda mais próximo. Raramente levava grandes comitivas. Gostava da liberdade de andar entre as pessoas, como um homem normal; partilhava em conversas de pé-de-orelha as suas próprias fraquezas; arrancava das multidões gargalhadas imensas com caricaturas de si próprio. Tinha um humor esplendoroso, brilhante e desarmante. Sabia ser sério na hora certa, mas até a mais séria das crises era enfrentada com a calma de um sorriso confiante. Achava a guerra a manifestação mais pura da fraqueza humana. Estava pronto para defender o seu povo, mas não estava pronto para matar por ele. Fá-lo-ia apenas em última e derradeira instância, quando toda a diplomacia tivesse falhado. Se os seus embaixadores falhassem, ia ele próprio face a face, confrontar o monarca belicoso com a insensatez dos seus planos. A maior parte dos que tinham coragem para fazer a guerra acobardavam-se perante a ideia de se confrontarem num diálogo franco e sério com o monarca adversário. Sabiam ser mais fácil refugiarem-se nos seus emissários e nas soluções ilusórias que a força lhes trazia; muitos conheciam a imoralidade das suas acções, mas desculpavam-se com a realpolitik, ou com a incompetência dos seus diplomatas. O nosso rei sabia tudo isto. Não lhe era indiferente a pesada dificuldade de governação. Sabia que, em certos momentos, os seus ombros quase soçobravam sob o peso de uma só decisão difícil, mas absolutamente necessária. Sabia como era importante para um governante ser inteligente, e também conhecia bem a diferença entre inteligência e esperteza. Ser inteligente, era fazer o certo na hora certa, sem atalhos ou subterfúgios. Ser inteligente era sobretudo saber o que devia ser feito, e ter a coragem para fazê-lo. Um rei devia sempre assumir as suas responsabilidades; ele era o ungido, recebendo a coroa com a noção de que o seu peso consistia mais naquilo que representava do que na quantidade de ouro ou pedras preciosas de que era feita.
O nosso monarca baseava toda a sua governação numa noção própria de Homem. A acção, o serviço governativo tinha como missão libertar o ser humano. Libertá-lo da pobreza, e sobretudo libertá-lo da ignorância. Libertá-lo, mas não forçá-lo. Toda a acção do governante deveria ser pedagógica, exprimir valores e princípios, reforçar instituições de forma a tornar a sociedade independente e auto-crítica. O primeiro dever do rei consistia em dar a todos sem excepção, os meios para por si mesmos, se libertarem da escuridão e do obscurantismo. Todos deveriam aprender a ler, escrever, mas sobretudo a conscientemente exprimirem a suas opiniões acerca do mundo; a sociedade não podia ser feita de escravos, mas de pessoas. A administração do reino tinha se de preocupar com a economia, como é lógico. Era importante que todos se alimentassem, que todos pudessem satisfazer antes de mais as necessidades mais básicas da sobrevivência. O fundamental porém, não era de carácter económico. Só um reino de cultura, de aprendizagem, educação, arte e ciência valia e pena. Um reino não era um grande mercado onde todos compravam e vendiam; onde uns enriqueciam e outros empobreciam. O reino que interessava era o reino da liberdade e da cultura.
Mais poder, mais responsabilidade.
Não basta querer glória, é preciso estar preparado para ela.
Não basta ser maior, há que pagar por isso.
O maior homem de todos os tempos é aquele que assume a responsabilidade de ser quem é.
É aquele que não se esconde,
aquele que não perde tempo a admirar o que pode vir a tornar-se, mas torna-se naquilo que pode vir a ser, deixando para os outros a tarefa de o admirar,
ou de o condenar.
segunda-feira, setembro 15, 2008
Chegar ao CERN da questão - a «máquina de Deus»

O novo LHC está a dar que falar. Finalmente, 20 anos passados sobre o inicio da sua construção, a nova máquina colisora está a funcionar.
Muito se tem falado, e sobretudo, especulado sobre este laboratório gigante. A notícia que correu mundo e que motivou a abertura dos boletins noticiosos era que esta máquina iria «simular o Big Bang», e os «milésimos de segundo» que sucederam a Grande Explosão primordial. Imediatamente os jornalistas no seu «leiguismo» indisfarçável, e influenciados pela «partícula divina» da ciência (bosão de Higgs), chamaram teólogos, confrontaram-nos com cientistas e elevaram rapidamente esta experiência ao confronto último entre Deus e a Ciência. Repito, um leiguismo e uma ignorância que infelizmente os jornalistas portugueses não conseguem disfarçar. Inclusive alguns nem pretendem fazê-lo, por considerarem o seu leiguismo natural ao ponto de se regozijarem de não perceberem nada de ciência. Esta ignorância leva-os a fazerem as perguntas erradas e, inevitavelmente, informarem mal a grande maioria da população, cuja cultura científica consegue ser muitas vezes ainda mais reduzida.
Como disse um desses cientistas convidados num desses momentos extraordinários de informação, o LHC não é novidade senão na escala em que está a ser posto em prática. Existem aceleradores de partículas nos EUA há vários anos. A diferença está na energia e na escala superior a que estas colisões serão postas em prática. O LHC é um enorme complexo, cuja estrutura essencial se resume a um tubo circular de 27 km de perímetro, situado a 100 metros de profundidade em solo suíço. O objectivo é fazer com que os protões (partículas elementares opostas aos electrões e que existem em todos os núcleos atómicos) circulem nesse tubo a velocidades cada vez mais rápidas atingindo por fim uma velocidade muitíssimo próxima da velocidade da luz (300 mil km por seg). É introduzido de seguida um feixe de protões em sentido inverso ao primeiro, provocando colisões em 4 pontos diferentes da circunferência. Essas colisões absolutamente brutais, a uma velocidade brutal e uma energia inimaginável, provocam a imediata fragmentação dos protões em (assim se espera) novas e interessantes partículas (quem sabe) desconhecidas.
Ora, a matéria, por uma questão de lógica, não se pode dividir indefinidamente. Tem de haver um ponto em que não é possível dividir mais. Tal partícula terá de ser absolutamente simples, porque não composta. Por isso chamam «partícula de Deus» a esta tal partícula de Higgs, porque Deus sempre foi visto como o ser mais simples, não composto, por isso perfeito.
O tal bosão de Higgs será a mais elementar das partículas? O físico Peter Higgs (que deu o nome à hipotética partícula) acha que sim. A questão é que, no puzzle da teoria das partículas e do Big Bang, falta uma peça que explique como foi possível às primeiras partículas adquirirem massa (peso, embora não seja exactamente o mesmo. A massa é a quantidade de matéria de um corpo, e o peso é a força que a gravidade exerce sobre a massa de um corpo).
Há muitos receios por parte, inclusive, de cientistas. Alguns tiveram o desplante (ou quem sabe a coragem) de apresentar providências cautelares ao TEDH (Tribunal Europeu dos Direitos do Homem) para que esta instância impedisse o LHC de ser posto a funcionar. Não conseguiram, porém, impedi-lo. Falam em buracos negros que podem engolir a terra. Será possível?
Eu próprio sou um enorme leigo nesta questão, mas até eu sei o que é necessário para criar um buraco negro, e não se parece nada com colisões de protões. Um buraco negro é criado pelo colapso gravitacional de um enorme corpo com uma massa bem superior à do nosso sol. O colapso progressivo de uma grande estrela pode chegar a um ponto tal em que a gravidade nas redondezas do corpo colapsado é tal, que nem a luz lhe consegue escapar. Toda a matéria nas suas redondezas acaba por ser «sugada» e «desaparecer», quanto mais não seja da vista de todos, pois deixa de emitir qualquer tipo de luz. Não me parece que isto possa acontecer no LHC. Se falarmos de anti-matéria, então nesse caso nunca se sabe o que pode porvir. Sabe-se que a colisão de partículas origina aqui e ali partículas de anti-matéria, mas na maior parte dos casos são partículas que não duram mais que uns milésimos de milésimos de segundo. Não têm estabilidade. A questão é que se sabe, pelo menos em teoria, que a matéria em contacto com anti-matéria provoca uma brutal libertação de energia e uma espécie de reacção em cadeia. Fala-se que na famosa explosão em 1908 em Tungusca, na Sibéria, a reacção que arrasou com a floresta num raio de 60 km, provocou um sismo que se sentiu a milhares de quilómetros e uma coluna gigante de fumo, terá sido provocada por um pedaço de anti-matéria. Não foi um meteorito porque não se encontrou qualquer cratera de impacto, nem pedaços de rocha fundida, típica de zonas de colisão. Não foi nenhuma experiência nuclear, porque em 1908 nem se sonhava ainda com a hipótese de que se pudessem construir armas nucleares. Por isso, se foi anti-matéria, o que podemos esperar no futuro? 
Mas claro que são tudo hipóteses polvilhadas com a fértil imaginação humana. O LHC tem muito a ensinar-nos no futuro, se o homem aprender de uma vez por todos o equilíbrio entre ciência e moral.
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segunda-feira, setembro 08, 2008
PSD em coma profundo

A cada dia que passa, o PSD parece morrer um bocadinho. Esvaziado de ideias, fragmentado em milhentos cacos, com oposição interna visível, como uma ferida aberta, exposta ao público. O PSD parece estar ferido de morte. Mas até os feridos de morte, por vezes, se regeneram ainda com mais força e vigor.
Os factores para esta morte lenta do PSD são muitos. Na minha perspectiva, esta morte começa no afastamento prolongado do poder central. Em 33 anos de história, o PSD esteve 16 anos no governo. Inevitavelmente, este apego governativo influencia as estruturas de um partido, molda a sua forma de trabalhar, de agir e pensar. O poder une o partido, dá-lhe um motivo para existir e, inevitavelmente, sustenta esta união na base de alguns interesses que se deixam seduzir pelo doce odor do poder.
Subitamente arredado do poder, o PSD tende a comportar-se forma diferente, secciona-se e divide-se, tantos e tão diversos são os interesses que o constituem. Infelizmente, a tendência liberal do partido é como um íman para interesses económicos que, à distância do poder, longe da expectativa do interesse, não só deixam de unir o partido como o abandonam, esvaziando-o e tornando-o inócuo. Começou por ser um partido de ideologia, de marca, de carisma. Mas progressivamente foi perdendo a ideologia e o carisma, para dar lugar ao «bloco de interesses». A ideologia passou a ser nenhuma, e na capa desse contraditório de que o partido tanto se orgulha esconde-se e mascára-se esta falta de fio condutor e de meada, que o partido já perdeu há muito. Durante a meada do poder, o progresso, o desenvolvimento, a democratização, eram de facto razão e sentido para a sua existência. Terminado o poder, os interesses deslocaram-se, emigraram para outros forças políticas onde poderiam ser correspondidos. Deslocaram-se para um PS, que é hoje, não só uma sombra do que foi e um constante carnaval ideológico, como o principal defensor dos interesses económicos, financeiros, políticos que, em tempos, estavam sob a guarida do liberal PSD.
A maior desgraça do PSD é ser obrigado a fazer oposição. A desgraça do PSD é ter que dar a entender à opinião pública que se opõe ao governo, mesmo quando não sabe escolher entre o mais semelhante e o menos semelhante do pensamento dos dois partidos. O ideal seria o partido de facto dizer perante o povo «não vale a pena falar por falar, fazer oposição ao que não tem oposição porque estamos de acordo, por isso, vamos reduzir-nos a uma profunda insignificância, e só falar quando valer a pena.» E não é o que se tem passado? Não será este o pensamento mais profundo da líder actual, Manuela Ferreira Leite? Mas porque, por qualquer lei ainda não bem entendida o PSD tem mesmo de se opor, de fazer malabarismos para mostrar que é diferente e alternativo, então que se oponha com minúcia, com o cuidado de quem se quer manter credível, e quando atacar esta ou aquela proposta o faça não de forma gratuita e irresponsável, mas com uma crítica no bolso esquerdo, e uma alternativa concreta no bolso direito. Lembro-me por exemplo da crítica que o PSD de Marques Mendes soube fazer ao aeroporto da OTA, alternando de seguida, com uma proposta que tempos mais tarde, se revelou vencedora. À distância de um ano e pouco, vê-se que Marques Mendes até não era um mau político…
O PSD deve mostrar-se alternativa, mas não deve querer inventar uma sobre a pressão dos média e do desespero da sociedade. O melhor que pode fazer, é mostrar-se uma reserva para tempos vindouros, uma espécie de guarda ou polícia, pronta a intervir perante uma crise profunda, ou qualquer falha grave do governo que estiver no poder.
Bem vistas as coisas, o PSD não está morto. Está apenas em coma profundo.
quinta-feira, setembro 04, 2008
!! de Setembro - Uma exclamação para o futuro

Estamos em vias de comemorar o sétimo aniversário do atentado às Torres Gémeas, em Nova Iorque no coração dos EUA. Entenda-se que comemorar, neste caso particular, possui o verdadeiro sentido etimológico de «co-memorar», ou seja, lembrar em conjunto. Pois factos desta envergadura só podem ser lembrados em conjunto porque afectam o conjunto, e não apenas uma parte da humanidade. São factos verdadeiramente históricos, que só poderão ser compreendidos na totalidade quando a poeira da especulação, da controvérsia e dos interesses de uma época tiver finalmente assentado. Para muitos, o dia 11 de Setembro de 2001 mudou o mundo. Ora, mudou de facto alguma coisa. Mudou o modo como entendemos as relações entre as nações, fez o mundo ocidental sentir-se mais frágil e vulnerável. O facto do atentado ter sido perpetrado em pleno solo americano, não foi por acaso, nem poderia deixar de ser sentido como uma tragédia de todos. Que ninguém esperasse ver os EUA adormecidos, embevecidos no seu american dream. Era inevitável uma reacção, que tem muito de revanchista de homem com o orgulho ferido. Em plena Segunda Guerra, sofreram um Pearl Harbor, e a reacção não foi muito diferente. Foi dura, incisiva, destrutiva, expurgada de qualquer dúvida. A vingança engendrada a partir do dia 12 de Setembro de 2001 teve ainda muito deste poder. E continua a ter. Uns EUA ligeiramente esquecidos retomaram o seu lugar de «polícia do mundo». Arrogaram-se imediatamente no «direito moral» de destruir o terrorismo onde quer que se encontrasse, ainda que a ONU se opusesse com todas as suas armas legais. Lançaram em 2002 uma guerra contra o Afeganistão e, em 2003, o Iraque viu-se invadido e posto a ferro e fogo. Rapidamente os americanos se estribaram nesse seu recém-reforçado poder moral para encontrarem aliados nesta «guerra contra o terror», e ninguém esqueceu ainda as palavras de Bush: «Quem não estiver connosco, está contra nós.»
A partir de 2001 o mundo redesenhou-se numa geopolítica diferente. Em vez de blocos clássicos como «bloco capitalista» ou «bloco comunista (geopolítica da Guerra Fria), surgiram os países do Eixo do Bem, e os do Eixo do Mal. De um lado, uma espécie de cruzados contra o terror; do outro, os seus apoiantes. Churchill se fosse vivo diria que uma espécie de prisão de ferro se abateu sobre o Oriente, da Síria à Coreia do Norte. E não fugiria muito da verdade. Depois de 2001 antigos ódios emergiram, antigas divisões latentes na consciência de todos tomaram forma. A imediata e irresponsável colagem do terrorismo aos muçulmanos só poderia ter como consequência um novo cisma Cristãos/Muçulmanos, e a perigosa ideia da cruzada contra o mal e a tirania. Mas talvez a mais perigosa herança do 11 de Setembro seja a perigosíssima noção de que os meios justificam os fins, e que a segurança justifica repressão, invasão da privacidade, e um retorno aos campos de concentração onde a injustiça, a arbitrariedade e o secretismo substituem os Direitos Humanos e o Direito Internacional. Guantanamo é só comparável à ferida da escravatura na história americana. Ao mesmo tempo, as decisões unilaterais dos EUA contribuíram de forma sem precedentes para a descredibilização da única instituição mundial que pode trazer a paz – a ONU.
O 11 de Setembro fragilizou o mundo e a democracia. A resposta dada não foi nem a mais correcta, nem a mais proporcional. Na verdade, só a luta contra a ignorância e o fanatismo pode resolver de forma duradoura esse cancro do terrorismo. E ignorância e fanatismo existem em todos os países do mundo. Sete anos depois o Afeganistão e a luta contra os Talibã continua longe de terminar, e os soldados da coligação mortos são um preço demasiado alto a pagar pela precipitação. No Iraque a guerra civil é clara, e torna-se cada vez mais óbvio para todos que nunca o país do Eufrates será de novo uma nação unida. E o terrorismo continua a fazer vitimas, novos ódios vão renascendo, e o Irão parece ser agora a maior ameaça ao Ocidente. Matar árabes legitima todo aquele que disser que morre para os defender. É este o maior erro do Ocidente, dar razão a quem não tem razão mas sabe aproveitar-se do mal que está feito. Até a Rússia de hoje começa a levantar algum cabelo contra a pretensão americana de dominar e se expandir até às suas fronteiras sob a máscara da NATO. Será isto positivo? Estou certo de que o 11 de Setembro contribuiu para isto.
Morreram milhares de pessoas inocentes. O mundo chorou, o mundo comoveu-se e acordou. As duas torres são como dois pontos de exclamação que pontuam o passado e se admiram perante o futuro. Vale a pena pensar nisto.
quarta-feira, agosto 27, 2008
Humanidade - Mudança - Futuro


O que podemos e devemos esperar do futuro da humanidade, senão transformação? Se realmente acreditamos nessa coisa incerta a que chamamos futuro, não será urgente mudar qualquer coisa de forma duradoura? Nesse caso, o que mudar, e como mudar?
Talvez para muitos não seja preciso mudar nada. Há muito quem – aparentemente – esteja tão satisfeito com a sua vida que não lhe surja como prioridade imediata a mudança. Só que noventa por cento da Humanidade não está satisfeita com a sua vida, seja porque passa fome, porque esteja doente ou porque viva um dia-a-dia de opressão e sofrimento. Sim, talvez mais até do que noventa por cento… Há os que declaradamente sofrem com isso, os que declaradamente vivem na fome e na pobreza, os mesmos que vemos expostos nos telejornais, de barrigas hipertrofiadas e moscas a passear como que prenunciando a morte nos seus corpos fragilizados. Há os que declaradamente são espancados, enjaulados, censurados e mortos politicamente por forças que os ultrapassam e não vêm com bons olhos a subversão e o pensamento diferente. Há as pequenas nações sem «interesse estratégico» ou, pelo contrário, com demasiado «interesse estratégico» que são invadidas, anexadas, estropiadas por países de carisma superior, em nome de valores como a «libertação» ou a «democracia», e quantas vezes com o beneplácito de quem interpreta o direito internacional a favor de interesses obscuros. Há quem sofra declaradamente, e há quem sofra calado. Há quem viva oprimido 24 horas por dia nos países ditos do Ocidente; há telhados que escondem prisões e opressões sem precedentes, lentas decadências e auto-destruições que, mais que físicas, assumiram um carácter psicológico. Há quem esconda a pobreza por vergonha, e há quem se auto-censure e não faça valer os seus direitos para não perturbar pequenos interesses ou até um hipotético futuro. Há quem tenha medo dos tribunais e da justiça, em vez de encontrar nela o seu maior aliado e garante de liberdade. Há quem não acredite nos seus governos e no futuro, e prefira canais menos próprios para encontrar uma vida mais digna materialmente, nem que essa tal «dignidade material» implique passar por cima da dignidade que importa de facto… Há crianças que crescem e vêem os seus sonhos mortos à partida, a sua criatividade enjaulada em ditames de moral e educação que visam torná-las «aptas para o mercado» e não seres humanos no verdadeiro sentido do termo. Há idosos que se riem perante as ilusões de uma sociedade que aumentou a esperança média de vida, enquanto salivam para uma babete e ajeitam os seus corpos cansados em cadeiras de rodas, atirados para a solidão dos lares ou do abandono familiar. Há quem trabalhe uma vida e no fim não seja reconhecido.
Há criminalidade a aumentar de dia para dia. O desplante para cometer os mais hediondos crimes; um desrespeito absoluto pelo ser humano e pela dignidade deste vai devagar tomando lugar no coração das pessoas. A relatividade de valores que deixaram de ser referência, a «morte de Deus» que significa cada vez mais a morte da moral, a publicidade de uma rebeldia instituída nas televisões, no cinema; a tecnização da vida, a deificação da tecnologia e do útil, atirando as humanidades para um gueto de morte; a violência latente no descontentamento e no desenraizamento das pessoas, das comunidades, da vida; o barulho, a frenética correria pela felicidade empacotada e com livro de instruções; a competição e um individualismo cerrado fomentado pelo mercado…
Não sou nem serei última pessoa a fazer tais diagnósticos. Tornou-se praticamente senso comum.
O futuro da humanidade só pode passar por encontrar uma ética fundamentada de tal maneira que possa ser compreendida e respeitada por todos. O medo não pode de modo algum voltar a ser o tal fundamento, como em tempos as igrejas com o seu poder e sapiência fizeram valer o seu poder de controlo das massas. Não é pelo medo de ir parar ao inferno que o homem se superará e será moralmente irrepreensível. Não é pelo castigo subliminar que o homem será Homem, mas por qualquer coisa diferente. Com isto entenda-se que não falei de Deus, nem sequer de religião, mas de igrejas humanas e instituídas. O futuro da humanidade só pode passar por uma mudança clara de mentalidades, uma superação de todas as ignorâncias para que não haja equívocos quanto ao significado de Liberdade. O homem, político, cidadão comum, pai, mãe, carpinteiro, médico, professor, terá de aprender e viver segundo esta ética, estando completamente despido de ignorância, obscurantismo, eternamente crítico do mundo mas ao mesmo tempo humilde o suficiente para compreender que não possui a verdade, apenas a procura. Tem de ser um homem livre – ou talvez apenas deva -, livre de si mesmo, consciente das suas fraquezas e limitações, consciente da sua dignidade, duro o suficiente para defendê-la, flexível o suficiente para evitar conflitos. Talvez o homem do futuro deva compreender que é errado olhar demasiado para o chão esquecendo que, por cima de si, existe um imenso céu.
De onde pode vir a mudança? Há quem diga que de fora. Legislar, alterar os regimes e instituições será o caminho. Será? As pessoas mudam a sua forma de ser estejamos num regime comunista ou capitalista? Deixará de haver crimes, maldade, egoísmo, se houver mais prisões e penas mais pesadas?
E se a mudança vier de dentro?
domingo, agosto 24, 2008
Rumos Incertos

O conflito na Geórgia teve o condão de provar um aspecto assustador – o mundo não está preparado para se defender eficazmente contra veleidades imperialistas de blocos poderosos como a Rússia. A questão é simples. Assemelha-se em grande parte ao que se passou em vésperas da Segunda Grande Guerra, quando a Alemanha integrou sem um tiro e perante a imobilidade da comunidade internacional, a Áustria e a Checoslováquia. É verdade que o horror da Primeira Grande Guerra ainda estava fresco nas memórias dos agentes políticos, e não tenho dúvida que os horrores da Segunda ainda estão também frescos na memória dos agentes políticos de hoje (pelos menos na maioria, sobretudo se sabem alguma coisa de história). Nos dias de hoje, mais do que essa memória comum existe outro factor que imobiliza os estados perante novas ameaças imperialistas, sobretudo quando tais ameaças provem de blocos poderosos e bem armados. Esse factor é uma noção muito simples: qualquer guerra futura entre dois blocos poderosos recorrerá inevitavelmente ao uso de armas de destruição maciça e, ipso facto conduzirá à destruição e obliteração mútua dos blocos beligerantes. Mais do que a memória do passado, é o terror do futuro que ainda consegue atribuir valor à diplomacia perante crises da natureza do conflito russo-georgiano.
Não nos podemos iludir. Os equilíbrios que herdamos da Segunda Grande Guerra também terão o seu fim, tornar-se-ão obsoletos perante novas realidades globais. Instituições como a NATO terão de reconsiderar o seu papel no mundo de hoje, um mundo que já não se mede pelos padrões de uma guerra fria, mas pretende alicerçar a pouco e pouco os fundamentos da Paz futura. A NATO – como quem diz EUA – tem de questionar-se seriamente se vale a pena uma contínua expansão, um contínuo alargamento, que não deixa de ser sinónimo de ameaça nomeadamente ao bloco russo e chinês, acelerando uma inevitável corrida ao armamento e ao incremento de tensões. A ONU tem de se reformar, sobretudo no que concerne à constituição permanente do seu Conselho de Segurança. Nem a Rússia, nem a China, nem os EUA são hoje os mesmos de há 60 anos. Fará sentido que uma Rússia ou uma China, independentemente de recorrentes ataques ao direitos humanos continuem a ter poder de veto no CS? Não me parece que tal faça muito sentido. O poder de veto da Rússia impediu por várias vezes que se aprovassem resoluções acerca da invasão da Geórgia, e o mesmo podemos dizer acerca da invasão posta em prática pelos EUA no Iraque em 2003, que à revelia da ONU e de forma unilateral foi levada a cabo. Situações deste tipo não são do interesse de nenhum país, de nenhum bloco ou instituição, porque fragilizam e descredibilizam cada vez mais a instituição na qual se põem todas as esperanças de paz verdadeira e duradoura – a Organização das Nações Unidas. Não podemos voltar a um mundo em que os mais fortes decidem em detrimento dos mais fracos, e a lei é escrita por quem tem poder bélico, energético e humano suficiente para impor as suas regras e escrever a história à sua maneira.
quinta-feira, agosto 14, 2008
Petição - Idade não é sinónimo de Invalidez
Estou a patrocinar uma petição on-line direccionada para todos aqueles desempregados com mais de 35 anos que, exactamente por terem mais de 35 anos, são discriminados na procura de emprego por critérios de recrutamento duvidosos.
Deixo um resumo do essencial
Esta petição pretende solicitar à Assembleia da República que pressione legislativamente o Governo para que tome medidas conducentes a retirar dos anúncios das ofertas de emprego a restrição relativa à idade, à semelhança do artigo 27º alínea 2 do Código de Trabalho que proíbe qualquer referência a restrições relativas ao sexo do candidato. Solicita-se também à AR para que legisle no sentido de coagir as empresas que discriminem o candidato relativamente à idade, ou promova incentivos fiscais ou de outro tipo para as empresas que empreguem candidatos com mais de 40 anos desempregados, valorizando a sua motivação e experiência. Será sem dúvida melhor para as empresas e para o país.
Para votar Clique Aqui
Não custa nada, e bastam 2500 assinaturas para pressionar a Assembleia da República ao abrigo da Lei nº43/90 de 10.08.
Deixo um resumo do essencial
Esta petição pretende solicitar à Assembleia da República que pressione legislativamente o Governo para que tome medidas conducentes a retirar dos anúncios das ofertas de emprego a restrição relativa à idade, à semelhança do artigo 27º alínea 2 do Código de Trabalho que proíbe qualquer referência a restrições relativas ao sexo do candidato. Solicita-se também à AR para que legisle no sentido de coagir as empresas que discriminem o candidato relativamente à idade, ou promova incentivos fiscais ou de outro tipo para as empresas que empreguem candidatos com mais de 40 anos desempregados, valorizando a sua motivação e experiência. Será sem dúvida melhor para as empresas e para o país.
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Não custa nada, e bastam 2500 assinaturas para pressionar a Assembleia da República ao abrigo da Lei nº43/90 de 10.08.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Resolução

De quanta imaginação não é feita uma vida para se compensar o que se não realizou! Já todos o sabemos e nunca ninguém o sabe. Se fosse coisa de se saber, não havia maníacos da droga, do fumo ou do álcool. Projecta-se milimetricamente uma reacção a ter, uma ofensa a vingar, uma desconsideração a menosprezar, uma conquista a fazer. E sai sempre outra coisa: nem nos vingamos porque se interpôs uma fraqueza, nem menosprezámos a desconsideração porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquistámos nada porque amanhã é que é. Mas falhada a nossa reacção, logo congeminamos de novo efectivá-la e com acréscimo de efeito. Até que o tempo e a morte tudo decidam irremediavelmente por nós. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais fácil de resolver é sempre o não resolver.
Vergilio Ferreira
domingo, agosto 03, 2008
Volta Já
O Cenáculo está de férias, embora prometa voltar brevemente e em força. Cumprimentos a todos os leitores que o acompanham e nele comentam.
Ruben Azevedo
Ruben Azevedo
segunda-feira, julho 14, 2008
Castelo das Paixões - recriação histórica e amor impossivel
Para quem tem um especial apreço pelo ambiente medieval, pelas lendas e histórias que se perdem em objectividade mas ganham em nebuloso e misterioso, fica uma bela sugestão para as sextas-feiras à noite dos meses corrente e de Agosto.
Castelo das Paixões é uma recriação histórica do cerco imposto por D. Urraca, irmã de D. Teresa de León e mãe do nosso rei fundador. Cerco que manteve D. Teresa prisioneira na sua própria casa, o castelo de Lanhoso. Pelo meio temos uma bela história de amor medieval, como não poderia deixar de ser. Amor impossível e doloroso, entre um espírito nocturno na forma de uma mulher belíssima, e um homem mortal.
Tem todos os ingredientes para ser um espectáculo envolvente. Encenado nas próprias muralhas do castelo, com tochas, vestes medievais, e um elenco fabuloso do qual fazem parte alguns actores já conhecidos do nosso panorama televisivo, Castelo das Paixões faz-nos remontar ao séc. XI e até em certos momentos, participarmos da própria encenação.
O preço do bilhete é de 10 euros e pode ser comprado no posto de turismo da Póvoa do Lanhoso.
Para saber mais clique aqui.
quarta-feira, julho 09, 2008
Causas de uma decadência anunciada - marketização e felicidade instantânea

A sociedade em que vivemos baseia-se no mercado, no económico, no consumo, no lucro. É uma sociedade que se assemelha a um enorme shopping, uma feira interminável. Seja em casa, na rua, no emprego, a publicidade e o apelo à compra estão sempre presentes para onde quer que se olhe. Há uma marketização do humano. E neste furor não é só a tecnologia que avança – uma das vantagens da economia de mercado – mas também os métodos de marketing. O marketing aprendeu a jogar com o psicológico. A verdade substituiu-se em quase todas as dimensões pela mentira bem vestida. As relações humanas são a maior parte das vezes no âmbito do prestador/cliente. Servir bem o cliente é ser-se profissional, que significa vestir bem para bem se apresentar aos olhos do consumidor. Pelo que se vê, todos os domínios do humano acabaram por viver sob o jugo da troca e lucro. A própria publicidade melhorou os seus métodos de venda de produtos, descobrindo que a melhor forma de os vender é também vendendo modelos de felicidade. O marketing logrou provar às pessoas que sem determinados produtos jamais serão felizes. Dito de outra forma, a felicidade é inatingível sem últimos modelos e topos de gama. Isto está presente em quase tudo, desde os telemóveis aos automóveis, passando pelo turismo aos livros de auto-ajuda. O que se passa neste modelo de marketização é que tudo está ao alcance mais imediato, desde que se tenha dinheiro. Ser-se feliz, reconhecido e com algum estatuto está ao alcance do livro de cheques. Porque sem consumo esta sociedade não sobrevive, morre e perde razão de existir. Vemos uma progressiva aceleração do modo de vida nos últimos anos, porque necessidades atraem necessidades, e ter coisas implica ter outras coisas, o que por sua vez implica ter dinheiro para delas usufruir, o que implica emprego, velocidade, correria, chatices várias, menos tempo para os filhos, os amigos, a vida no seu estado mais puro. Para perseguir os modelos de felicidade que nos vão sendo subliminarmente impostos, aceitamos ceder parte da nossa liberdade e felicidade para, em troca, recebermos os meios de os atingir. Só somos felizes se tivermos carro, telemóvel, mp3, dvd, mp4, ipod, e um pc portátil. Mas para ter tudo isto temos de ter um emprego que o permita. Se nesse emprego ganharmos pouco, faremos tudo para ter um melhor. Tudo tanto pode significar procurarmos uma melhor formação, como utilizarmos métodos menos próprios abdicando da nossa dignidade e escrúpulos. Nada importa, se no fim tivermos todos aqueles equipamentos de que falei anteriormente. E porque a felicidade que nos vendem é uma ilusão, isso portanto nunca nos vai chegar. Queremos mais, queremos ir de férias nos roteiros comerciais que nos impingem nas televisões e nos cartazes de rua. A moda define o que num determinado período significa ser feliz. Queremos melhores marcas, mais vistosas e opulentas. E porque queremos mais e mais permitimo-nos trabalhar mais e mais, abdicar de mais e mais tempo para os filhos, amigos, namorados, familiares. Permitimo-nos estraçalhar um pouco mais a nossa dignidade e a dos outros. E com isto não quero dizer que não há quem não tenha mérito, porque o há sem dúvida. Há quem de facto cresça e melhore o seu estatuto profissional graças ao seu trabalho incansável e inteligência superior. E ainda bem. Com isto segue-se a crise do «inútil». Porque a felicidade só se atinge pelo material, útil e funcional, tudo o que não o seja está condenado à extinção. Se para o mercado melhorar a sua oferta são precisos mais técnicos e melhores, mais especialistas e melhores, então o que interessa é seguir um emprego com saída para se ter logo acesso ao mercado do emprego, ou tornar-se mais «bem vestido» para o mercado do emprego. Ai está de novo o marketing, porque se não estivermos «bem vestidos» para o mercado do emprego podemos não conseguir cumprir o nosso último objectivo, o de ter tudo aquilo que nos fará em ultima instância felizes: carro, telemóvel, mp3, dvd, mp4, ipod, e um pc portátil, boas férias nos circuitos da moda, estatuto perante os outros. Portanto, para que servem as religiões? Para que serve a filosofia, a metafísica e as humanidades em geral? Se não for para dar lucro, se não for para terem utilidade de mercado, nada!

Como já disse anteriormente, se a felicidade que se vende é ilusória então ela nunca chega, nunca preenche. A sociedade de mercado gera, para sua própria sobrevivência, pobres. Gera pobres em grande número, mas não se pode dar ao luxo de gerar miseráveis, pois sem consumidores aquela cai como um castelo de cartas. Mas precisa de pobres porque precisa de quem trabalhe. Precisa de quem diga «sim, preciso de trabalhar para ter acesso àquilo que os outros também têm». Porque se ninguém trabalhar, as indústrias não funcionam, a não ser que um dia sejam as máquinas a fazer o trabalho todo. A sociedade liberal encerra em si um interessante paradoxo. É preciso que todos tenham dinheiro, mas só alguns podem ser ricos. Se por acaso todos começam a ter dinheiro este deixa de valer, e portanto os preços aumentam (inflação). Porque se o capital individual aumenta, aumenta também a procura e portanto os preços. Por mais que se diga e as utopias falem mais alto, a sociedade de mercado não pode ser uma sociedade de ricos. O sistema económico liberal precisa de pobres, é desta forma que está equilibrado e quando este equilíbrio está ameaçado ele de imediato o repõe gerando mecanismos para que o poder de compra baixe. Enfim, um problema grave para o futuro. Onde quero chegar é que as pessoas de hoje estão imbuídas de duas ideias: a primeira é a de que o imediato é o caminho para a felicidade; a segunda é a de que a felicidade está à venda. Já percebemos o porquê. Isto explica por exemplo o retrocesso das religiões ditas institucionais (pelo menos no espaço ocidental) e o aumento da procura de ideologias que tudo prometem. Lembro-me do caso da fraude «O Segredo». São os chamados bezerros de ouro. Desiludidas com uma felicidade que demora, que é difícil e implica valores e sacrifício, o mundo deixa-se arrastar por um mundo de promessas de felicidade instantânea. Mais uma vez é o mercado em acção. Se as pessoas querem riqueza e felicidade instantânea, não faltam editoras a viver à custa desta ânsia que editam todos os dias livros com receitas práticas e com «sucesso garantido». Basta ir a uma livraria para o comprovar. Vivemos numa nova idade média, estou certo disso. Uma idade da ignorância e do obscurantismo. As pessoas são permeáveis a promessas sem fundamento, e ideias supostamente «cientificamente provadas». Nem conseguem distinguir entre romances históricos e realidade científica! Basta ver o que aconteceu com o Código Da Vinci… A ignorância é também um trunfo da sociedade de mercado. Poderão dizer que, hoje, a informação está disponível para todos ao alcance de um clique do rato, ou que há melhores técnicos. É verdade sem dúvida, mas jamais informação significou formação, e o mercado precisa de que quem tenha informação técnica, não formação humana. A formação humana é perigosa porque considera-se capaz de consumir menos, por em causa o marketing e a felicidade de super-mercado com livro de instruções.
quinta-feira, julho 03, 2008
Irena Sadler - Anjo do Gueto de Varsóvia

Há heróis para todos os gostos. Uns têm glória cedo, outros muito tarde. Mas no fim, quase sempre são reconhecidos por aquilo que fizeram em prol de valores mais altos. O cinema e a mestria de Spielberg imortalizaram Oscar Shindler, o indutrial alemão que salvou 1000 judeus, literalmente comprando-os aos alemães e integrando-os na sua fábrica de armamento que, na verdade, nunca produziu uma bala que fosse capaz de ser disparada. Gastou todo o pecúleo acumulado durante anos e anos para comprar judeus, subornar altos oficiais alemães, manter uma fábrica falhada. Enfim, basta ver a Lista de Schindler para ter uma ideia.
No entanto, outros heróis encontraram o seu lugar ao sol da História. Recentemente ouvimos falar de uma senhora quase centenária, desconhecida até há bem pouco tempo, longe dos holofotes de Hollywood, internada num lar para idosos em Varsóvia. É daqueles casos em que a glória chega tarde, mas é sem sombra de dúvida mais que merecida.

Sabemos que os alemães, antes de enviarem os judeus para os campos e por uma questão de organização, criaram uma cidade dentro de uma cidade - um gueto -, que ficou conhecido como Gueto de Varsóvia. Neste gueto o número de judeus atingiu o meio milhão. Desta forma, os alemães foram lenta e friamente, preparando os judeus para a liquidação e extermínio nos campos de concentração. Os alemães consideravam os judeus sub-homens, homens inferiores pejados de piolhos e doenças. Como tal evitavam o contacto com estes, temendo uma epidemia de tifo que rapidamente se poderia alastrar dentro das condições precárias do gueto. Nomearam pessoal polaco para sujar as mãos e gerir o gueto. Irene Sendler trabalhava no Social Welfare Department, uma espécie de Segurança Social que geria cantinas e assistia sanitariamente e logisticamente os mais pobres de Varsóvia. Claro que os mais pobres de Varsóvia, a certa altura e perante as pesadas restrições impostas pelos alemães, eram os judeus. O tal departamento ficou também responsável por assistir o gueto e os judeus que lá viviam. Pelos vistos a sua fama de «amiga dos judeus» valeu-lhe uma «estrela», não igual à que os judeus foram obrigados a usar, mas uma espécie de marca que a designava pró-judia.
Cedo, a sua influência dentro do departamento permitiu-a entrar em contacto com as familias judias e as suas dificuldades. Permitia-lhe uma enorme liberdade dentro do gueto. A certa altura começou a transportar crianças judias dentro das ambulâncias para fora do gueto, com a desculpa de que estariam com tifo. Entusiasmada, convenceu uma pessoa em cada um dos dez centros que constituiam o departamento de Social Welfare a participar na fuga dos judeus. Conseguiu mover influências que lhe permitiram falsificar milhares de documentos falsos com novas identidades para as crianças judias que se evadiam. A certa altura, depois de sedar as crianças, conseguia evadi-las dentro de sacos de batatas e até caixotes que, supostamente carregavem géneros. Havia uma igreja cristâ dentro do gueto. Leva por vezes crianças judias consigo, fazendo-as sair por uma das duas saidas da igreja que dava para o sector ariano de Varsóvia. Entravam como judeus, saiam como cristãos à vista dos alemães. A pergunta que mais doía e mais pesava na sua consciência vinha dos pais das crianças. Hesitantes em separar-se dos filhos perguntavam-lhe «tem a certeza que vão viver?». Sim, embora não tivesse certeza, o certo é que viveram. Até há pouco tempo, antes de falecer no lar de Varsóvia, muitas desses antigas crianças hoje com 70 anos ou mais, vinham agradecer-lhe e deixar-lhe flores, depois de verem a sua foto nos jornais e a reconhecerem.
Claro que cometem-se erros que podem custar a vida. Sadler foi descoberta, denunciada, sabe-se lá. Ela era a única que sabia a história das 2500 crianças que salvou, inclusive onde viviam e que familias lhes davam acolhimento. A Gestapo torturou-a amarga e duramente, partiu-lhe as pernas, os pés, mas em nenhum momento Irena abriu a boca para contar fosse o que fosse. Ela era a depositária das vidas passadas, e a responsável pelo futuro das crianças que tinha salvo. Perante aquela pergunta «tem a certeza que vão viver?» em forma de jura e de compromisso, Irena havia jurado salvá-las. As crianças nunca souberam o verdadeiro nome da sua salvadora. Conheciam-na por Jolanta, o seu nome de código.
2500 vidas. Eis o saldo da acção desta senhora, embora até ao último dia sempre afirmasse com alguma mágoa que «poderia ter feito mais!». Aquela a quem alguns chamam «Mãe dos Judeus», faleceu a 13 de Maio do ano corrente.
quarta-feira, julho 02, 2008
Clarificação de erro cometido no artigo anterior Familia Nuclear Radioactiva
Embora não seja apologista do exercício do «diz que não disse» talvez seja melhor clarificar as minhas palavras no último parágrafo do artigo Familia Nuclear é Radioactiva, na medida em que terá dado a entender algo que eu não quis dizer, ferindo a sensibilidade de alguns leitores. Em primeiro lugar o mal entendido deve-se a um erro meu. Um erro grave em alguém que preza por escrever com a razão e não com o coração, sobretudo quando se tratam de temas sensíveis como o do artigo anterior. Esse erro é o da generalização emocional. Quando afirmei que só uma ideia de familia fragmentada e sem base moral sólida pode dar suporte ético às ideias defendidas pelos novos idealistas das jotas, queria referir apenas as ideias sobre o desprezo pela família, reflectidas no cartaz medonho que diz «Familia Nuclear é Radioactiva». Em nenhum momento me referi às famílias constituídas por homossexuais e, se o dei a entender peço desculpa. Derivou portanto de uma frase mal escrita e de uma generalização.
Obrigado.
Obrigado.
terça-feira, julho 01, 2008
Familia Nuclear Radioactiva

Parece que a JS vai eleger um novo secretário-geral. As propostas são sempre as mesmas, sempre «modernas» e fracturantes. Espero que se compreenda porque coloquei «modernas» entre aspas. Casamento homossexual, adopção por casais 'gay' ou o reconhecimento da mudança de sexo na lei portuguesa, são as três mais importantes reivindicações desta juventude iluminada que, não sei com que consequências ou se bem ou para mal, será o futuro político do nosso país.
A questão é que a juventude, seja ela socialista, comunista, bloco-esquerdista, precisa de causas. Causas porque lutar, ideias que justifiquem a confrontação do passado. Freud dizia e muito bem, que «herói é aquele que confronta a autoridade paterna e vence». Há muita energia e criatividade latente e à espera de encontrar saidas. E enquanto há causas porque lutar, há escapes saudáveis para toda essa adrenalina.
O que, sinceramente me causa alguma comichão, é quando tais lutas ou «ideais» pseudo-modernistas põe em causa a familia. Noutros tempos, tempos de jacobinices e quando todas as instituições eram postas em causa, também a familia se viu perante as baterias destes pseudo-intelectuais. Na medida em que a Igreja era o pilar que consagrava os casamentos, consagrava e abençoava as uniões, também a familia era posta em causa. A familia era vista como uma instituição burguesa, e por alguma razão o regime comunista se outorgou o direito de submetê-la ao poder totalizante do Estado.
Claro que, só uma ideia de familia fragmentada e sem base moral sólida pode dar suporte ético às ideias defendidas pelos novos idealistas das jotas. Basta ler um dos cartazes da foto que diz «Familia Nuclear é Radioactiva». Não consigo deixar de pensar que estes meninos não sabem o que é viver em familias fragmentadas, e nunca sentiram na pele o que o desenraizamento pode fazer a um ser humano. A familia é importante porque cria bases de apoio, conforto e sentido de integração a um ser humano. A familia é tudo. Acredito que um dia que forem pais, vão entender isto.
quarta-feira, junho 25, 2008
Ricardo Araújo Pereira e a Linguagem
Todos conhecemos a personagem fedorenta do nosso amigo Ricardo Araújo Pereira, mais conhecida por «RAP». Ninguém fica indiferente a forma como transpira comédia e encarna diferentes personagens. A famosa entrevista que deu na RTP há já algum tempo revelou um homem com uma erudição admirável que, não só faz comédia como pensa, reflecte séria e profundamente sobre as mais variadas questões. RAP é a prova que o melhor humor só pode ser feito pelas cabeças mais brilhantes. Humor sem inteligência e erudição é vazio e vulgar.
O convite feito por Lobo Antunes ao RAP para que este estivesse no lançamento do seu mais recente livro pode ter sido, mais do que uma manobra de bom marketing, a prova de que a profundidade do nosso amigo fedorento quebra as usuais barreiras da comédia para penetrar nos limites da intelectualidade. E parece que o que se vai passar a partir do dia 27 no Teatro São Luiz, em Lisboa vai consagrá-lo com o epíteto de Gato Fedorentos mas Intelectual.
Isto porque a partir do dia 27, Ricardo Araújo Pereira vai subir ao palco acompanhado de dois «figurantes», que o vão ajudar a ressuscitar uma série de conferências sobre Filosofia da Linguagem proferidas pelo importante filósofo da linguagem inglês John Austin, há 43 anos. É isso mesmo. Ricardo vai pronunciar uma palestra sobre a natureza das palavras e o modo como se comportam. Quem espera humor nesta «conferência teatral» não deve desiludir-se. Primeiro porque Ricardo sabe ter piada mesmo quando algo não tem piada nenhuma, e segundo porque são as palavras e os jogos de palavras que geram o verdadeiro humor, porque como dizia Austin «falar é não só dizer, mas também fazer».
How to do things with words
A famosa série de palestras que serve de base a Ricardo Araújo Pereira foi proferida no ano de 1955 na Universidade de Harvard. São uma resposta ao apriorismo linguístico e a uma visão muito formal da linguagem. Ou seja, para um Bertrand Russell e o seu Principia Mathemática, só como exemplo, a linguagem sendo a base que elabora conceitos e que expressa a racionalidade do mundo deve ser analisada na sua perspectiva lógica e formal. Ou seja, interessa mais entender os princípios lógicos de raciocínio que dão estrutura à linguagem, do que entender a linguagem natural e as suas manifestações reais, brutas do dia-a-dia, que para estes aprioristas não passa de uma sombra de verdadeira linguagem formal que é também a linguagem primeira. Austin, um pouco na esteira de um Witgenstein, vem afirmar muito mais do que isto. A linguagem e o sentido que ela expressa não estão apenas contidos na estreiteza das relações lógicas e formais que a constituem. A linguagem verdadeira é a natural porque é performativa, faz coisas, gera reacções no receptor da mensagem, transmite não só conteúdos mas também provoca impactos de carácter emocional. Para Austin, a lógica serve-se apenas de afirmações que são passíveis de serem verificadas, ou seja, de serem verdadeiras ou falsas. Porém, não existem apenas proposições que afirmam algo acerca de algo, mas exclamações, interrogações, imperativos, desejos ou concessões que tornam a linguagem um espelho do espírito e dos seus anseios.
Para ler mais Clique aqui
O convite feito por Lobo Antunes ao RAP para que este estivesse no lançamento do seu mais recente livro pode ter sido, mais do que uma manobra de bom marketing, a prova de que a profundidade do nosso amigo fedorento quebra as usuais barreiras da comédia para penetrar nos limites da intelectualidade. E parece que o que se vai passar a partir do dia 27 no Teatro São Luiz, em Lisboa vai consagrá-lo com o epíteto de Gato Fedorentos mas Intelectual.
Isto porque a partir do dia 27, Ricardo Araújo Pereira vai subir ao palco acompanhado de dois «figurantes», que o vão ajudar a ressuscitar uma série de conferências sobre Filosofia da Linguagem proferidas pelo importante filósofo da linguagem inglês John Austin, há 43 anos. É isso mesmo. Ricardo vai pronunciar uma palestra sobre a natureza das palavras e o modo como se comportam. Quem espera humor nesta «conferência teatral» não deve desiludir-se. Primeiro porque Ricardo sabe ter piada mesmo quando algo não tem piada nenhuma, e segundo porque são as palavras e os jogos de palavras que geram o verdadeiro humor, porque como dizia Austin «falar é não só dizer, mas também fazer».
How to do things with words
A famosa série de palestras que serve de base a Ricardo Araújo Pereira foi proferida no ano de 1955 na Universidade de Harvard. São uma resposta ao apriorismo linguístico e a uma visão muito formal da linguagem. Ou seja, para um Bertrand Russell e o seu Principia Mathemática, só como exemplo, a linguagem sendo a base que elabora conceitos e que expressa a racionalidade do mundo deve ser analisada na sua perspectiva lógica e formal. Ou seja, interessa mais entender os princípios lógicos de raciocínio que dão estrutura à linguagem, do que entender a linguagem natural e as suas manifestações reais, brutas do dia-a-dia, que para estes aprioristas não passa de uma sombra de verdadeira linguagem formal que é também a linguagem primeira. Austin, um pouco na esteira de um Witgenstein, vem afirmar muito mais do que isto. A linguagem e o sentido que ela expressa não estão apenas contidos na estreiteza das relações lógicas e formais que a constituem. A linguagem verdadeira é a natural porque é performativa, faz coisas, gera reacções no receptor da mensagem, transmite não só conteúdos mas também provoca impactos de carácter emocional. Para Austin, a lógica serve-se apenas de afirmações que são passíveis de serem verificadas, ou seja, de serem verdadeiras ou falsas. Porém, não existem apenas proposições que afirmam algo acerca de algo, mas exclamações, interrogações, imperativos, desejos ou concessões que tornam a linguagem um espelho do espírito e dos seus anseios.
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terça-feira, junho 24, 2008
Sugestões
O meu blog, é também o blog de quem quer participar. Nem sempre há tempo para escrever, e nem sempre o que se escreve vai de encontro aos interesses de quem lê. Há tanto no mundo para falar, tanto para pensar e reflectir que é dificil conjugar tudo.
Por isso peço aos leitores deste blog que sugiram, comentem, solicitem determinadas reflexões que possam intrigar, dúvidas que queiram eventualmente ver numa outra perspectiva.
Utilizem o mail que está no scroll do lado esquerdo ou deixem comentário.
Sempre vosso
Ruben Azevedo
Por isso peço aos leitores deste blog que sugiram, comentem, solicitem determinadas reflexões que possam intrigar, dúvidas que queiram eventualmente ver numa outra perspectiva.
Utilizem o mail que está no scroll do lado esquerdo ou deixem comentário.
Sempre vosso
Ruben Azevedo
terça-feira, junho 17, 2008
I do not Know what tomorrow will bring - Pessoas

No passado dia 13 de Junho comemoraram-se os 120 anos do nosso maior poeta da modernidade, Fernando António Nogueira Pessoa. Não há quem nunca tenha ouvido falar dele, embora nem todos o tenham lido de facto, ou sequer depois de o lerem o tenham entendido. E não os censuro. Fernando Pessoa é não só um poeta, mas uma literatura (não sei quem o disse mas soa bem). Ao longo da sua curta vida de 47 anos (…morrem cedo aqueles que os deuses amam…), Pessoa criou pelo menos 72 heterónimos diferentes. Porque:
O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Publicou um único livro em toda a sua vida graças a um concurso promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Neste concurso, o grande Pessoa ficou em segundo lugar em detrimento de um tal sacerdote que escreveu um livro com mais de cem páginas, enquanto A Mensagem de Pessoa tinha apenas 44 poemas, embora todos eles de profundo significado místico. Quem nunca leu
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
?
E um muito apropriado à época em que vivemos, e em geral a todas as épocas de crise:
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!
Ou mesmo um que sempre me inspirou bastante, heróico e verdadeiro:
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Cada vez mais me convenço que a escola não sabe ensinar poesia. A escola matematiza e profissionaliza a poesia. É errado e noventa por cento (numa perspectiva optimista) dos alunos que terminam o secundário não percebe nem gosta de poesia. O que é pena porque pode aprender mais sobre a vida lendo Fernando Pessoa do que tirando uma licenciatura ou lendo os maiores calhamaços intitulados tratados de qualquer disciplina.

Pessoa é o único poeta que continua a publicar anos depois de morto. Há sempre inéditos que vão sendo descobertos. Recentemente até contos policiais foram descobertos e publicados. No entanto, podemos de facto questionar a veracidade de muitas dessas edições ditas «inéditas». Não haverá gente a ganhar dinheiro à custa de pseudo escritos de Fernando Pessoa?
Não me vou estender com biografias. Seria uma hipocrisia escrever aqui uma biografia de Pessoa quando tanta gente já o fez, e o tio Google disponibiliza à distância de um Enter.
Ao morrer Pessoa escreveu: I do not know what tomorrow will bring.
Os grandes homens nunca morrem e merecem toda a nossa admiração.
quinta-feira, junho 12, 2008
Blog de Parabéns!!! - 3 anos e 116 posts depois

E foi assim que no dia 13 de Junho de 2005, dei inicio à aventura deste blog:
Reflexão inaugural
Pura e simplesmente escrever, eis o meu desejo. Tudo flui nesta vida, nestas horas que passam sem dar noticia de nada, neste tédio abrupto em que me encontro e que se me afigura eterno. Penso momentaneamente em qualquer coisa realmente produtiva e que no seu gérmen possua o espírito da eternidade. Tenho de estudar – é verdade! Leio um pouco sobre Antero, o realismo e o positivismo. Eis a Revolução a meus olhos, as grandes ideias, os grandes timoneiros das revolução que, pacientes e convictos nos puxam do lodo da nossa própria mediocridade... E morro de olhos fechados enquanto ouço Chopin.
Talvez a Humanidade nunca se tenha realmente apercebido do essencial. A mudança e a revolução são sonhos demasiado altos e abstractos. O que interessa de facto é viver...mas para quê? Leio Agostinho. Ele acredita fervorosamente no V império. E porquê? De que vale viver se não acreditarmos que o futuro nos trará as soluções para os problemas da sociedade de hoje? Então fico confuso. Viver é criar, e não me basta vegetar no amor e na paixão desenfreada. Há um projecto. Todos somos parte dele. Fomos criados para criar, eis o nosso futuro e objectivo de toda a existência! Aos outros seres vivos ( não lhes chamo animais porque estaria a considerar-me fora desta categoria o que é um puro acto de arrogância, portanto de estupidez), estão determinados pela existência a serem como são. A evolução trouxe-os até um determinado patamar, e hei-los felizes. Nós seres humanos somos os mais infelizes animais do Universo. A necessidade que temos de nos agarrar seja a que metafísica for, a procura constante da moralidade, a consciência lúcida da nosso carácter inacabado deixa-nos pouco tempo para viver. Mas porque nos trouxe a evolução até este patamar privilegiado (ou não)? Paro um pouco e sinto falta de uma cigarrilha. Já fumei uma hoje e não pretendo abrir precedentes e fumar outra. Tantas vezes esbarrei contra a vastidão imensa das grandes questões, e sempre que isso acontece sinto uma náusea mental imensa. Peço à minha irmã para pôr Chopin de novo. Preciso da sua melodia para lucidamente ir puxando a meada que já vislumbro, mas que raras vezes tenho coragem para puxar até ao fim, o que na prática é impossível...
Onde é que eu ia?
Na Natureza e nesta intrincada máquina a que chamamos mundo, nada acontece por acaso. Não sou Deus, e deveria talvez abster-me de afirmar tal coisa mas sinto que, no mais profundo de mim mesmo, àquela profundidade onde me confundo com Absoluto e me dissolvo no Uno, o Ser caminha subtilmente e constante por veredas determinadas. É a intuição de alguém que é feito da massa do Universo, como o filho que subtilmente se apercebe dos pensamentos da mãe por do seu ventre ter derivado.
Somos Natureza. Não podemos negá-lo. Talvez quisesse o Universo tomar consciência de si mesmo através dos nossos olhos. Usar os nossos sentidos e capacidades para se compreender, se moralizar, se perspectivar, se experimentar... Porque não nos foi dada a verdade de mãos beijadas? Porque não nos foi dado o caminho, apesar de sermos máquinas tão perfeitas e complexas? Terão as placas de Moisés a resposta? Serão os preceitos de tantos profetas a verdade e o caminho? Talvez até tudo já nos tenha sido oferecido de mãos beijadas, ou talvez o tenhamos pago com todo o sangue derramado pelos séculos dos séculos. Se já nos foi dada porque continuamos a questionar? Talvez a sociedade e a moral sejam isso mesmo – simples motores de aceitação passiva da verdade, para que o acto de questionar se dissolva progressivamente e o Universo em nós se compreenda... mas para quê? Não me parece que o Universo pretenda compreender-se definitivamente com simples convenções tantas vezes humanas e mal interpretadas. Não está nos seus objectivos supremos Não matar, Não mentir, Não cometer adultério, Não adorar outros deuses, etc. Não nego que são convenções importantes, são porém um caminho dado para alguma coisa mais que não compreendemos. Quererá o Universo contemplar-se pura e simplesmente como um Narciso que passa horas a olhar-se reflectido no lago? Temos sempre de resistir à tentação de antropomorfizar a realidade: eis o maior dos pecados! Não me parece que o Absoluto seja qualquer coisa de semelhante a vaidoso...
Tantas questões e tão poucas respostas. Afinal se todas as respostas fossem desveladas o que seriamos nós e a nossa natureza inquisidora?
3 anos e 116 posts depois, o blog continua cada vez mais florescente, cada vez mais sério e interventivo. Está bem diferente em conteúdo e em imagem em relação aqueles primeiros e ingénuos dias de 2005. Desde poemas a artigos, a simples reflexões e até a desabafos simples. Um blog que nasceu de uma vontade de reflexão, e muito deve agredecer a esses senhores do séc XIX que se juntavam em «Cenáculos» para discutir e contribuir para a regeneração cultural do nosso país.
Acredito que está de parabéns. Obrigado a todos os que têm acompanhado este lugar de reflexão, e aqui e ali também contribuiram de alguma forma com comentários e sugestões.
3 anos é apenas a infância. Ainda tem uma vida pela frente e muito a aprender, assim espero.
Ruben
sexta-feira, junho 06, 2008
Agricultura Non Grata - quando teremos de plantar o que comemos?
Foto Público On-Line - Cidadão inglês cultiva horta caseiraA crise alimentar deve-se também, em parte, ao abandono da agricultura. O centro de gravidade das sociedades derivou do rural para o urbano, e a agricultura deixou de ser para quase todos, um futuro desejável em termos vocacionais.
A economia de mercado e a crescente dependência da UE e das suas prerrogativas federais impõe que o cidadão europeu, mais do que produzir, consuma. Para produzir existem cotas estritas de mercado que não podem ser ultrapassadas, havendo risco de não haver mercado para os stocks e os preços descerem abruptamente. Há cotas para a agricultura, para a pesca, enfim, para um sector terciário cada vez mais frágil e mal visto.
Um país que tenha a veleidade de querer ultrapassar estas prerrogativas e se preste, como uma Inglaterra patriótica e de longa tradição democrática, a fomentar o cultivo nacional e o consumo também nacional, é de imediato acusado de proteccionismo de mercado como se tal método fosse um papão a abater. E é de facto um papão para os grandes grupos que possuem o monopólio dos mercados, porque se um país produzir tudo o que precisa é lógico que não vai comprar fora. É uma das desvantagens de pertencer a uma União de Estados, o facto de tal união implicar forçosamente o incremento das dependências.
É isto que falta a Portugal, um verdadeiro sentido patriótico como o que levou os ingleses em plena Segunda Grande Guerra a atender ao apelo do necessário esforço de contenção que impunha racionamentos dos então escassos recursos. Um apelo que levou os cidadãos comuns a plantar as suas pequenas hortas caseiras, à semelhança do nosso amigo na foto.
Infelizmente em Portugal sempre se fomentaram dependências. Em várias épocas da nossa história sempre preferimos depender, ir para fora para enriquecer, trocar géneros como o vinho por textéis, viver subsidiados e raramente contrariados. Entrar para a UE também nos satisfez um pouco esta vontade de subsidariedade. Os fundos estruturais que de lá vêm fresquinhos de tempos a tempos sempre nos souberam muito bem. A emigração em massa para França, Suiça, EUA, contribuiram também em parte para o abandono das terras e do cultivo, em parte por causa de um regime não muito libertador e, sobretudo, pouco interessado em libertar o povo de uma ignorância quase crónica. Os anos de colonialismo também contribuiram para tirar o brilho ao nacional e alimentar o mito de que, lá fora, é que se podia de facto enriquecer. É verdade que muitos enriqueceram, mas entretanto no país real, aquele de que hoje somos herdeiros, os campos iam ficando abandonados ao tempo e às silvas, a produção nacional foi sendo encostada para canto como recurso secundário, sempre secundário e nada interessante.
Enfim, quando teremos também de pegar nas sacholas e começar a plantar aquilo que comemos?
Segundo um interessante site chamado Lusotopia, Portugal possui 38% de floresta. 93% pertence a privados, mas para que fim são utilizados os recursos florestais? Celulose, sempre celulose, eucalipto à fartasana para papel. Agricultura? Pouca. Diz também que neste momento só 5% do total da empregabilidade é na àrea agricola. Sintomas a diagnosticar...
quarta-feira, junho 04, 2008
Morre Lentamente - Pablo Neruda
Tive oportunidade de ler um poema muito interessante do grande poeta chileno Pablo Neruda num blog chamado «O Nosso Cenáculo». Tomei conhecimento da existência deste blog recentemente, e chamou-me a atenção pela semelhança relativamente ao nome deste mesmo blog. São 4 simpáticas raparigas unidas, tenho a certeza, pelo gosto da escrita e do pensamento. Agradeço-lhes e tomo a liberdade de também aqui publicar o poema.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...
Pablo Neruda
Agora, parece-me que este poema/texto/pensamento merece, mais do que estar exposto à vista de todos, alguma reflexão individual sobre o que está escrito. Reflexão profunda, reflexão que faça aderir estas palavras à nossa própria vida, como se dispuséssemos um papel vegetal sobre a nossa vida para depois redesenharmos os contornos e as proeminências. As palavras comovem muita gente, arrancam suspiros umas vezes sinceros outras vezes apenas corteses. Está na altura de através da carne entendermos o espírito.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...
Pablo Neruda
Agora, parece-me que este poema/texto/pensamento merece, mais do que estar exposto à vista de todos, alguma reflexão individual sobre o que está escrito. Reflexão profunda, reflexão que faça aderir estas palavras à nossa própria vida, como se dispuséssemos um papel vegetal sobre a nossa vida para depois redesenharmos os contornos e as proeminências. As palavras comovem muita gente, arrancam suspiros umas vezes sinceros outras vezes apenas corteses. Está na altura de através da carne entendermos o espírito.
terça-feira, junho 03, 2008
A ONU e as recomendações contra a Crise Alimentar - Quem vai ouvi-las?

Segundo o Público On-Line, Banki Moon anunciou hoje as primeiras recomendações para enfrentar a crise alimentar mundial. Recomendações essas a que os governos devem estar atentos.
Transcrevo parte da noticia:
O responsável defendeu que a comunidade internacional deve apoiar os países que estão a ajudar os seus agricultores fornecendo-lhes sementes e fertilizantes, os dois factores de produção que mais repercutiram o aumento do preço do petróleo.
Lembrando que esta crise poderá acrescentar mais 100 milhões de pessoas aos 850 milhões que já passavam fome, Ban Ki Mon anunciou algumas das primeiras recomendação do grupo de trabalho criado no seio da ONU para responder à crise alimentar. O primeiro passo, disse, é permitir o acesso a alimentação por parte das pessoas mais vulneráveis o que passará por aumentar a ajuda alimentar, expandir programas de protecção social e incrementar a produção agrícola dos pequenos produtores através da doação de sementes e fertilizantes de forma a que possam plantar ainda este ano.
Ou seja, para os países ditos desenvolvidos a solução passa por um incremento dos apoios dos estado à agricultura, suportanto algumas das despesas relativas à matéria prima. Para os países em vias de desenvolvimento, Banki Moon anuncia apoios financeiros em larga escala:
Para já, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que organiza esta conferência, apelou à doação de 1100 milhões de euros para apoiar a agricultura dos países mais pobres. O Programa Alimentar Mundial conseguiu arrecadar, junto de 31 nações, os 486 milhões de euros que necessitava para responder aos compromissos que assumiu para este ano. O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola irá transferir 129 milhões de euros para os agricultores pobres e o Banco Mundial criou um sistema de financiamento de 770 milhões de euros para apoiar também a produção de alimentos.
Desde que tais ajudas financeiras não fomentem mais ainda o assistencialismo dos países em vias de desenvolvimento, estamos bem. O Programa Alimentar Mundial é essencial para apoio a comunidades desfavorecidas, nomeadamente a refugiados. Agora, o que importa de facto é que os países em vias de desenvolvimento aumentem a sua produção agricola e, sobretudo, a diversifiquem. As ONG´S têm o dever de apoiar e formar futuros agricultores em África. Não basta atirar dinheiro para cima dos problemas. É preciso encontrar mediadores sérios que levem o dinheiro para onde ele é mais preciso, e sobretudo que saibam o que fazer com ele. Só as ONG´S podem fazê-lo, e bem feito. Sabemos que os Estados mais pobres raramente são Estados de Direito, e portanto os governo destes estados nunca são bons intermediários.
segunda-feira, junho 02, 2008
Rock in Rio - Caos, Espectáculo e Vinho da Casa
90 mil pessoas encheram o parque da Bela Vista no primeiro dia do Rock in Rio. 90 mil pessoas responderam ao apelo das luzes, do espectáculo, da embriaguez que o mergulho na multidão e no transe musical sempre trazem. Eu próprio lá estive.
Será uma questão sociológica? Filosófica? Talvez. As pessoas precisam de se diluir na multidão, de perder a sua identidade acreditando que, com isso também as suas tristes vidas se dissolverão na confusão, na batida e nas melodias pungentes. As pessoas precisam de quebrar as suas rotinas enfadonhas e de pelo menos durante umas horas, não pensarem nos problemas e nas variadas frustrações de que é feita a vida.
Exemplo disto mesmo foi uma senhora de nome Amy Whinehouse, que enfureceu os seus fãs ao chegar 40 minutos atrasada ao palco Mundo, ainda por cima em condições deploráveis, dignas de um trapo humano. Bebeu, fumou, quase caiu. Pediu desculpas e da parte dos fãs havia sempre um pano quente, porque afinal «Amy é mesmo assim, toda a gente sabe!». 90 por cento das pessoas condenaram aquela figura, outros 10 por cento tiveram compaixão daquele «talento tão jovem e promissor cheio de mágoa». As pessoas na verdade gostam de espectáculo, quanto mais sujo e degradante melhor. Basta pensar nas lutas de gladiadores do passado, ou no afamado vício português do «mirone» que pára até no meio da auto-estrada para ver um corpo acidentado e exangue. Neste acaso era apenas uma rapariga de 24 anos, vítima da solidão própria da fama, vítima de um passado que talvez ainda hoje determine o seu comportamento, vítima de uma má aprendizagem acerca do modo com se lida com as frustrações e os nãos da vida. E nem a fortuna de 12 milhões de euros a pode salvar de si própria, se a razão e o bom senso não prevalecerem. Pelo contrário, pode ajudar a destrui-la. É um bom exemplo para todos nós, ainda que um mau exemplo para muita juventude mal informada e que vê nela um modelo de vida.
terça-feira, maio 27, 2008
segunda-feira, maio 26, 2008
Phoenix renasce das Cinzas - sonda aterra em solo marciano sem problemas
Hoje (2ª feira dia 26 de Maio) pelas 00h54, o Centro de Controlo da NASA de Pasadena (Califórnia), recebe a confirmação via rádio da suave aterragem da sonda Phoenix em solo marciano. Depois de entrar na atmosfera de Marte a sonda atingiu a velocidade de 21 mil Km/h (5.83km por segundo) e durante 7 minutos correu sérios riscos de desintegração.
Foi um momento histórico. Desde o sucesso da sonda Pathfinder em 1996 que a NASA não conseguia fazer pousar um aparelho em solo marciano. Portanto, 12 anos depois o sucesso repete-se. E desta vez com uma ajudinha particular da ESA.
Foto da paisagem marciana tirada em 1996
A missão Phoenix procura complementar os dados obtidos em 1996. Porém, a zona de amostra é ligeiramente diferente. Desta vez a sonda aterrou em plena calota polar de Marte, onde se sabe que existe água no estado sólido. Visto que os gelos na calota de Marte são eternos ou perenes, é possível que a análise em profundidade deste mesmo gelo revele características por exemplo, da composição da atmosfera de Marte há 10 mil anos. Permite também perceber se em algum momento terão existido compostos ou moléculas de Carbono, Metano, Hidrogénio, compostos esses prenunciadores de vida.
A sonda Phoenix terá uma vida útil de 90 dias. Mas há semelhança da sonda Pathfinder que continuou a produzir dados mesmo depois de expirada a vida útil, o mesmo poderá acontecer com a Phoenix.
Para ver a notícia e o vídeo da aterragem, clique aqui.
Foi um momento histórico. Desde o sucesso da sonda Pathfinder em 1996 que a NASA não conseguia fazer pousar um aparelho em solo marciano. Portanto, 12 anos depois o sucesso repete-se. E desta vez com uma ajudinha particular da ESA.
Foto da paisagem marciana tirada em 1996 A missão Phoenix procura complementar os dados obtidos em 1996. Porém, a zona de amostra é ligeiramente diferente. Desta vez a sonda aterrou em plena calota polar de Marte, onde se sabe que existe água no estado sólido. Visto que os gelos na calota de Marte são eternos ou perenes, é possível que a análise em profundidade deste mesmo gelo revele características por exemplo, da composição da atmosfera de Marte há 10 mil anos. Permite também perceber se em algum momento terão existido compostos ou moléculas de Carbono, Metano, Hidrogénio, compostos esses prenunciadores de vida.
A sonda Phoenix terá uma vida útil de 90 dias. Mas há semelhança da sonda Pathfinder que continuou a produzir dados mesmo depois de expirada a vida útil, o mesmo poderá acontecer com a Phoenix.
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