Anúncios google

quarta-feira, agosto 27, 2008

Humanidade - Mudança - Futuro




















O que podemos e devemos esperar do futuro da humanidade, senão transformação? Se realmente acreditamos nessa coisa incerta a que chamamos futuro, não será urgente mudar qualquer coisa de forma duradoura? Nesse caso, o que mudar, e como mudar?

Talvez para muitos não seja preciso mudar nada. Há muito quem – aparentemente – esteja tão satisfeito com a sua vida que não lhe surja como prioridade imediata a mudança. Só que noventa por cento da Humanidade não está satisfeita com a sua vida, seja porque passa fome, porque esteja doente ou porque viva um dia-a-dia de opressão e sofrimento. Sim, talvez mais até do que noventa por cento… Há os que declaradamente sofrem com isso, os que declaradamente vivem na fome e na pobreza, os mesmos que vemos expostos nos telejornais, de barrigas hipertrofiadas e moscas a passear como que prenunciando a morte nos seus corpos fragilizados. Há os que declaradamente são espancados, enjaulados, censurados e mortos politicamente por forças que os ultrapassam e não vêm com bons olhos a subversão e o pensamento diferente. Há as pequenas nações sem «interesse estratégico» ou, pelo contrário, com demasiado «interesse estratégico» que são invadidas, anexadas, estropiadas por países de carisma superior, em nome de valores como a «libertação» ou a «democracia», e quantas vezes com o beneplácito de quem interpreta o direito internacional a favor de interesses obscuros. Há quem sofra declaradamente, e há quem sofra calado. Há quem viva oprimido 24 horas por dia nos países ditos do Ocidente; há telhados que escondem prisões e opressões sem precedentes, lentas decadências e auto-destruições que, mais que físicas, assumiram um carácter psicológico. Há quem esconda a pobreza por vergonha, e há quem se auto-censure e não faça valer os seus direitos para não perturbar pequenos interesses ou até um hipotético futuro. Há quem tenha medo dos tribunais e da justiça, em vez de encontrar nela o seu maior aliado e garante de liberdade. Há quem não acredite nos seus governos e no futuro, e prefira canais menos próprios para encontrar uma vida mais digna materialmente, nem que essa tal «dignidade material» implique passar por cima da dignidade que importa de facto… Há crianças que crescem e vêem os seus sonhos mortos à partida, a sua criatividade enjaulada em ditames de moral e educação que visam torná-las «aptas para o mercado» e não seres humanos no verdadeiro sentido do termo. Há idosos que se riem perante as ilusões de uma sociedade que aumentou a esperança média de vida, enquanto salivam para uma babete e ajeitam os seus corpos cansados em cadeiras de rodas, atirados para a solidão dos lares ou do abandono familiar. Há quem trabalhe uma vida e no fim não seja reconhecido.

Há criminalidade a aumentar de dia para dia. O desplante para cometer os mais hediondos crimes; um desrespeito absoluto pelo ser humano e pela dignidade deste vai devagar tomando lugar no coração das pessoas. A relatividade de valores que deixaram de ser referência, a «morte de Deus» que significa cada vez mais a morte da moral, a publicidade de uma rebeldia instituída nas televisões, no cinema; a tecnização da vida, a deificação da tecnologia e do útil, atirando as humanidades para um gueto de morte; a violência latente no descontentamento e no desenraizamento das pessoas, das comunidades, da vida; o barulho, a frenética correria pela felicidade empacotada e com livro de instruções; a competição e um individualismo cerrado fomentado pelo mercado…

Não sou nem serei última pessoa a fazer tais diagnósticos. Tornou-se praticamente senso comum.

O futuro da humanidade só pode passar por encontrar uma ética fundamentada de tal maneira que possa ser compreendida e respeitada por todos. O medo não pode de modo algum voltar a ser o tal fundamento, como em tempos as igrejas com o seu poder e sapiência fizeram valer o seu poder de controlo das massas. Não é pelo medo de ir parar ao inferno que o homem se superará e será moralmente irrepreensível. Não é pelo castigo subliminar que o homem será Homem, mas por qualquer coisa diferente. Com isto entenda-se que não falei de Deus, nem sequer de religião, mas de igrejas humanas e instituídas. O futuro da humanidade só pode passar por uma mudança clara de mentalidades, uma superação de todas as ignorâncias para que não haja equívocos quanto ao significado de Liberdade. O homem, político, cidadão comum, pai, mãe, carpinteiro, médico, professor, terá de aprender e viver segundo esta ética, estando completamente despido de ignorância, obscurantismo, eternamente crítico do mundo mas ao mesmo tempo humilde o suficiente para compreender que não possui a verdade, apenas a procura. Tem de ser um homem livre – ou talvez apenas deva -, livre de si mesmo, consciente das suas fraquezas e limitações, consciente da sua dignidade, duro o suficiente para defendê-la, flexível o suficiente para evitar conflitos. Talvez o homem do futuro deva compreender que é errado olhar demasiado para o chão esquecendo que, por cima de si, existe um imenso céu.

De onde pode vir a mudança? Há quem diga que de fora. Legislar, alterar os regimes e instituições será o caminho. Será? As pessoas mudam a sua forma de ser estejamos num regime comunista ou capitalista? Deixará de haver crimes, maldade, egoísmo, se houver mais prisões e penas mais pesadas?

E se a mudança vier de dentro?

domingo, agosto 24, 2008

Rumos Incertos




O conflito na Geórgia teve o condão de provar um aspecto assustador – o mundo não está preparado para se defender eficazmente contra veleidades imperialistas de blocos poderosos como a Rússia. A questão é simples. Assemelha-se em grande parte ao que se passou em vésperas da Segunda Grande Guerra, quando a Alemanha integrou sem um tiro e perante a imobilidade da comunidade internacional, a Áustria e a Checoslováquia. É verdade que o horror da Primeira Grande Guerra ainda estava fresco nas memórias dos agentes políticos, e não tenho dúvida que os horrores da Segunda ainda estão também frescos na memória dos agentes políticos de hoje (pelos menos na maioria, sobretudo se sabem alguma coisa de história). Nos dias de hoje, mais do que essa memória comum existe outro factor que imobiliza os estados perante novas ameaças imperialistas, sobretudo quando tais ameaças provem de blocos poderosos e bem armados. Esse factor é uma noção muito simples: qualquer guerra futura entre dois blocos poderosos recorrerá inevitavelmente ao uso de armas de destruição maciça e, ipso facto conduzirá à destruição e obliteração mútua dos blocos beligerantes. Mais do que a memória do passado, é o terror do futuro que ainda consegue atribuir valor à diplomacia perante crises da natureza do conflito russo-georgiano.

Não nos podemos iludir. Os equilíbrios que herdamos da Segunda Grande Guerra também terão o seu fim, tornar-se-ão obsoletos perante novas realidades globais. Instituições como a NATO terão de reconsiderar o seu papel no mundo de hoje, um mundo que já não se mede pelos padrões de uma guerra fria, mas pretende alicerçar a pouco e pouco os fundamentos da Paz futura. A NATO – como quem diz EUA – tem de questionar-se seriamente se vale a pena uma contínua expansão, um contínuo alargamento, que não deixa de ser sinónimo de ameaça nomeadamente ao bloco russo e chinês, acelerando uma inevitável corrida ao armamento e ao incremento de tensões. A ONU tem de se reformar, sobretudo no que concerne à constituição permanente do seu Conselho de Segurança. Nem a Rússia, nem a China, nem os EUA são hoje os mesmos de há 60 anos. Fará sentido que uma Rússia ou uma China, independentemente de recorrentes ataques ao direitos humanos continuem a ter poder de veto no CS? Não me parece que tal faça muito sentido. O poder de veto da Rússia impediu por várias vezes que se aprovassem resoluções acerca da invasão da Geórgia, e o mesmo podemos dizer acerca da invasão posta em prática pelos EUA no Iraque em 2003, que à revelia da ONU e de forma unilateral foi levada a cabo. Situações deste tipo não são do interesse de nenhum país, de nenhum bloco ou instituição, porque fragilizam e descredibilizam cada vez mais a instituição na qual se põem todas as esperanças de paz verdadeira e duradoura – a Organização das Nações Unidas. Não podemos voltar a um mundo em que os mais fortes decidem em detrimento dos mais fracos, e a lei é escrita por quem tem poder bélico, energético e humano suficiente para impor as suas regras e escrever a história à sua maneira.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Petição - Idade não é sinónimo de Invalidez

Estou a patrocinar uma petição on-line direccionada para todos aqueles desempregados com mais de 35 anos que, exactamente por terem mais de 35 anos, são discriminados na procura de emprego por critérios de recrutamento duvidosos.

Deixo um resumo do essencial

Esta petição pretende solicitar à Assembleia da República que pressione legislativamente o Governo para que tome medidas conducentes a retirar dos anúncios das ofertas de emprego a restrição relativa à idade, à semelhança do artigo 27º alínea 2 do Código de Trabalho que proíbe qualquer referência a restrições relativas ao sexo do candidato. Solicita-se também à AR para que legisle no sentido de coagir as empresas que discriminem o candidato relativamente à idade, ou promova incentivos fiscais ou de outro tipo para as empresas que empreguem candidatos com mais de 40 anos desempregados, valorizando a sua motivação e experiência. Será sem dúvida melhor para as empresas e para o país.

Para votar Clique Aqui

Não custa nada, e bastam 2500 assinaturas para pressionar a Assembleia da República ao abrigo da Lei nº43/90 de 10.08.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Resolução



De quanta imaginação não é feita uma vida para se compensar o que se não realizou! Já todos o sabemos e nunca ninguém o sabe. Se fosse coisa de se saber, não havia maníacos da droga, do fumo ou do álcool. Projecta-se milimetricamente uma reacção a ter, uma ofensa a vingar, uma desconsideração a menosprezar, uma conquista a fazer. E sai sempre outra coisa: nem nos vingamos porque se interpôs uma fraqueza, nem menosprezámos a desconsideração porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquistámos nada porque amanhã é que é. Mas falhada a nossa reacção, logo congeminamos de novo efectivá-la e com acréscimo de efeito. Até que o tempo e a morte tudo decidam irremediavelmente por nós. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais fácil de resolver é sempre o não resolver.

Vergilio Ferreira

domingo, agosto 03, 2008

Volta Já

O Cenáculo está de férias, embora prometa voltar brevemente e em força. Cumprimentos a todos os leitores que o acompanham e nele comentam.

Ruben Azevedo

segunda-feira, julho 14, 2008

Castelo das Paixões - recriação histórica e amor impossivel



Para quem tem um especial apreço pelo ambiente medieval, pelas lendas e histórias que se perdem em objectividade mas ganham em nebuloso e misterioso, fica uma bela sugestão para as sextas-feiras à noite dos meses corrente e de Agosto.

Castelo das Paixões é uma recriação histórica do cerco imposto por D. Urraca, irmã de D. Teresa de León e mãe do nosso rei fundador. Cerco que manteve D. Teresa prisioneira na sua própria casa, o castelo de Lanhoso. Pelo meio temos uma bela história de amor medieval, como não poderia deixar de ser. Amor impossível e doloroso, entre um espírito nocturno na forma de uma mulher belíssima, e um homem mortal.

Tem todos os ingredientes para ser um espectáculo envolvente. Encenado nas próprias muralhas do castelo, com tochas, vestes medievais, e um elenco fabuloso do qual fazem parte alguns actores já conhecidos do nosso panorama televisivo, Castelo das Paixões faz-nos remontar ao séc. XI e até em certos momentos, participarmos da própria encenação.

O preço do bilhete é de 10 euros e pode ser comprado no posto de turismo da Póvoa do Lanhoso.

Para saber mais clique aqui.

quarta-feira, julho 09, 2008

Causas de uma decadência anunciada - marketização e felicidade instantânea



A sociedade em que vivemos baseia-se no mercado, no económico, no consumo, no lucro. É uma sociedade que se assemelha a um enorme shopping, uma feira interminável. Seja em casa, na rua, no emprego, a publicidade e o apelo à compra estão sempre presentes para onde quer que se olhe. Há uma marketização do humano. E neste furor não é só a tecnologia que avança – uma das vantagens da economia de mercado – mas também os métodos de marketing. O marketing aprendeu a jogar com o psicológico. A verdade substituiu-se em quase todas as dimensões pela mentira bem vestida. As relações humanas são a maior parte das vezes no âmbito do prestador/cliente. Servir bem o cliente é ser-se profissional, que significa vestir bem para bem se apresentar aos olhos do consumidor. Pelo que se vê, todos os domínios do humano acabaram por viver sob o jugo da troca e lucro. A própria publicidade melhorou os seus métodos de venda de produtos, descobrindo que a melhor forma de os vender é também vendendo modelos de felicidade. O marketing logrou provar às pessoas que sem determinados produtos jamais serão felizes. Dito de outra forma, a felicidade é inatingível sem últimos modelos e topos de gama. Isto está presente em quase tudo, desde os telemóveis aos automóveis, passando pelo turismo aos livros de auto-ajuda. O que se passa neste modelo de marketização é que tudo está ao alcance mais imediato, desde que se tenha dinheiro. Ser-se feliz, reconhecido e com algum estatuto está ao alcance do livro de cheques. Porque sem consumo esta sociedade não sobrevive, morre e perde razão de existir. Vemos uma progressiva aceleração do modo de vida nos últimos anos, porque necessidades atraem necessidades, e ter coisas implica ter outras coisas, o que por sua vez implica ter dinheiro para delas usufruir, o que implica emprego, velocidade, correria, chatices várias, menos tempo para os filhos, os amigos, a vida no seu estado mais puro. Para perseguir os modelos de felicidade que nos vão sendo subliminarmente impostos, aceitamos ceder parte da nossa liberdade e felicidade para, em troca, recebermos os meios de os atingir. Só somos felizes se tivermos carro, telemóvel, mp3, dvd, mp4, ipod, e um pc portátil. Mas para ter tudo isto temos de ter um emprego que o permita. Se nesse emprego ganharmos pouco, faremos tudo para ter um melhor. Tudo tanto pode significar procurarmos uma melhor formação, como utilizarmos métodos menos próprios abdicando da nossa dignidade e escrúpulos. Nada importa, se no fim tivermos todos aqueles equipamentos de que falei anteriormente. E porque a felicidade que nos vendem é uma ilusão, isso portanto nunca nos vai chegar. Queremos mais, queremos ir de férias nos roteiros comerciais que nos impingem nas televisões e nos cartazes de rua. A moda define o que num determinado período significa ser feliz. Queremos melhores marcas, mais vistosas e opulentas. E porque queremos mais e mais permitimo-nos trabalhar mais e mais, abdicar de mais e mais tempo para os filhos, amigos, namorados, familiares. Permitimo-nos estraçalhar um pouco mais a nossa dignidade e a dos outros. E com isto não quero dizer que não há quem não tenha mérito, porque o há sem dúvida. Há quem de facto cresça e melhore o seu estatuto profissional graças ao seu trabalho incansável e inteligência superior. E ainda bem. Com isto segue-se a crise do «inútil». Porque a felicidade só se atinge pelo material, útil e funcional, tudo o que não o seja está condenado à extinção. Se para o mercado melhorar a sua oferta são precisos mais técnicos e melhores, mais especialistas e melhores, então o que interessa é seguir um emprego com saída para se ter logo acesso ao mercado do emprego, ou tornar-se mais «bem vestido» para o mercado do emprego. Ai está de novo o marketing, porque se não estivermos «bem vestidos» para o mercado do emprego podemos não conseguir cumprir o nosso último objectivo, o de ter tudo aquilo que nos fará em ultima instância felizes: carro, telemóvel, mp3, dvd, mp4, ipod, e um pc portátil, boas férias nos circuitos da moda, estatuto perante os outros. Portanto, para que servem as religiões? Para que serve a filosofia, a metafísica e as humanidades em geral? Se não for para dar lucro, se não for para terem utilidade de mercado, nada!



Como já disse anteriormente, se a felicidade que se vende é ilusória então ela nunca chega, nunca preenche. A sociedade de mercado gera, para sua própria sobrevivência, pobres. Gera pobres em grande número, mas não se pode dar ao luxo de gerar miseráveis, pois sem consumidores aquela cai como um castelo de cartas. Mas precisa de pobres porque precisa de quem trabalhe. Precisa de quem diga «sim, preciso de trabalhar para ter acesso àquilo que os outros também têm». Porque se ninguém trabalhar, as indústrias não funcionam, a não ser que um dia sejam as máquinas a fazer o trabalho todo. A sociedade liberal encerra em si um interessante paradoxo. É preciso que todos tenham dinheiro, mas só alguns podem ser ricos. Se por acaso todos começam a ter dinheiro este deixa de valer, e portanto os preços aumentam (inflação). Porque se o capital individual aumenta, aumenta também a procura e portanto os preços. Por mais que se diga e as utopias falem mais alto, a sociedade de mercado não pode ser uma sociedade de ricos. O sistema económico liberal precisa de pobres, é desta forma que está equilibrado e quando este equilíbrio está ameaçado ele de imediato o repõe gerando mecanismos para que o poder de compra baixe. Enfim, um problema grave para o futuro. Onde quero chegar é que as pessoas de hoje estão imbuídas de duas ideias: a primeira é a de que o imediato é o caminho para a felicidade; a segunda é a de que a felicidade está à venda. Já percebemos o porquê. Isto explica por exemplo o retrocesso das religiões ditas institucionais (pelo menos no espaço ocidental) e o aumento da procura de ideologias que tudo prometem. Lembro-me do caso da fraude «O Segredo». São os chamados bezerros de ouro. Desiludidas com uma felicidade que demora, que é difícil e implica valores e sacrifício, o mundo deixa-se arrastar por um mundo de promessas de felicidade instantânea. Mais uma vez é o mercado em acção. Se as pessoas querem riqueza e felicidade instantânea, não faltam editoras a viver à custa desta ânsia que editam todos os dias livros com receitas práticas e com «sucesso garantido». Basta ir a uma livraria para o comprovar. Vivemos numa nova idade média, estou certo disso. Uma idade da ignorância e do obscurantismo. As pessoas são permeáveis a promessas sem fundamento, e ideias supostamente «cientificamente provadas». Nem conseguem distinguir entre romances históricos e realidade científica! Basta ver o que aconteceu com o Código Da Vinci… A ignorância é também um trunfo da sociedade de mercado. Poderão dizer que, hoje, a informação está disponível para todos ao alcance de um clique do rato, ou que há melhores técnicos. É verdade sem dúvida, mas jamais informação significou formação, e o mercado precisa de que quem tenha informação técnica, não formação humana. A formação humana é perigosa porque considera-se capaz de consumir menos, por em causa o marketing e a felicidade de super-mercado com livro de instruções.

quinta-feira, julho 03, 2008

Irena Sadler - Anjo do Gueto de Varsóvia



Há heróis para todos os gostos. Uns têm glória cedo, outros muito tarde. Mas no fim, quase sempre são reconhecidos por aquilo que fizeram em prol de valores mais altos. O cinema e a mestria de Spielberg imortalizaram Oscar Shindler, o indutrial alemão que salvou 1000 judeus, literalmente comprando-os aos alemães e integrando-os na sua fábrica de armamento que, na verdade, nunca produziu uma bala que fosse capaz de ser disparada. Gastou todo o pecúleo acumulado durante anos e anos para comprar judeus, subornar altos oficiais alemães, manter uma fábrica falhada. Enfim, basta ver a Lista de Schindler para ter uma ideia.

No entanto, outros heróis encontraram o seu lugar ao sol da História. Recentemente ouvimos falar de uma senhora quase centenária, desconhecida até há bem pouco tempo, longe dos holofotes de Hollywood, internada num lar para idosos em Varsóvia. É daqueles casos em que a glória chega tarde, mas é sem sombra de dúvida mais que merecida.


Sabemos que os alemães, antes de enviarem os judeus para os campos e por uma questão de organização, criaram uma cidade dentro de uma cidade - um gueto -, que ficou conhecido como Gueto de Varsóvia. Neste gueto o número de judeus atingiu o meio milhão. Desta forma, os alemães foram lenta e friamente, preparando os judeus para a liquidação e extermínio nos campos de concentração. Os alemães consideravam os judeus sub-homens, homens inferiores pejados de piolhos e doenças. Como tal evitavam o contacto com estes, temendo uma epidemia de tifo que rapidamente se poderia alastrar dentro das condições precárias do gueto. Nomearam pessoal polaco para sujar as mãos e gerir o gueto. Irene Sendler trabalhava no Social Welfare Department, uma espécie de Segurança Social que geria cantinas e assistia sanitariamente e logisticamente os mais pobres de Varsóvia. Claro que os mais pobres de Varsóvia, a certa altura e perante as pesadas restrições impostas pelos alemães, eram os judeus. O tal departamento ficou também responsável por assistir o gueto e os judeus que lá viviam. Pelos vistos a sua fama de «amiga dos judeus» valeu-lhe uma «estrela», não igual à que os judeus foram obrigados a usar, mas uma espécie de marca que a designava pró-judia.

Cedo, a sua influência dentro do departamento permitiu-a entrar em contacto com as familias judias e as suas dificuldades. Permitia-lhe uma enorme liberdade dentro do gueto. A certa altura começou a transportar crianças judias dentro das ambulâncias para fora do gueto, com a desculpa de que estariam com tifo. Entusiasmada, convenceu uma pessoa em cada um dos dez centros que constituiam o departamento de Social Welfare a participar na fuga dos judeus. Conseguiu mover influências que lhe permitiram falsificar milhares de documentos falsos com novas identidades para as crianças judias que se evadiam. A certa altura, depois de sedar as crianças, conseguia evadi-las dentro de sacos de batatas e até caixotes que, supostamente carregavem géneros. Havia uma igreja cristâ dentro do gueto. Leva por vezes crianças judias consigo, fazendo-as sair por uma das duas saidas da igreja que dava para o sector ariano de Varsóvia. Entravam como judeus, saiam como cristãos à vista dos alemães. A pergunta que mais doía e mais pesava na sua consciência vinha dos pais das crianças. Hesitantes em separar-se dos filhos perguntavam-lhe «tem a certeza que vão viver?». Sim, embora não tivesse certeza, o certo é que viveram. Até há pouco tempo, antes de falecer no lar de Varsóvia, muitas desses antigas crianças hoje com 70 anos ou mais, vinham agradecer-lhe e deixar-lhe flores, depois de verem a sua foto nos jornais e a reconhecerem.

Claro que cometem-se erros que podem custar a vida. Sadler foi descoberta, denunciada, sabe-se lá. Ela era a única que sabia a história das 2500 crianças que salvou, inclusive onde viviam e que familias lhes davam acolhimento. A Gestapo torturou-a amarga e duramente, partiu-lhe as pernas, os pés, mas em nenhum momento Irena abriu a boca para contar fosse o que fosse. Ela era a depositária das vidas passadas, e a responsável pelo futuro das crianças que tinha salvo. Perante aquela pergunta «tem a certeza que vão viver?» em forma de jura e de compromisso, Irena havia jurado salvá-las. As crianças nunca souberam o verdadeiro nome da sua salvadora. Conheciam-na por Jolanta, o seu nome de código.

2500 vidas. Eis o saldo da acção desta senhora, embora até ao último dia sempre afirmasse com alguma mágoa que «poderia ter feito mais!». Aquela a quem alguns chamam «Mãe dos Judeus», faleceu a 13 de Maio do ano corrente.

quarta-feira, julho 02, 2008

Clarificação de erro cometido no artigo anterior Familia Nuclear Radioactiva

Embora não seja apologista do exercício do «diz que não disse» talvez seja melhor clarificar as minhas palavras no último parágrafo do artigo Familia Nuclear é Radioactiva, na medida em que terá dado a entender algo que eu não quis dizer, ferindo a sensibilidade de alguns leitores. Em primeiro lugar o mal entendido deve-se a um erro meu. Um erro grave em alguém que preza por escrever com a razão e não com o coração, sobretudo quando se tratam de temas sensíveis como o do artigo anterior. Esse erro é o da generalização emocional. Quando afirmei que só uma ideia de familia fragmentada e sem base moral sólida pode dar suporte ético às ideias defendidas pelos novos idealistas das jotas, queria referir apenas as ideias sobre o desprezo pela família, reflectidas no cartaz medonho que diz «Familia Nuclear é Radioactiva». Em nenhum momento me referi às famílias constituídas por homossexuais e, se o dei a entender peço desculpa. Derivou portanto de uma frase mal escrita e de uma generalização.

Obrigado.

terça-feira, julho 01, 2008

Familia Nuclear Radioactiva



Parece que a JS vai eleger um novo secretário-geral. As propostas são sempre as mesmas, sempre «modernas» e fracturantes. Espero que se compreenda porque coloquei «modernas» entre aspas. Casamento homossexual, adopção por casais 'gay' ou o reconhecimento da mudança de sexo na lei portuguesa, são as três mais importantes reivindicações desta juventude iluminada que, não sei com que consequências ou se bem ou para mal, será o futuro político do nosso país.

A questão é que a juventude, seja ela socialista, comunista, bloco-esquerdista, precisa de causas. Causas porque lutar, ideias que justifiquem a confrontação do passado. Freud dizia e muito bem, que «herói é aquele que confronta a autoridade paterna e vence». Há muita energia e criatividade latente e à espera de encontrar saidas. E enquanto há causas porque lutar, há escapes saudáveis para toda essa adrenalina.

O que, sinceramente me causa alguma comichão, é quando tais lutas ou «ideais» pseudo-modernistas põe em causa a familia. Noutros tempos, tempos de jacobinices e quando todas as instituições eram postas em causa, também a familia se viu perante as baterias destes pseudo-intelectuais. Na medida em que a Igreja era o pilar que consagrava os casamentos, consagrava e abençoava as uniões, também a familia era posta em causa. A familia era vista como uma instituição burguesa, e por alguma razão o regime comunista se outorgou o direito de submetê-la ao poder totalizante do Estado.

Claro que, só uma ideia de familia fragmentada e sem base moral sólida pode dar suporte ético às ideias defendidas pelos novos idealistas das jotas. Basta ler um dos cartazes da foto que diz «Familia Nuclear é Radioactiva». Não consigo deixar de pensar que estes meninos não sabem o que é viver em familias fragmentadas, e nunca sentiram na pele o que o desenraizamento pode fazer a um ser humano. A familia é importante porque cria bases de apoio, conforto e sentido de integração a um ser humano. A familia é tudo. Acredito que um dia que forem pais, vão entender isto.

quarta-feira, junho 25, 2008

Ricardo Araújo Pereira e a Linguagem

Todos conhecemos a personagem fedorenta do nosso amigo Ricardo Araújo Pereira, mais conhecida por «RAP». Ninguém fica indiferente a forma como transpira comédia e encarna diferentes personagens. A famosa entrevista que deu na RTP há já algum tempo revelou um homem com uma erudição admirável que, não só faz comédia como pensa, reflecte séria e profundamente sobre as mais variadas questões. RAP é a prova que o melhor humor só pode ser feito pelas cabeças mais brilhantes. Humor sem inteligência e erudição é vazio e vulgar.

O convite feito por Lobo Antunes ao RAP para que este estivesse no lançamento do seu mais recente livro pode ter sido, mais do que uma manobra de bom marketing, a prova de que a profundidade do nosso amigo fedorento quebra as usuais barreiras da comédia para penetrar nos limites da intelectualidade. E parece que o que se vai passar a partir do dia 27 no Teatro São Luiz, em Lisboa vai consagrá-lo com o epíteto de Gato Fedorentos mas Intelectual.

Isto porque a partir do dia 27, Ricardo Araújo Pereira vai subir ao palco acompanhado de dois «figurantes», que o vão ajudar a ressuscitar uma série de conferências sobre Filosofia da Linguagem proferidas pelo importante filósofo da linguagem inglês John Austin, há 43 anos. É isso mesmo. Ricardo vai pronunciar uma palestra sobre a natureza das palavras e o modo como se comportam. Quem espera humor nesta «conferência teatral» não deve desiludir-se. Primeiro porque Ricardo sabe ter piada mesmo quando algo não tem piada nenhuma, e segundo porque são as palavras e os jogos de palavras que geram o verdadeiro humor, porque como dizia Austin «falar é não só dizer, mas também fazer».

RAP apresenta a conferência

How to do things with words

A famosa série de palestras que serve de base a Ricardo Araújo Pereira foi proferida no ano de 1955 na Universidade de Harvard. São uma resposta ao apriorismo linguístico e a uma visão muito formal da linguagem. Ou seja, para um Bertrand Russell e o seu Principia Mathemática, só como exemplo, a linguagem sendo a base que elabora conceitos e que expressa a racionalidade do mundo deve ser analisada na sua perspectiva lógica e formal. Ou seja, interessa mais entender os princípios lógicos de raciocínio que dão estrutura à linguagem, do que entender a linguagem natural e as suas manifestações reais, brutas do dia-a-dia, que para estes aprioristas não passa de uma sombra de verdadeira linguagem formal que é também a linguagem primeira. Austin, um pouco na esteira de um Witgenstein, vem afirmar muito mais do que isto. A linguagem e o sentido que ela expressa não estão apenas contidos na estreiteza das relações lógicas e formais que a constituem. A linguagem verdadeira é a natural porque é performativa, faz coisas, gera reacções no receptor da mensagem, transmite não só conteúdos mas também provoca impactos de carácter emocional. Para Austin, a lógica serve-se apenas de afirmações que são passíveis de serem verificadas, ou seja, de serem verdadeiras ou falsas. Porém, não existem apenas proposições que afirmam algo acerca de algo, mas exclamações, interrogações, imperativos, desejos ou concessões que tornam a linguagem um espelho do espírito e dos seus anseios.

Para ler mais Clique aqui

terça-feira, junho 24, 2008

Sugestões

O meu blog, é também o blog de quem quer participar. Nem sempre há tempo para escrever, e nem sempre o que se escreve vai de encontro aos interesses de quem lê. Há tanto no mundo para falar, tanto para pensar e reflectir que é dificil conjugar tudo.

Por isso peço aos leitores deste blog que sugiram, comentem, solicitem determinadas reflexões que possam intrigar, dúvidas que queiram eventualmente ver numa outra perspectiva.

Utilizem o mail que está no scroll do lado esquerdo ou deixem comentário.

Sempre vosso

Ruben Azevedo

terça-feira, junho 17, 2008

I do not Know what tomorrow will bring - Pessoas



No passado dia 13 de Junho comemoraram-se os 120 anos do nosso maior poeta da modernidade, Fernando António Nogueira Pessoa. Não há quem nunca tenha ouvido falar dele, embora nem todos o tenham lido de facto, ou sequer depois de o lerem o tenham entendido. E não os censuro. Fernando Pessoa é não só um poeta, mas uma literatura (não sei quem o disse mas soa bem). Ao longo da sua curta vida de 47 anos (…morrem cedo aqueles que os deuses amam…), Pessoa criou pelo menos 72 heterónimos diferentes. Porque:

O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


Publicou um único livro em toda a sua vida graças a um concurso promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Neste concurso, o grande Pessoa ficou em segundo lugar em detrimento de um tal sacerdote que escreveu um livro com mais de cem páginas, enquanto A Mensagem de Pessoa tinha apenas 44 poemas, embora todos eles de profundo significado místico. Quem nunca leu

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


?

E um muito apropriado à época em que vivemos, e em geral a todas as épocas de crise:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!


Ou mesmo um que sempre me inspirou bastante, heróico e verdadeiro:

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?


Cada vez mais me convenço que a escola não sabe ensinar poesia. A escola matematiza e profissionaliza a poesia. É errado e noventa por cento (numa perspectiva optimista) dos alunos que terminam o secundário não percebe nem gosta de poesia. O que é pena porque pode aprender mais sobre a vida lendo Fernando Pessoa do que tirando uma licenciatura ou lendo os maiores calhamaços intitulados tratados de qualquer disciplina.


Pessoa é o único poeta que continua a publicar anos depois de morto. Há sempre inéditos que vão sendo descobertos. Recentemente até contos policiais foram descobertos e publicados. No entanto, podemos de facto questionar a veracidade de muitas dessas edições ditas «inéditas». Não haverá gente a ganhar dinheiro à custa de pseudo escritos de Fernando Pessoa?

Não me vou estender com biografias. Seria uma hipocrisia escrever aqui uma biografia de Pessoa quando tanta gente já o fez, e o tio Google disponibiliza à distância de um Enter.

Ao morrer Pessoa escreveu: I do not know what tomorrow will bring.

Os grandes homens nunca morrem e merecem toda a nossa admiração.

quinta-feira, junho 12, 2008

Blog de Parabéns!!! - 3 anos e 116 posts depois



E foi assim que no dia 13 de Junho de 2005, dei inicio à aventura deste blog:

Reflexão inaugural

Pura e simplesmente escrever, eis o meu desejo. Tudo flui nesta vida, nestas horas que passam sem dar noticia de nada, neste tédio abrupto em que me encontro e que se me afigura eterno. Penso momentaneamente em qualquer coisa realmente produtiva e que no seu gérmen possua o espírito da eternidade. Tenho de estudar – é verdade! Leio um pouco sobre Antero, o realismo e o positivismo. Eis a Revolução a meus olhos, as grandes ideias, os grandes timoneiros das revolução que, pacientes e convictos nos puxam do lodo da nossa própria mediocridade... E morro de olhos fechados enquanto ouço Chopin.
Talvez a Humanidade nunca se tenha realmente apercebido do essencial. A mudança e a revolução são sonhos demasiado altos e abstractos. O que interessa de facto é viver...mas para quê? Leio Agostinho. Ele acredita fervorosamente no V império. E porquê? De que vale viver se não acreditarmos que o futuro nos trará as soluções para os problemas da sociedade de hoje? Então fico confuso. Viver é criar, e não me basta vegetar no amor e na paixão desenfreada. Há um projecto. Todos somos parte dele. Fomos criados para criar, eis o nosso futuro e objectivo de toda a existência! Aos outros seres vivos ( não lhes chamo animais porque estaria a considerar-me fora desta categoria o que é um puro acto de arrogância, portanto de estupidez), estão determinados pela existência a serem como são. A evolução trouxe-os até um determinado patamar, e hei-los felizes. Nós seres humanos somos os mais infelizes animais do Universo. A necessidade que temos de nos agarrar seja a que metafísica for, a procura constante da moralidade, a consciência lúcida da nosso carácter inacabado deixa-nos pouco tempo para viver. Mas porque nos trouxe a evolução até este patamar privilegiado (ou não)? Paro um pouco e sinto falta de uma cigarrilha. Já fumei uma hoje e não pretendo abrir precedentes e fumar outra. Tantas vezes esbarrei contra a vastidão imensa das grandes questões, e sempre que isso acontece sinto uma náusea mental imensa. Peço à minha irmã para pôr Chopin de novo. Preciso da sua melodia para lucidamente ir puxando a meada que já vislumbro, mas que raras vezes tenho coragem para puxar até ao fim, o que na prática é impossível...
Onde é que eu ia?
Na Natureza e nesta intrincada máquina a que chamamos mundo, nada acontece por acaso. Não sou Deus, e deveria talvez abster-me de afirmar tal coisa mas sinto que, no mais profundo de mim mesmo, àquela profundidade onde me confundo com Absoluto e me dissolvo no Uno, o Ser caminha subtilmente e constante por veredas determinadas. É a intuição de alguém que é feito da massa do Universo, como o filho que subtilmente se apercebe dos pensamentos da mãe por do seu ventre ter derivado.
Somos Natureza. Não podemos negá-lo. Talvez quisesse o Universo tomar consciência de si mesmo através dos nossos olhos. Usar os nossos sentidos e capacidades para se compreender, se moralizar, se perspectivar, se experimentar... Porque não nos foi dada a verdade de mãos beijadas? Porque não nos foi dado o caminho, apesar de sermos máquinas tão perfeitas e complexas? Terão as placas de Moisés a resposta? Serão os preceitos de tantos profetas a verdade e o caminho? Talvez até tudo já nos tenha sido oferecido de mãos beijadas, ou talvez o tenhamos pago com todo o sangue derramado pelos séculos dos séculos. Se já nos foi dada porque continuamos a questionar? Talvez a sociedade e a moral sejam isso mesmo – simples motores de aceitação passiva da verdade, para que o acto de questionar se dissolva progressivamente e o Universo em nós se compreenda... mas para quê? Não me parece que o Universo pretenda compreender-se definitivamente com simples convenções tantas vezes humanas e mal interpretadas. Não está nos seus objectivos supremos Não matar, Não mentir, Não cometer adultério, Não adorar outros deuses, etc. Não nego que são convenções importantes, são porém um caminho dado para alguma coisa mais que não compreendemos. Quererá o Universo contemplar-se pura e simplesmente como um Narciso que passa horas a olhar-se reflectido no lago? Temos sempre de resistir à tentação de antropomorfizar a realidade: eis o maior dos pecados! Não me parece que o Absoluto seja qualquer coisa de semelhante a vaidoso...
Tantas questões e tão poucas respostas. Afinal se todas as respostas fossem desveladas o que seriamos nós e a nossa natureza inquisidora?


3 anos e 116 posts depois, o blog continua cada vez mais florescente, cada vez mais sério e interventivo. Está bem diferente em conteúdo e em imagem em relação aqueles primeiros e ingénuos dias de 2005. Desde poemas a artigos, a simples reflexões e até a desabafos simples. Um blog que nasceu de uma vontade de reflexão, e muito deve agredecer a esses senhores do séc XIX que se juntavam em «Cenáculos» para discutir e contribuir para a regeneração cultural do nosso país.

Acredito que está de parabéns. Obrigado a todos os que têm acompanhado este lugar de reflexão, e aqui e ali também contribuiram de alguma forma com comentários e sugestões.

3 anos é apenas a infância. Ainda tem uma vida pela frente e muito a aprender, assim espero.

Ruben

sexta-feira, junho 06, 2008

Agricultura Non Grata - quando teremos de plantar o que comemos?

Foto Público On-Line - Cidadão inglês cultiva horta caseira

A crise alimentar deve-se também, em parte, ao abandono da agricultura. O centro de gravidade das sociedades derivou do rural para o urbano, e a agricultura deixou de ser para quase todos, um futuro desejável em termos vocacionais.

A economia de mercado e a crescente dependência da UE e das suas prerrogativas federais impõe que o cidadão europeu, mais do que produzir, consuma. Para produzir existem cotas estritas de mercado que não podem ser ultrapassadas, havendo risco de não haver mercado para os stocks e os preços descerem abruptamente. Há cotas para a agricultura, para a pesca, enfim, para um sector terciário cada vez mais frágil e mal visto.

Um país que tenha a veleidade de querer ultrapassar estas prerrogativas e se preste, como uma Inglaterra patriótica e de longa tradição democrática, a fomentar o cultivo nacional e o consumo também nacional, é de imediato acusado de proteccionismo de mercado como se tal método fosse um papão a abater. E é de facto um papão para os grandes grupos que possuem o monopólio dos mercados, porque se um país produzir tudo o que precisa é lógico que não vai comprar fora. É uma das desvantagens de pertencer a uma União de Estados, o facto de tal união implicar forçosamente o incremento das dependências.

É isto que falta a Portugal, um verdadeiro sentido patriótico como o que levou os ingleses em plena Segunda Grande Guerra a atender ao apelo do necessário esforço de contenção que impunha racionamentos dos então escassos recursos. Um apelo que levou os cidadãos comuns a plantar as suas pequenas hortas caseiras, à semelhança do nosso amigo na foto.

Infelizmente em Portugal sempre se fomentaram dependências. Em várias épocas da nossa história sempre preferimos depender, ir para fora para enriquecer, trocar géneros como o vinho por textéis, viver subsidiados e raramente contrariados. Entrar para a UE também nos satisfez um pouco esta vontade de subsidariedade. Os fundos estruturais que de lá vêm fresquinhos de tempos a tempos sempre nos souberam muito bem. A emigração em massa para França, Suiça, EUA, contribuiram também em parte para o abandono das terras e do cultivo, em parte por causa de um regime não muito libertador e, sobretudo, pouco interessado em libertar o povo de uma ignorância quase crónica. Os anos de colonialismo também contribuiram para tirar o brilho ao nacional e alimentar o mito de que, lá fora, é que se podia de facto enriquecer. É verdade que muitos enriqueceram, mas entretanto no país real, aquele de que hoje somos herdeiros, os campos iam ficando abandonados ao tempo e às silvas, a produção nacional foi sendo encostada para canto como recurso secundário, sempre secundário e nada interessante.

Enfim, quando teremos também de pegar nas sacholas e começar a plantar aquilo que comemos?

Segundo um interessante site chamado Lusotopia, Portugal possui 38% de floresta. 93% pertence a privados, mas para que fim são utilizados os recursos florestais? Celulose, sempre celulose, eucalipto à fartasana para papel. Agricultura? Pouca. Diz também que neste momento só 5% do total da empregabilidade é na àrea agricola. Sintomas a diagnosticar...

quarta-feira, junho 04, 2008

Morre Lentamente - Pablo Neruda

Tive oportunidade de ler um poema muito interessante do grande poeta chileno Pablo Neruda num blog chamado «O Nosso Cenáculo». Tomei conhecimento da existência deste blog recentemente, e chamou-me a atenção pela semelhança relativamente ao nome deste mesmo blog. São 4 simpáticas raparigas unidas, tenho a certeza, pelo gosto da escrita e do pensamento. Agradeço-lhes e tomo a liberdade de também aqui publicar o poema.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

Pablo Neruda


Agora, parece-me que este poema/texto/pensamento merece, mais do que estar exposto à vista de todos, alguma reflexão individual sobre o que está escrito. Reflexão profunda, reflexão que faça aderir estas palavras à nossa própria vida, como se dispuséssemos um papel vegetal sobre a nossa vida para depois redesenharmos os contornos e as proeminências. As palavras comovem muita gente, arrancam suspiros umas vezes sinceros outras vezes apenas corteses. Está na altura de através da carne entendermos o espírito.

terça-feira, junho 03, 2008

A ONU e as recomendações contra a Crise Alimentar - Quem vai ouvi-las?


Segundo o Público On-Line, Banki Moon anunciou hoje as primeiras recomendações para enfrentar a crise alimentar mundial. Recomendações essas a que os governos devem estar atentos.

Transcrevo parte da noticia:

O responsável defendeu que a comunidade internacional deve apoiar os países que estão a ajudar os seus agricultores fornecendo-lhes sementes e fertilizantes, os dois factores de produção que mais repercutiram o aumento do preço do petróleo.

Lembrando que esta crise poderá acrescentar mais 100 milhões de pessoas aos 850 milhões que já passavam fome, Ban Ki Mon anunciou algumas das primeiras recomendação do grupo de trabalho criado no seio da ONU para responder à crise alimentar. O primeiro passo, disse, é permitir o acesso a alimentação por parte das pessoas mais vulneráveis o que passará por aumentar a ajuda alimentar, expandir programas de protecção social e incrementar a produção agrícola dos pequenos produtores através da doação de sementes e fertilizantes de forma a que possam plantar ainda este ano.


Ou seja, para os países ditos desenvolvidos a solução passa por um incremento dos apoios dos estado à agricultura, suportanto algumas das despesas relativas à matéria prima. Para os países em vias de desenvolvimento, Banki Moon anuncia apoios financeiros em larga escala:

Para já, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que organiza esta conferência, apelou à doação de 1100 milhões de euros para apoiar a agricultura dos países mais pobres. O Programa Alimentar Mundial conseguiu arrecadar, junto de 31 nações, os 486 milhões de euros que necessitava para responder aos compromissos que assumiu para este ano. O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola irá transferir 129 milhões de euros para os agricultores pobres e o Banco Mundial criou um sistema de financiamento de 770 milhões de euros para apoiar também a produção de alimentos.

Desde que tais ajudas financeiras não fomentem mais ainda o assistencialismo dos países em vias de desenvolvimento, estamos bem. O Programa Alimentar Mundial é essencial para apoio a comunidades desfavorecidas, nomeadamente a refugiados. Agora, o que importa de facto é que os países em vias de desenvolvimento aumentem a sua produção agricola e, sobretudo, a diversifiquem. As ONG´S têm o dever de apoiar e formar futuros agricultores em África. Não basta atirar dinheiro para cima dos problemas. É preciso encontrar mediadores sérios que levem o dinheiro para onde ele é mais preciso, e sobretudo que saibam o que fazer com ele. Só as ONG´S podem fazê-lo, e bem feito. Sabemos que os Estados mais pobres raramente são Estados de Direito, e portanto os governo destes estados nunca são bons intermediários.

segunda-feira, junho 02, 2008

Rock in Rio - Caos, Espectáculo e Vinho da Casa



90 mil pessoas encheram o parque da Bela Vista no primeiro dia do Rock in Rio. 90 mil pessoas responderam ao apelo das luzes, do espectáculo, da embriaguez que o mergulho na multidão e no transe musical sempre trazem. Eu próprio lá estive.

Será uma questão sociológica? Filosófica? Talvez. As pessoas precisam de se diluir na multidão, de perder a sua identidade acreditando que, com isso também as suas tristes vidas se dissolverão na confusão, na batida e nas melodias pungentes. As pessoas precisam de quebrar as suas rotinas enfadonhas e de pelo menos durante umas horas, não pensarem nos problemas e nas variadas frustrações de que é feita a vida.

Exemplo disto mesmo foi uma senhora de nome Amy Whinehouse, que enfureceu os seus fãs ao chegar 40 minutos atrasada ao palco Mundo, ainda por cima em condições deploráveis, dignas de um trapo humano. Bebeu, fumou, quase caiu. Pediu desculpas e da parte dos fãs havia sempre um pano quente, porque afinal «Amy é mesmo assim, toda a gente sabe!». 90 por cento das pessoas condenaram aquela figura, outros 10 por cento tiveram compaixão daquele «talento tão jovem e promissor cheio de mágoa». As pessoas na verdade gostam de espectáculo, quanto mais sujo e degradante melhor. Basta pensar nas lutas de gladiadores do passado, ou no afamado vício português do «mirone» que pára até no meio da auto-estrada para ver um corpo acidentado e exangue. Neste acaso era apenas uma rapariga de 24 anos, vítima da solidão própria da fama, vítima de um passado que talvez ainda hoje determine o seu comportamento, vítima de uma má aprendizagem acerca do modo com se lida com as frustrações e os nãos da vida. E nem a fortuna de 12 milhões de euros a pode salvar de si própria, se a razão e o bom senso não prevalecerem. Pelo contrário, pode ajudar a destrui-la. É um bom exemplo para todos nós, ainda que um mau exemplo para muita juventude mal informada e que vê nela um modelo de vida.

segunda-feira, maio 26, 2008

Phoenix renasce das Cinzas - sonda aterra em solo marciano sem problemas

Hoje (2ª feira dia 26 de Maio) pelas 00h54, o Centro de Controlo da NASA de Pasadena (Califórnia), recebe a confirmação via rádio da suave aterragem da sonda Phoenix em solo marciano. Depois de entrar na atmosfera de Marte a sonda atingiu a velocidade de 21 mil Km/h (5.83km por segundo) e durante 7 minutos correu sérios riscos de desintegração.

Foi um momento histórico. Desde o sucesso da sonda Pathfinder em 1996 que a NASA não conseguia fazer pousar um aparelho em solo marciano. Portanto, 12 anos depois o sucesso repete-se. E desta vez com uma ajudinha particular da ESA.
Foto da paisagem marciana tirada em 1996

A missão Phoenix procura complementar os dados obtidos em 1996. Porém, a zona de amostra é ligeiramente diferente. Desta vez a sonda aterrou em plena calota polar de Marte, onde se sabe que existe água no estado sólido. Visto que os gelos na calota de Marte são eternos ou perenes, é possível que a análise em profundidade deste mesmo gelo revele características por exemplo, da composição da atmosfera de Marte há 10 mil anos. Permite também perceber se em algum momento terão existido compostos ou moléculas de Carbono, Metano, Hidrogénio, compostos esses prenunciadores de vida.

A sonda Phoenix terá uma vida útil de 90 dias. Mas há semelhança da sonda Pathfinder que continuou a produzir dados mesmo depois de expirada a vida útil, o mesmo poderá acontecer com a Phoenix.

Para ver a notícia e o vídeo da aterragem, clique aqui.

quinta-feira, maio 22, 2008

Era uma vez na China...



Perante imagens deste tipo, todas as diferenças se dissolvem para dar lugar à compaixão perante a miséria humana, que não tem fronteiras. O sismo de 12 de Maio na China, cujo epicentro foi Sichuan, matou pelo menos 80 mil pessoas, sem falar nos muitos milhares que continuam desaparecidos, e em 5 milhões (metade do total de população de Portugal continental) que ficaram sem casa.

Nem o desenvolvimento económico exponencial da super-potência que é a China de hoje a salvou de tamanho desastre. É verdade que a assistência às vítimas foi exemplar, ao nível de qualquer democracia ocidental e até em muitos aspectos superior. De notar que aquando da destruição provocada pelo furacão Katrina nos EUA, o governo Bush mostrou imensas dificuldades em lidar com a situação e em apoiar as vítimas. Os chineses têm uma noção de comunidade e entreajuda que vem dos tempos de Confúcio. Ali nada faltou às vítimas, senão um excesso de zelo por parte das equipas de salvamento em terminar as buscas em edifícios em risco de se desmoronarem, mesmo sabendo que ainda haveriam pessoas vivas nos escombros, e perante o desespero absolutamente inquietante e assustador dos familiares que assistiam a tudo.

Esta criança tinha um futuro que morreu sob o peso do cimento e do betão armado. Faz pensar. E é isso mesmo que podemos fazer por eles: pensar e ganhar respeito pela natureza. A distância física, o rum rum dos telejornais que de tão rotineiro já nada nos diz, tudo isto e mais a preocupação crónica com o nosso próprio umbigo não nos devem fazer esquecer que, de vez em quando há quem sofra na medida do excruciantemente sobre-humano, e tanto nós como aqueles que nós gostamos podem de um momento para o outro ser subtraídos da nossa vida, como velas que se apagam sem anunciarem, para nos darmos conta que, sem elas vivemos às escuras.

terça-feira, maio 20, 2008

E-mail de Pedro Passos Coelho acerca do Acordo Ortográfico

Acedi ontem ao site de campanhã de Pedro Passos Coelho, e porque aprecio este candidato pela sua juventude e inteligência, enviei-lhe um mail para saber qual a sua opinião acerca da questão do acordo ortográfico. Mostrou a sua simpatia e atenção ao responder hoje mesmo. Fiquei contente por saber que ele partilha da visão de que o acordo é errado. Se eu fosse militante do PSD concerteza votaria nele. Um dia que se candidate a primeiro-ministro terá o meu voto. Fica a transcrição.

Caro Ruben Azevedo

Já tenho afirmado, em resposta a essa questão colocada por jornalistas, que o acordo que Portugal assinou há vários anos atrás (porque tal acordo já foi assinado) não representa nenhum benefício para a língua e cultura portuguesa, pelo que não traria qualquer prejuízo que não entrasse em vigor. De resto, não vejo qualquer problema em que o português escrito possa ter grafias um pouco diferentes conforme seja de origem portuguesa ou brasileira. Antes pelo contrário, ajuda a mostrar a diversidade das expressões e acentua os factores de diferenciação que nos distinguem realmente e que reforçam a nossa identidade. Aliás, considero míope a visão de que o mercado brasileiro de cultura passará a estar aberto aos autores portugueses em razão da homogeneidade da grafia, pois que o interesse desse mercado pela nossa produção só pode depender do real interesse pelas nossas especificidades e aí a suposta barreira do grafismo não chega a ser uma barreira, pode ser um factor de distinção que acentua o interesse pela diferença.



Com os melhores cumprimentos



Pedro Passos Coelho

segunda-feira, maio 19, 2008

Texto escrito segundo Acordo Ortográfico

Pela primeira vez na minha vida escrevo segundo o acordo ortografico. Primeira, e espero bem que ultima. Pergunto-me se as pessoas se conseguirao abituar a tamanha pobreza de estilo, mas tambem sei que muita gente nao tera dificuldade, porque afinal nunca soube bem colocar os acentos, ou o h em palavras como «há» do verbo aver. O novo acordo, como podem constatar neste texto experimental, nao tem acentos graves nem exdruxulos, nem tils. Gostaria de saber o que tem os iluminados criadores deste acordo a dizer em relaçao ao acento no i... talvez um dia tambem desapareça. Seria otimo que nos explicassem o que fazer e como fazer o upgrade dos nossos offices caseiros, visto que se este texto estiver a ser escrito no word ficara pejado de traços vermelhos a decora-lo. Reconhera erro atras de erro. Sobretudo se eu disser que o inverno sera umido, e o verao seco. Ou que os ipopotamos sao animais extremamente ativos e que vivem no Egito. Sinceramente começo a estressar com esta forma de escrever, e de igual forma estao os que lem este texto........

quinta-feira, maio 15, 2008

O melhor é NÃO ESQUECER

Porque esquecer é perigoso.
Porque o homem é o lobo de si mesmo.
Porque nos dias de hoje há já quem diga de boca cheia contra todos os factos e provas que o Holocausto nunca existiu.
Porque todos nós temos um monstro ou um deus dentro de nós, e devemos perceber quando caminhamos para um ou para outro.
Porque é possível à razão humana servir o ódio, e não o amor.
Porque o fanatismo destrói quando o bom senso se ausenta.









Porque isto foi possivel.
O melhor mesmo talvez seja NÃO ESQUECER!

sábado, maio 10, 2008

Mais importante que viver é SABER VIVER


Ser homem implica saber viver, e saber viver implica saber ser livre. Ser livre implica saber ser digno, saber pensar, saber ouvir, saber ajudar, saber amar, saber mais e melhor sobre tudo. Ser homem implica dar valor a esta dádiva chamada vida. Saber que há coisas belas para ver, ser e fazer. Saber o que é importante na vida, e o que é acessório. Saber que, quem está connosco nesta aventura luta tanto como nós para ser o melhor que pode, mas está sem dúvida tão desorientado como nós próprios.

Temos de tentar ser o melhor que podemos. Temos de perceber que os conflitos escondem dores e fraquezas, e que saber cooperar é o que nos leva para a frente. Não há uma receita para Viver. Poderá haver um Finalidade última para estarmos vivos, algo que se confunde com a Finalidade do próprio universo. Poderá haver, mas ninguém a conhece, embora parece que há quem tenha andado muito perto. De qualquer forma temos de fazer o nosso próprio caminho, embora haja estradas determinadas que nos podem ajudar a chegar. Mas os pés são nossos, e somos nós quem tem de decidir se quer ou não andar por elas. Viver é um compromisso. Devemos saber cumpri-lo.

É tudo tão difícil, mas também ninguém disse que isto ia ser fácil. Viver implica imenso sofrimento, mas também muita alegria. Temos de aceitar o sofrimento como meio para nos tornar melhores, aprender sempre com os escolhos da vida. Porém aceitar o sofrimento não significa resignação perante os problemas. Aceitar o sofrimento é também aceitar as dores da luta. E se há algo porque valha a pena lutar é pela Justiça. Se há algo porque valha a pena aprender é pela Liberdade.
Viver é ter ideias. Ter ideias e ideais. É agir sempre para a frente, em direcção a projectos, moldar a nossa acção presente segundo futuros imaginados, ou segundo abstracções que tomamos como fixos nas nossas vidas. Porque ser homem não é apenas sê-lo, aqui e agora. Ser homem é continuamente superar-se, ultrapassar os seus limites próprios pelo simples facto de se acreditar em algo. O ser humano está sempre com um pé no presente e outro no futuro; com uma mão na terra e outra no céu. Sempre.

Vale a pena viver quando se vive com a alegria. Tudo é mais fácil, mais suportável quando se sabe ser alegre. Alegre nas pequenas coisas, nos pequenos momentos, e também nos grandes. A alegria é um bálsamo porque aproxima as pessoas. Aproxima e apela à autenticidade de todos. É tudo mais fácil e verdadeiro quando as pessoas são genuínas.

Dar valor ao que se tem quando se é feliz. Se se é infeliz rejubile-se com a felicidade dos amigos (e porque não dos inimigos?). Eles devem ser felizes por todos.

Viver é tudo isto e infinitamente mais. Não há receitas, e tudo isto que está escrito mais não são do que palavras. A experiência é a mais importante das mestras. Aos inteligentes é dado a perceber; aos experientes é dado compreender.

quarta-feira, maio 07, 2008

2009 - PS, PSD, BE, PCP e o terramoto anunciado



8 pessoas tiveram a amabilidade de votar no inquérito sobre a governação que introduzi no blog. Quero acreditar que houve uma substancial abstenção, por um lado porque existe um crescente desinteresse pela política, por outro porque mesmo no espectro de quem se interessa existe quem tenha uma visão muito pessimista do nosso panorama político e dos seus principais protagonistas.

De qualquer forma nesta pequeníssima e nada representativa amostra, foi o PSD que obteve mais votos. Não sei que PSD estava presente na mente de quem votou, se o de Menezes, se o da futura líder Manuela Ferreira Leite (espero estar enganado).

Em 2009 vamos ter um triste cenário. Triste para os protagonistas, triste para o país. O PS vai ganhar, porém com curta margem em relação ao PSD que vai roubar muitos votos ao PS, não porque as pessoas o vejam como alternativa possível, mas porque acreditam na história do mal menor. Só que todos sabemos que na presença de uma oposição de largo espectro e irresponsável, um partido sem maioria absoluta está condenado a abortar de cada vez que queira parir seja o que for. Fica paralisado. O PCP e o BE, em fase de crescimento nas sondagens, vão sentir-se com força para se porém em bicos de pés e forçar uma coligação com Sócrates. Sócrates no seu orgulho vai ruminar, vai torcer-se todo e quem sabe, engolidos os sapos necessários, lá vai aceitar um acordo com o BE. O BE, desesperado para chegar ao poder lá vai aceitar as condições do PS e agarrar um ministério qualquer que caia da mesa. O PS vai saber negociar muito bem a coisa. O BE vai se ver apertado para negociar porque do outro lado da porta, na sala de espera está o PCP que estará pronto a entrar se o BE não se mostrar disponível ou não quiser negociar. Os primeiros tempos de formação de governo vão ser muito difíceis e caóticos. Inevitavelmente o PS terá que governar mais à «esquerda», mesmo que isso signifique a ruína financeira e política do nosso país.
Era ainda assim preferível que o PS fizesse uma coligação por exemplo, com o PSD. De certeza lhe seria dada mais margem de manobra, mas não me parece que o orgulho de ambas as forças políticas permita tal cedência e mistura que nas mentes de algumas mentes tacanhas é tão condenável como o incesto.
Se vamos pela história do mal menor, então é bem mais preferível que o PS se mantenha no poder, e com maioria. O país não precisa de mais instabilidade, e sempre temos um PR que nos bastidores, vai mantendo o leme seguro para não permitir derivas. É nisto que as pessoas têm de acreditar. Entretanto, surgem outros partidos, outros movimentos de cidadãos que prometem ser o futuro do panorama político nacional. São estes que devagar vão ter que fazer o seu caminho e ganhar a confiança daqueles que acreditam no futuro, na modernidade, no desenvolvimento pleno, social, cultural, diria até espiritual da sociedade. A nova consciência política tem de pôr de parte esse anacronismo que é a oposição esquerda/direita, tem de deitar por terra a ideia de classes, de lutas e conflitos entre planos de sociedade. Hoje o que se pede é sobretudo o apelo à responsabilidade individual e colectiva. É o apelo à colaboração entre as pessoas na sociedade, nas empresas, na vida. Colaboração, não conflito. Solidariedade não significa assistencialismo, mas espírito de entreajuda entre os vários componentes da nossa sociedade. Porque hoje não existe nenhuma oposição ou contradição marxista entre classes. Hoje existe uma sociedade global que deve em conjunto contribuir para a mudança que se espera, e só a formação e a cultura podem dar os instrumentos necessários para que esta nova consciência tome forma.

sexta-feira, maio 02, 2008

O Segredo - indústria da mentira



Na semana passada, na Fnac de Santa Catarina assisti a uma cena que não só me deixou perplexo como me pareceu paradigmática do estado de coisas a que este país chegou em termos culturais.

Estava eu sentado numa das poltronas a ler um livro sobre a Segunda Grande Guerra, quando subitamente uma senhora que por ali passava decidiu chamar uma das funcionárias da Fnac. Perguntou-lhe a senhora se o livro de que muita gente fala intitulado O Segredo estaria à venda. Até aí tudo bem. A funcionária solicitamente foi buscar o livro e entregou-o à dita senhora. A dita senhora olhou para o livro, começou lentamente a folheá-lo com a nula prática de quem só quando o rei faz anos lê um livro e prefere deleitar-se com revistas da moda (e isto é apenas conjectura minha). Subitamente a dita senhora pergunta com o ar mais ingénuo do mundo: Diga-me uma coisa, e isto enriquece-nos mesmo?. Desejei verdadeiramente estar na pele da funcionária e ter a oportunidade de afastar daquela mente obscurecida toda e qualquer veleidade de superstição. No entanto, esta apenas respondeu: depende, há pessoas que dizem que sim e até compram os livros relacionados…Fiquei de facto estupefacto. As pessoas no seu íntimo continuam à procura de respostas absolutas e fáceis, tipo receituários para as dificuldades das suas vidas. Vivemos numa época que deveria ser de luz, de um novo Aufklarung, mas a verdade é que o acesso à informação global não garante de modo nenhum a formação que seria de esperar. Descontentes com o Deus dos seus antepassados, os homens constroem para si mesmos bezerros de ouro. A ignorância existe, persiste, e desvela uma idade média latente na sociedade de todos os dias.

Sim, é verdade que hoje vivemos uma certa idade média que resulta do apelo instituído na sociedade ao imediato, ao descartável, ao lucro, ao momento fugaz. A economia impõe que sejamos antes de mais nada bons consumidores, mesmo que para isso tenhamos de manter massas e massas de gente na ignorância pura e simples. Vender bem implica fazer crer, e é tão mais fácil fazer crer quando o objecto do que queremos vender é facilmente manipulável.

Tal senhora provavelmente nunca leu um clássico da literatura, nunca leu um Umberto Eco, nunca leu um Milan Kundera, nunca leu na verdade nada que de facto tivesse algum interesse. Aquilo que pensa é aquilo que a sociedade quer que pense. Aquilo que os outros dizem é a opinião a que adere, e para tal não precisa de grande esforço. Não consegue perceber que infelizmente até a literatura está nos dias de hoje sujeita às leis de mercado, e que maior mercado pode haver que o da fraqueza humana? Que mais pode vender do que a receita para a felicidade, para o fim do sofrimento, para a riqueza material?

É esta gente verdadeiramente livre?

segunda-feira, abril 28, 2008

25 de Abril a Dia Mundial da Liberdade



25 de Abril em Portugal é sinónimo de Liberdade. Começou por ser golpe de estado convencional com o objectivo de acabar com uma guerra há muito perdida, e tornou-se num símbolo da democracia.

Hoje, acredito que comemorar o 25 de Abril deve ser mais do que lembrar Salgueiro Maia ou os cravos nas G3S. Deve ser de facto comemorar a Liberdade. Lembrei-me agora que existem dias do ano para tanta coisa e não existe um Dia Mundial da Liberdade. É pena, porque a história é feita de lutas pela liberdade, pela emancipação, por direitos dos quais usufruímos quase tão distraidamente como respiramos. O dia da Liberdade deve ser um dia de festa, mas sobretudo de meditação.

Meditar sobre a Liberdade é dos exercícios mais supremos que podemos pôr em prática. O que é isso de ser livre? Porque desejamos tão intimamente a liberdade, sobretudo quando nos sentimos constrangidos ou coagidos por algo ou alguém? Fernando Pessoa dizia que não conhece a liberdade aquele que nunca viveu constrangido. Ou seja, provavelmente não se dá valor a uma liberdade se nunca dela se sentiu falta. É um pouco como quase tudo na vida. Os judeus libertaram-se do jugo egípcio, os franceses gritaram liberdade depois de morto Luís XVI, símbolo do absolutismo real que os oprimiu durante séculos, e cujo eco se fez ouvir em toda a Europa. Já no séc. XX os colonialismos de séculos tiveram um fim depois da Segunda Grande Guerra, os povos colonizados sentiram-se no direito de determinarem o seu destino e viram-no consagrado na Carta da Nações Unidas; o exemplo da África do Sul e do fim do apartheid, a emancipação feminina e a sua (ainda actual) luta pela igualdade. A vontade de ser livre, de pensar livremente, de agir sem coacção alheia e ilegítima, de não ser explorado por outrem, de falar sem medo, e sobretudo de ser respeitado como igual parece ser inerente à condição humana. Está nos genes daquilo que somos a emancipação de estados opressores, a libertação e o alargamento das fronteiras daquilo que somos e que clama pelo direito a ser sem constrangimentos. O pássaro acabado de sair do ovo precisa da mãe para crescer até ter asas e poder voar sozinho. A liberdade é uma vontade interior e profunda de autonomia, de consciência que há limites que já não se justificam e apenas frustram e alienam o homem daquilo que é. Isto tanto é válido para um homem, uma mulher, uma criança, como para um povo, uma comunidade ou nação.

Liberdade resulta da vontade de ser livre. Da maturidade interior que resulta da consciência dos limites impostos e da necessidade de os ultrapassar, resulta a vontade de ser livre. Um homem suficientemente maduro para entender quando os seus direitos estão a ser de alguma forma feridos por algo exterior, sentindo-se de alguma forma frustrado no seu próprio espaço de possibilidades, aspira à Liberdade.

Quantos de nós somos verdadeiramente livres? Será que ajudamos os nossos amigos, familiares, conhecidos, a serem livres, ou seremos pelo contrário instrumentos de opressão?

terça-feira, abril 22, 2008

«A maior das religiões é a Verdade»



Li uma citação hindu que diz que a religião mais importante é a Verdade. Ora, penso que esta ideia de amor à verdade sintetiza tudo.
Ter como religião a Verdade é ser verdadeiro para os outros, mas sobretudo para nós mesmos.
Ter como a religião a Verdade é assumir o que se sente perante os outros, é ceder quanto não se tem razão, é afirmar a nossa consciência acima de qualquer regra ou lei que de algum modo a possa ferir.
Ter como religião a Verdade não é seguir uma doutrina dogmática que entendemos como a Verdade, mas praticar a Verdade em cada gesto da nossa vida.
Acho que é o melhor que podemos e devemos fazer.

segunda-feira, abril 21, 2008

China vende armas ao Zimbabwe



Enquanto o direito internacional permitir que se vendam armas a países beligerantes ou violadores dos direitos humanos, algo está muito mal. Fala-se na China, mas poderíamos também falar nos EUA. Nunca poderemos falar de paz verdadeira enquanto houver quem lucre com guerras. As empresas de armamento americanas lucram com a guerra no Iraque, no Afeganistão, no Médio-Oriente. A China e a Rússia lucram igualmente com o aumento da procura de armamento em países beligerantes. África foi e continua a ser um mercado de armamento enquanto houver instabilidades étnicas, religiosas e culturais. Por mais que os países ditos desenvolvidos falem em paz e desenvolvimento, na verdade as grandes empresas que lucram com a guerra nunca vão permitir que os seus governos de facto contribuam para terminar com a instabilidade em África. Enquanto África for pobre haverá fome e sede, haverá luta pelo domínio de bens alimentares, haverá etnias contra etnias, povos contra povos. Enquanto as democracias em África forem frágeis, serão presas fáceis para países como a China sedentos de riqueza, ansiosos por explorar esses povos ignorantes, prontos a vender-se em troca de um pedaço de pão.

Enquanto a China e os EUA tiverem papel decisivo no seio da ONU, não vai ser possível mudar seja o que for. Enquanto não forem alterados os equilíbrios geo-estratégicos das potências, vai ser muito difícil mudar seja o que for. Os interesses económicos vão sempre sobrepor-se aos políticos, vão sempre ter a última palavra ainda que nos bastidores.

É preciso mudar a conjuntura em que vivemos, dar voz a uma Europa mais forte capaz de se fazer ouvir, dar voz aos povos mais fracos para que a sua exploração e sofrimento não sejam esquecidos.

sexta-feira, abril 04, 2008

Tibete sinónimo de Opressão

Todos os dias ouvimos notícias sobre o Tibete. Nos últimos tempos, um pouco a reboque dos Jogos Olímpicos, esta questão ganhou novo ânimo, e ainda bem. Pouco ou nada sabemos do que realmente se passa no Tibete. Aquilo que vemos nas televisões são as únicas imagens que conseguem escapar à censura do governo chinês, que não poupa ninguém, nem sequer os jornalistas e o seu trabalho.

Porém, os chineses não conseguem calar o mundo. Há gente que passou pelo Tibete, jornalistas que trazem memórias vivas do que viram, do que passaram. E ainda bem que assim é. O mundo contínua surdo e mudo aos apelos dos tibetanos, subjuga-se gritantemente ao medo que se vai adensando em relação à China. Um medo que se baseia no poder económico deste país. Um poder elefantísiaco que se não for travado pode modificar todo o paradigma ocidental de democracia e levar a civilização para uma nova idade das trevas. Começa a adensar-se a pura ilusão de que os países de modelo democrático liberal podem ser ultrapassados economicamente por países de modelos mais autoritários, e de que o modelo liberal está a falhar redondamente e não garante um desenvolvimento seguro para as empresas e para a economia. O comércio livre e a permissividade dos estados vai deixando fugir empresas e multinacionais para países de mão-de-obra barata, onde a exploração é o pão-nosso de cada dia do trabalhador, e os direitos humanos são o tapete onde se limpa os pés. E os estados tudo permitem, os proteccionismos são atacados e vistos como coisa do passado. Serão? Para além do comércio livre, onde está o comércio justo? Nós ocidentais conquistámos direitos, e devemos perdê-los para competirmos com uma China economicamente, ou pelo contrário devemos afirmar peremptoriamente esses direitos e lutar por um comércio justo e respeitador dos direitos humanos?

Deixo a transcrição de um e-mail que recebi recentemente, um testemunho de alguém que esteve no Tibete e que viu um pouco mais do que nos é dado conhecer:

Meus queridos amigos,
Cheguei ontem ao Nepal, após dias muito violentos passados no Tibete.
Estou muito muito cansada. Um cansaço diferente... estou sem energia. Tenho que comer e descansar, para conseguir pôr as ideias mais claras e escrever sobre tudo o que aconteceu. (…)

Mas, agora que posso, tenho que começar a falar. Devem saber o que se passa no Tibete... O que vos posso dizer é que tudo é muito mais violento do que mostram na televisão. Foi muito muito violento. Para os tibetanos vai ser um massacre. Nunca vamos saber quantos morreram ou morrerão. Para nós, além de violento psicologicamente, foi mais perigoso porque acabou por se saber que fomos os dois (eu e o Miguel) as únicas testemunhas do principio de tudo (no mosteiro de Drepung, onde estávamos no dia 10 de Março, por acaso). Ficamos imediatamente controlados pela polícia ao ponto de, a caminho para o Nepal, nos dizerem que estávamos presos no hotel. Nunca tinha sentido o que era estar 'presa' não porque tivesse feito alguma coisa mas porque não queriam que falássemos. O nosso mail e telefone ficaram, também, imediatamente controlados e as nossas máquinas fotográficas bem inspeccionadas.
Vimos a maior violência policial que podem imaginar, sobre pessoas desarmadas. Não vimos ninguém morrer, mas sabemos que muitos dos monges com quem estivemos durante todo o dia 10, morreram depois, nesse mesmo dia.

Vai ser um massacre em Lassa. Tudo o que disserem nas notícias de contrário podem acreditar que é mentira.
Há lugares no mundo onde pessoas morrem por terem opinião. Não se passa apenas na distância da televisão, ou em filmes com actores conhecidos, passa-se na realidade e muito perto de nós.

Desculpem a violência do mail. Não vos contei nem metade do que vi e vivi nestes dias. Mas não posso ficar mais dias em silêncio.
Espero que compreendam...

Muitos beijos. Adoro-vos.
Clara

domingo, março 30, 2008

Fixos, Metas, Finalidades

Vivemos num mar de dúvidas. Lançados ao mundo esforçamo-nos por ancorar algures, por encontrar fixos que nos garantam um sentido, descobrir rotas que nos levem a locais certos e bem definidos. Queremos bem no fundo de nós mesmos chegar à Verdade, a uma espécie de chão que não ceda, um absoluto.

Na verdade não sabemos o que está certo. Muitos aceitam a submissão a uma doutrina religiosa que preencha esse vazio e indique sentidos consagrados por milénios de sabedoria. É como se ao percorrermos uma longa estrada, a certa altura parássemos o carro para perguntar a um homem que por ali passasse «Isto vai para onde?». Se esse homem tivesse vindo precisamente do sítio para onde pretendemos ir, a sua palavra seria para nós a verdade. Seguiríamos as suas indicações sem duvidar.
Outras pessoas preferem intelectualizar a questão, descobrir pela via racional os caminhos mais verdadeiros, ou que pelo menos tenham mais lógica. Outros procuram aprender com gente mais sabedora, com gente de todos os séculos, cujas biografias se tornam exemplos de vidas cheias, completas. Vidas que valeram a pena por terem concretizado sonhos, elevado a humanidade, ensinado e apontado o foco de luz em direcção a novos atalhos. Outros simplesmente concluem que não há fixos que lhes valham. Nada tem sentido, e como tal só o sentido de uma bala atravessando o cérebro lhes parece interessante.

Liberdade, Igualdade, Solidariedade, Verdade, Bem, Mal. Podia continuar dias e dias enunciando valores que conhecemos, que tomamos como nossos, que nos ensinaram e nós tomámos como fixos. A Humanidade merece continuar a existir, o Bem deve prevalecer acima do mal. Sabemos disto. Mas, sabemos porquê? Qual é o fundamento desta moral que tomamos como certa? Uns diriam que é Deus, e portanto só a Fé fundamenta. Para outros, Deus não chega. Kant tentou justificar através da Razão. Se agirmos tendo sempre para a Humanidade em geral, em princípio estaremos a agir bem. Se matarmos um homem e elevarmos isso a regra universal, todos os homens acabarão mortos, portanto não se deve matar. Se mentirmos uma vez, e elevarmos isso a norma universal, todos os homens acabarão a mentir uns ao outros e portanto ninguém se entende, portanto não devemos mentir. Devemos ser solidários, e se elevarmos isso a regra universal então todos serão solidários com todos e o mundo confunde-se com o próprio paraíso. É para aí que deve seguir a humanidade, ou pelo contrário seria muito melhor que nos comportássemos segunda a mais selvagem lei da selva? O mais forte sobrevive, e ponto final. Dizemos prontamente que não. Temos horror à selvajaria. E porquê? O que torna a Humanidade tão especial para que se deva comportar de um modo também ele especial? O que nos leva a adoptar tão singularmente valores de Liberdade, Igualdade, Fraternidade? Porque nos comovem tanto estes valores? No mais profundo de mim, quero acreditar que há de facto algo especial que fundamenta essa moral. Não diria Deus num sentido estrito, mas uma Finalidade que se confunde com o próprio Universo.

Comecei este texto com outro objectivo. Deixei-me levar. Quero seguir os meus fixos, quero aprender mais e mais, porque quero entender o que fazemos aqui e, afinal que propósito é este de estarmos vivos. Não concebo que haja quem pense que é inútil tudo o que não encha a barriga. Não compreendo que haja quem pense que só existimos para «encher a barriga». Porque para encher a barriga não precisamos de um sistema brutal, económico, cultural, social. Seria bem mais simples vivermos como cães, gatos, formigas ou elefantes. Não faz sentido. E também não faz sentido atirarmos areia para cima da chama da dúvida. Ela não se apaga. Não estamos no mundo só para amar, só para nos divertirmos, só para «gozar enquanto cá estamos». Isso chama-se bebedeira. Estamos no mundo para mais qualquer coisa que ultrapassa a própria vida. Negar isso é embriaguez.