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terça-feira, julho 27, 2010

"Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."


Na edição de hoje do JN deparei-me com a transcrição integral de um texto de José Saramago num pequeno caderno dedicado ao ambiente. Depois de uma breve pesquisa googliana, descobri que esta extraordinária reflexão acerca do mundo económico e social dos nossos tempos foi escrita por Saramago aquando do II Fórum Social na qual o mesmo participou, e onde a leu pela primeira vez. É absolutamente audaz e acutilante a crítica que o Nobel faz à democracia - ou antes à pantomina desta -, e o modo como procura levar-nos a reflectir acerca da lenta transformação que devemos à globalização e à hegemonia do económico e do financeiro. É raro eu transcrever textos de outros autores neste blog, mas este vale mesmo muito a pena.


Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de 400 anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há 50 anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas 30 direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há 400 anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.


Alocução de José Saramago no encerramento do II Fórum Social Mundial

quinta-feira, julho 22, 2010

Utopias


O nosso tempo carece de utopias. Num ou noutro momento do séc. XX e XIX lá foram aparecendo algumas, como cogumelos, aqui e ali, e na maioria das vezes foram subvertidas - se não mesmo destruídas - por aqueles que se arvoraram no direito de as interpretar e pôr em prática à luz da sua pretensa infalibilidade.

Contudo, são as utopias abertas e não-concretizadas que merecem a nossa atenção. Nenhuma utopia deve ser simplesmente um presente mais-que-perfeito, um agora projectado no futuro expurgado de todos os seus defeitos e de exponenciadas virtudes. Uma utopia é mais que apenas uma época elevada a antecâmara do paraíso.

Uma utopia fechada, científica, torna-se numa ideologia e num meio de aprisionar a realidade. A realidade não pode ser aprisionada, delimitada em quatro paredes, rodeada de arame farpado. A realidade é sempre a primeira a revoltar-se, e no fim, sempre vence. As utopias do séc. XX tiveram sempre na sua base uma ideia do económico. Superar a escassez, dar pão a quem não tem, terminar com a exploração dos mais fortes pelos mais fracos. Daqui derivaram todo o tipo de socialismos e comunismos, e até capitalismos, que só pecaram por se tornarem reais e científicos.

Recuando no tempo, por exemplo, à República de um Platão, encontramos uma outra ideia, não apenas do material do pão para a boca, mas do espírito. É o reflexo de uma era de culto racional, sustentada por uma sociedade com poucas preocupações materiais, estribada que era por uma escravatura que tornava fúteis discussões de carácter meramente económico ou produtivo, ou mesmo de exploração do homem pelo homem, na medida em que tudo tendia a harmonizar-se na anulação de uns em prol da expansão de outros.

Qual pode ser hoje a nossa utopia? Que sonhos acarinhamos nós para o futuro? Que Humanidade? Quando falo em Humanidade estou já a querer arrastar no jugo da minha ideia uma entidade abstracta chamada “Humanidade”. Duas questões se colocam: não será a “Humanidade” feita de muitas humanidades?; que obrigação tem o resto da humanidade de seguir uma só ideia?

De onde vem esse enorme voluntarismo e altruísmo que certos ideólogos, revolucionários, utópicos aparentam quando pretendem interpretar a vontade do resto da humanidade, do “povo”, das “massas oprimidas”? Quantos males advieram deste voluntarismo que ninguém pediu. Quantas atrocidades se cometeram em nome do “povo”, das “massas”, da “humanidade”? Gostava que a Utopia do futuro, a verdadeira utopia, fosse em nome das pessoas. Pessoas é bastante menos ambíguo que povo, porque se refere aos indivíduos e não às massas amorfas e acríticas. O futuro vai por aí.

Fala-se tanto em revisão constitucional. Porque não começar por aí, substituindo o tão recorrente “em nome do povo”, “ao povo”, “para o povo”, pelo “em nome das pessoas”, “às pessoas”, “para as pessoas”? É toda uma diferença que vai desde o respeito que se tem pelo indivíduo cuja dignidade depende de uma abstracção, até ao respeito pelo indivíduo cuja dignidade está assegurada desde logo em si mesma, no ser indivíduo. É a diferença entre o mero rebanho, e a colectividade organizada. A utopia que interessa não pede voluntarismos nem seguidores. Antes pede voluntários e aderentes.

Por isto, nenhuma utopia verdadeira pode negar a mais importante das aspirações: seja qual for o sistema político, económico, social, o tipo de relação entre classes, a religião ou ideologia, nada é mais fundamental do que a realização intelectual, ética e humana de cada ser humano, no âmbito da esfera da sua individualidade irrepetível, bem como no de animal político (zoon politikon) que é. A realização e a liberdade das pessoas são o ponto de partida e de chegada de qualquer projecto de sociedade.

PS. De notar que em língua inglesa traduz-se por vezes a palavra people por povo, quando na realidade people significa sempre pessoas independentemente do contexto. O verdadeiro significado de Government by the people, for the people é Governo das pessoas, para as pessoas. É tudo uma questão de história e mentalidade...

sábado, julho 17, 2010

Portugal indeciso é Portugal não cumprido



Nos últimos tempos, são muitas as confusões, indecisões e meias-medidas que caracterizam o rumo (incerto) desta nossa praia à beira mar plantada. E é disso mesmo que se trata. Urge redefinir Portugal, não redesenhando fronteiras ou limites, mas tentando perceber se, de facto, somos ainda um país no sentido clássico, independente, soberano, auto-determinado, ou se somos, cada vez mais, uma região mais ou menos periférica, lentamente dissolvida num federalismo crescente, cuja política e direito se abandonaram às directivas de um direito mais abrangente, e cuja autonomia económica é hoje heteronomia em relação às instituições financeiras internacionais e ao Mercado Global.

Temos de nos decidir. Temos de nos decidir, e rapidamente. E temos de nos decidir sob pena de nos enredarmos cada vez mais na teia do erro, na ilusão de uma hipotética soberania que já não existe, na falácia de uma autonomia eminentemente nacional que é hoje, em parte, apenas folclore pseudo-patriota.

Temos de escolher dois caminhos possíveis, para que possamos, com alguma acuidade e propriedade, criticar governos e políticas. Não podemos, em boa verdade, criticar um governo pelas decisões que toma, quando este é pouco mais do que um corpo administrativo ao serviço de instituições transnacionais em altas instâncias federalistas, ou tendencialmente federalistas. Não é sério atribuir a um governo poderes que ele há muito não tem, ou imputar-lhe a responsabilidade por más decisões que reflectem apenas pactos, PEC´S e PAC´S com o objectivo de o obrigar a prestar contas e a respeitar deficits em tempo recorde. Não é sério culpar governos por altas taxas de desemprego, por mau desempenho económico, pela miséria endémica de um pequeno estado, quando ao mesmo tempo este se vê obrigado por abstractas leis de mercado e por Tribunais de Justiça Europeus a escancarar as suas portas à circulação de capitais, aos movimentos financeiros, sempre sob ameaças de cotações negativas, de má fama internacional, de abandono do investimento estrangeiro. Não é sério culpar governos pela perda de direitos sociais e laborais dos seus cidadãos, quando só através da baixa de salários, do aumento do horário de trabalho, e da facilitação de despedimentos é possível aos governos corresponderem às solicitações cada vez mais insistentes e birrentas dos grupos económicos transnacionais, que ameaçam a cada minuto abalar para pastagens mais verdes, onde os custos do trabalho e a responsabilidade social é quase nula.

Com isto não estou a afirmar, nem de longe nem de perto, que os governos sejam inimputáveis. Pelo contrário. Eles têm culpa, sobretudo ao alimentarem ilusões e ao fazerem promessas que, certamente, não serão capazes de cumprir. Seria mais sério que assumissem, desde o início, uma atitude pedagógica, explicando os verdadeiros limites dos seus poderes, e jamais prometendo aquilo que a própria conjuntura institucional não lhes permite cumprir. Mas esta falta de escrúpulos é acompanhada, para nosso prejuízo, por uma terrível falta de inteligência e de visão. Essa visão permitir-lhes-ia perceber o que está verdadeiramente errado nisto tudo, ao mesmo tempo que lhes daria uma verdadeira ideia ou plano para o país.

Por isso eu digo e repito: é preciso tomar decisões a sério, sem subterfúgios. O que queremos e podemos ser? Qualquer que seja a decisão tem de ser assumida para o bem e para o mal, sem meias medidas, panos quentes ou marketing.

Queremos ser proteccionistas e voltar ao clássico Estado-Nação, cerrar fronteiras, implementar taxas alfandegarias, promover a absoluta auto-suficiência, proibir as empresas de ir para o estrangeiro, sair da UE, recuperar uma total autonomia? Pois, se sim, então assuma-se. Por outro lado, queremos ser abertos, abrir fronteiras, abdicar progressivamente de uma autonomia política, económica, social, em prol de uma futura união federal de estados de direito baseados no primado da Lei e da Democracia? Pois, se sim, voltemos a assumir tal decisão com vontade, consistência e sem desculpas. Queremos, num plano intermédio, encontrar uma terceira-via menos maniqueísta? Mais uma vez, sejamos inteligentes nessa tentativa e assumamos todas as consequências de tal decisão, para o bem e para o mal.

O que está a matar Portugal (e a Europa) é precisamente esta recorrente indecisão que tudo paralisa e que não traz qualquer progresso a ninguém. A própria União Europeia e o seu projecto estão reféns de interesses cada vez mais díspares, e ao invés de uma verdadeira união aberta constituída de estados fortes e solidários entre si, caminhamos para uma Europa coxa, na qual uns estados vão assumindo uma preponderância cada vez maior, defendendo em relação a si mesmos aquilo que condenam para os outros, influenciando as instituições europeias que deveriam ser imparciais e equilibradas em termos de representatividade, mas que, em última análise, estão contaminadas pelos interesses dos governos mais influentes que, por sua vez, se deixam manipular por forças económicas e financeiras muito pouco consentâneas com os princípios da verdadeira solidariedade e do progresso.

Pois, assume-te Portugal, se te queres cumprir.

domingo, julho 11, 2010

Aforismos e meditações dispersas




Mais importante do que acreditares em Deus, é Deus acreditar em ti.


Tu és o primeiro agente da mudança, o teu próprio Messias.


As grande pirâmides ensinam que nada de verdadeiramente grandioso é possível sem sangue, suor e lágrimas.


Um dia, de pé em cima de uma rocha em frente ao mar, seguia um barco que se afastava do cais, cada vez mais longe confundia-se com o horizonte indeterminado. Quando menos esperava, escorreguei e caí desamparado do promontório numa fracção de segundos. Com as pernas e os braços esmurrados, levantei-me e compreendi: aquele que não está preparado para ver o horizonte, e mesmo para além deste, há-de cair sempre até que o hábito de subir o promontório lhe enrijeça os músculos, a vontade e a sensibilidade.


Antes de pretenderes ser feliz, pretende ser sereno. Estar sereno e conciliado com o mundo – é isso que deve procurar.


O mundo é terrivelmente imprevisível, e a consciência dessa imprevisibilidade conduz-nos a um estado permanente de preocupação e insónia. De um momento para outro podemos perder alguém que amamos, o emprego que nos traz pão para a mesa, o estatuto ou a reputação. A roda da fortuna é implacável no seu movimento. A tua vida pode ser uma luta constante contra o imprevisível; podes muralhá-la toda de várias maneiras: isolando-te dos outros, lendo fábulas, não saindo de casa, ou até reescrevendo o mundo numa metafísica que satisfaça a tua necessidade de ordem e previsibilidade. Há milhares de desculpas possíveis para evitar o perigo. Quanto mais o fizeres mais medo terás do mundo. Chegarás a um ponto em que a própria ideia de sair das tuas quatro paredes te enche de temor. Nesse dia morreste antes de morreres. Preparas o teu corpo para as quatro tábuas que substitituirão as quatro muralhas que à tua volta ergueste.


Na vida há dois tipos de problemas: os que têm solução, e os que não têm. Os que têm solução devem ser abordados com a mesma frieza com que se aborda um problema matemático, ou um puzzle. Só podemos resolver aquilo que está ao nosso alcance resolver. Assim, quando um problema não tem solução, devemos aceitar e assumir com a mesma frieza as nossas próprias limitações e tentar, na medida das nossas possibilidades, integrar o problema na nossa vida de modo a que se ajuste o melhor possível na nossa condição de seres humanos. O primeiro passo para resolver um problema, é colocá-lo. Não podemos dar respostas precisas sem formular perguntas precisas.


Os problemas podem surgir-nos a um nível superficial, mas todos os problemas derivam de outros problemas mais profundos. Por vezes, há pequenos problemas que vão surgindo e que, na mesma medida, vamos resolvendo. Contudo, eles continuam a surgir incessantemente. Porquê? Porque derivam de um problema maior cuja resolução é mais complexa, e cuja formulação exige um esforço maior por parte do indivíduo. O mesmo acontece com as ervas daninhas. Por mais que as arranquemos, elas continuam a surgir. Se utilizarmos herbicida é possível que tenhamos algum sucesso, ainda que temporário, pois as raízes manter-se-ão mais ou menos intocadas e acabarão por dar origem a mais ervas daninhas, mais fortes e resistentes que as primeiras. Portanto, para eliminar definitivamente as ervas daninhas, só arrancando as próprias raízes e eliminando da terra quaisquer sementes que possam existir.


Conquista os teus vícios; cultiva as tuas virtudes.


O homem de hoje já não conhece nem celebra o carácter litúrgico da vida. Cada dia é apenas mais um no correr das semanas, meses e anos. Já não se sacraliza o nascer do sol como a vitória da luz sobre as trevas, nem o banho matinal como um novo baptismo que purifica e renova através da água o corpo e o espírito. Neste aspecto temos tudo a aprender com civilizações ditas “arcaicas”.


A primeira das prerrogativas para se atingir um patamar considerável de serenidade consiste em aprender a não estar só. O sentido de pertença a uma comunidade é reconfortante por garantir apoio e entre-ajuda em qualquer circunstância, o que reduz a dor da imprevisibilidade. A comunidade garante, em princípio, o exercício da amizade e da lealdade para com os outros, bem como o seu reconhecimento e afecto para connosco. A partilha dos medos torna-os mais suportáveis, e o mesmo acontece com o sofrimento e a dor. Isto não retira importância ao estar só. Estar sozinho é também muitas vezes uma necessidade fundamental para o auto-conhecimento e clarificação das próprias ideias e objectivos. Contudo, é grande a diferença entre estar só e estar isolado. A pertença a uma comunidade, para ser verdadeiramente frutuosa, tem de partir de um acto voluntário de adesão, e o mesmo se passa com a vontade de estar só. A verdadeira pertença implica que o indivíduo seja capaz de ser ele mesmo no seio do grupo, estando perfeitamente à vontade para agir segundo as suas próprias idiossincrasias sem, como é óbvio, desrespeitar os restantes membros da comunidade. Um ser humano isolado dificilmente é feliz.


A razão nem sempre nos leva por caminhos fáceis. É o preço a pagar por se escolher a verdade, ainda assim muito menor que o preço a pagar por se persistir no erro.


Quando somos crianças não existe metafísica. O tempo não existe, nem responsabilidade, nem nada mais que o jogo que se joga, a corrida que se dá, a história que se inventa. Há uma felicidade inquestionável e inconsciente de si mesma no acto de brincar, um sentimento de completude no qual se esbatem todas as preocupações do passado ou do futuro. Quando nos tornamos adultos, andamos toda a vida à procura deste sentimento, e chamamos-lhe felicidade. Porquê? Porque não soubemos encontrar ainda o ponto de equilíbrio. Há pessoas que prorrogam o fim da sua infância até demasiado tarde, e outros, por força das circunstâncias, demasiado o antecipam. No primeiro, toda a sua vida é um esforço e uma frustração na tentativa de retornar ao passado dessa infância perdida; no segundo, toda a sua vida é esforço e frustração na tentativa de viver a infância que nunca conheceu verdadeiramente. Ambos, não vivem a sua idade como deveriam. Vivem antes uma idade que não é a sua.


O Deus da Bíblia é a projecção de uma humanidade


Em todo o mito ou cosmogonia está patente um princípio divino para a criação e a existência.


Essa divindade assenta no carácter absolutamente misterioso da existência.


O Deus de hoje é ele mesmo símbolo e metáfora de um princípio divino imanente a tudo. Esse princípio é movimento, procura de equilíbrio, liberdade e criatividade, criação e destruição. Os deuses são as forças que constituem o próprio universo. Conhecidas essas forças, explicadas e definidas pela ciência, resta o indefinível. Todas as forças fazem parte de outras forças, mais complexas, que por sua vez remetem para um única força, incognoscível. Essa força parece esconder um finalidade, uma intencionalidade última que nos é completamente alheia, mesmo que procuremos intuí-la através da razão, da metafísica, ou mesmo do esvaziamento mental. Essa finalidade é Deus, na sua matriz derradeira. A vida, ou seja, nós seres humanos, partilhamos dessa finalidade, somos expressão de uma dessas poderosas forças do universo que ainda não conseguimos definir. O deus da vida é a alma, porque a própria força da vida continua indefinível aos olhos de qualquer ciência. Será a vida apenas o resultado da soma das componentes físicas, de aglomerados celulares e relações neuronais, ou algo mais? Será o corpo apenas uma máquina aperfeiçoada por milhares de milhões de anos de evolução biológica, de tentativas e erros, de selecção natural? É possível que sim, mas isso não dessacraliza o valor da vida e o seu mistério. A vida complexa é o resultado da vida simples, mas continuamos sem saber o que é a vida. O que permite que um complexo orgânico, constituído essencialmente por átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto, possua autonomia de movimentos e seja capaz de gerar pensamentos ou ideias? Como é possível que esse mesmo aglomerado seja capaz de reflectir sobre si mesmo e dizer “eu sou”. É admirável e misterioso. Que admirável mundo novo é esse o da consciência... Que admirável e notável maquinaria biológica permite que um aglomerado orgânico abra os olhos e “acorde” para a sua existência e a do mundo. O que lhe permite fazer poesia, ou escrever sinfonias? O que lhe permite fazer ciência, elaborar teorias baseadas em relações matemáticas ou lógicas? O que lhe permite ter fé ou ideais abstractos? Claro que a vida de que falo é apenas uma parte muito ínfima do conjunto de toda a vida conhecida. O fenómeno da vida é incrivelmente variável e complexo, manifesta-se das formas mais insuspeitas e inimagináveis, adapta-se a diversos meios e ecossistemas. Além de ser das mais ubíquas – pelo menos no que respeita ao nosso mundo -, é das forças mais persistentes e duradouras. Uma vez surgida dificilmente é eliminada completamente. Foram várias as extinções em massa e os momentos em que a vida esteve quase a desaparecer da face da Terra. Porém, ela recuperou e prevaleceu, instituindo o seu domínio sobre a Terra uma e outra vez. O mesmo acontecerá no futuro, se não neste planeta noutro concerteza. É caso para perguntar, qual a importância da vida para a finalidade do universo? Porquê a inevitabilidade da vida? Aquilo que é divino é aquilo que é último, e que, por ser último é ao mesmo tempo primeiro. Deus é o princípio e o fim. É o Alfa e o Ómega.

sexta-feira, julho 02, 2010

...sem ideias, não vamos a parte nenhuma"



"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma."
José Saramago em Entrevista ao Expresso, 2008


Pois é. Agora que Saramago se exilou para sempre num qualquer Lanzarote celestial, deixou de ser aquele que incomoda com o seu pensar, único e senhor de si, para se tornar património de todos. Do país e da Humanidade, há quem diga. Chegará talvez o dia em que a UNESCO declarará pessoas ou obras individuais como património da Humanidade. É o chamado património imaterial do qual faz parte a literatura, a filosofia, a ciência pura.

Sempre que morre um homem, sobretudo se é grande, logo nasce o mito que o fará ainda maior. Cada um encontra agora na sua obra um qualquer pedaço de si mesmo. Eu, ainda que tenha estado muitas vezes em completo desacordo com o indivíduo, não posso deixar de sublinhar que, no fim de contas, há um aspecto de atitude que não pode ser posto de lado e que tem todo o valor. Esse aspecto está reflectido na citação em epígrafe.

Pensar. Reflectir. Perante as investidas dogmáticas de muitos sectores da nossa sociedade, sejam religiosos, políticos, económicos ou outros; perante o persistente desencorajar ao acto de perguntar, de contradizer, de pôr em causa, posto em prática pelas ordens, hierarquias, autoridades; perante as ideias que se vendem todos os dias, já empacotadas e com livros de instruções, de fácil mastigação e digestão, ideias que cada indivíduo toma como suas sem lhe ter colocado no caminho grandes resistências, cedendo facilmente às “autoridades”, aos “bem-falantes”, aos muitos vendedores de sonhos que por aí pululam cada vez mais; perante tudo isto, perante um geral adormecimento – não é inocente a imagem da cegueira geral posta em evidência sua obra Ensaio sobre a Cegueira – é urgente reabilitar as pessoas com essa extraordinária faculdade de pensar, individual e colectivamente. Não é inocente esta ideia de que a cegueira endémica de uma sociedade inteira conduz ao desastre, ao desmoronamento em bloco de uma civilização assente em pés-de-barro. Uma sociedade que baseia a sua existência numa concepção do indivíduo como consumidor, produto e produtor, que investe grande parte das suas energias no aperfeiçoamento da propaganda, da publicidade, na sugestão de necessidades supérfluas e perfeitamente acessórias, no engano, não está esta sociedade a “cegar” o homem um pouco todos os dias?

Agora que penso no assunto, talvez Saramago pretendesse sugerir o contrário. A cegueira não corresponde ao adormecimento, mas, pelo contrário, ao verdadeiro acordar. Pois, é no momento em que os homens cegam que a sociedade se desmorona. Por não serem capazes de ver, os indivíduos estão afastados da influência agressiva da propaganda visual, da sugestão, da publicidade. Estando a civilização assente nos alicerces deste poder sugestivo, não pode subsistir quando os indivíduos lhe são completamente indiferentes. Isto é só a minha interpretação...

Pensar é correr o risco de ser subversivo. É instalar a divisão onde antes existia coesão. Ao longo da história, muitos nacionalismos foram fundados no sacrifício da autonomia individual. Por vezes, no desespero de manter a coesão, sacrificaram-se aqueles que pensavam diferente, queimavam-se os seus livros, quando não se queimavam os próprios que os escreveram. O tempo revelou a fragilidade desta coesão falsa e com pés-de-barro. Pensar é correr o risco de dividir, mas nunca com o intuito de reinar. Dividir para fundar novos tipos de coesão, mais verdadeiros, assentes na autonomia de pensamento, na liberdade que é também razão. Talvez seja esta a proposta de muitos filósofos que, desde Kant, falam em comunidades de razão, ou em comunidades de comunicação (Karl Otto Apel).

Sim, esses espaços de reflexão de que fala Saramago são olhados de través por quem preza acima de tudo a estabilidade. Porque pensar, quando é sério e feito com boa-vontade, quando é fundado em argumentos límpidos, quando é estruturado numa rede lógica coerente, abre novos caminhos e possibilidades. O perigo vem da cristalização das ideias em ideologias, porque frequentemente as ideias são postas em prática, não por quem as imaginou em primeira instância, não por quem compreendeu o seu verdadeiro alcance – como quem diz limites -, mas por quem as tomou para si como dogmas fechados imunes à crítica, subvertendo toda a atitude que está na base do pensamento sério, límpido e baseado na boa-vontade.

Porque, pensar é também agir. Agostinho da Silva dizia ser indissociável o pensar e o agir, as duas faces do Pensamento. Um homem coerente age de acordo com aquilo que pensa. Se o mundo vai mal, é porque há muito quem pense sem agir, e muito quem aja sem pensar.

5 anos



No passado dia 13 de Junho este blog completou 5 anos de existência. Por minha culpa, por minha tão grande culpa, não lhe prestei nesse dia a devida homenagem. Por isso – e pondo em prática a tese de Ricardo Rodrigues (o sequestrador de gravadores) segundo a qual o que interessa é celebrar a Liberdade, nem que seja a 26 de Abril – dou hoje conta desse mesmo facto.

Esquecer-me do blog foi apenas uma consequência de me ter esquecido de mim. Também fiz anos dia 22 e nem sequer o celebrei. Sim, tenho 25 anos.

Graças às novas funcionalidades do blogger, tive oportunidade de “vestir” o cenáculo com outras vestes, dar-lhe um novo visual, lavar-lhe a cara. Se mudou na aparência, nada mudou na essência.

Obrigado mais uma vez a todos os que o lêem, ainda que muito raramente o comentem. É pena. Preferia que os leitores deste sítio virtual fossem um pouco mais participativos, sugerissem e até criticassem mais. Só tinha a ganhar com isso.

E para quem ainda tiver dúvidas de que este blog é lido - e lido em todo o mundo -, nada como dar uma vista de olhos ao mapa do Histats em cima. Os pontos vermelhos falam por si.

Ruben

sábado, maio 29, 2010

Para seres homem precisas de três coisas: Razão, Coragem, Disciplina. A Razão mostra o caminho; a Coragem percorre-o; a Disciplina constrói.

Cenáculo dixit

quarta-feira, maio 26, 2010

Akademia Kosmos


Olá a todos.

Dentro em breve gostaria de dar início a um projecto de formação. Na senda do que vem já sendo feito por outras organizações, gostaria de dinamizar uma série de workshops sobre os mais diversos temas, sobretudo no âmbito da filosofia, da história, das civilizações antigas, da ciência antiga e actual.

Para tal, gostaria da vossa contribuição para perceber qual das formações que delineei teria mais interesse. Seriam direccionadas a todos, desde que embuídos de um espírito curioso e aberto.

Respondam ao inquérito no scroll do lado esquerdo.

Obrigado.

quarta-feira, maio 19, 2010

terça-feira, maio 18, 2010

sobre o individualismo



Deixo-vos um interessente artigo escrito pela minha irmã mais nova no âmbito da disciplina de Português. Vai pelo bom caminho....

A tendência da sociedade actual é a de enriquecer cada vez mais o espaço individual em detrimento do espaço colectivo. Ao longo das últimas décadas o individualismo tem vindo a acentuar-se, reflectindo-se no modo como as pessoas se relacionam umas com as outras. Este fenómeno é mais visível nos grandes aglomerados populacionais onde factores como a tecnologia e a competitividade económica muito têm contribuído.

Antigamente, o espaço público era mais valorizado. As actividades do quotidiano eram partilhadas pelos vizinhos pois a pouca tecnologia existente era comunitária. Desta maneira, existia uma relação de dependência entre os habitantes. Por outro lado, nos tempos actuais há uma privação da comunicação presencial. Factores como a tecnologia, a economia e a insegurança vieram mudar todo o comportamento da sociedade. Actualmente, tecnologias como a internet valorizam cada vez mais a comunicação virtual, desvalorizando a presencial. Existe agora todo o tipo de produtos tecnológicos ao nosso dispor, nas nossas próprias casas, fomentando assim a independência da sociedade. Em consequência da riqueza dentro do lar, a sociedade capitalista onde vivemos vem completar tudo o que foi dito. Todo o funcionamento dela visa o lucro e a compra desmedida. Cada produto ligeiramente mais eficiente que o anterior é “bombardeado” pela capacidade apelativa da publicidade. Outro factor de valoriza o individualismo é a insegurança existente nos cidadãos. Devido ao contraste de riquezas existente nestes aglomerados populacionais, a criminalidade tende a aumentar, potenciando a insegurança do cidadão e da propriedade privada.

Desta maneira, e complementando tudo o que foi dito anteriormente, o sucesso profissional tornou-se a plataforma da felicidade. Este sucesso permite ao cidadão ter uma vida mais confortável, recheando a sua cada com a mais alta tecnologia que se tornou tão desejável graças às maravilhas da publicidade.

Em última análise, vivemos num ciclo vicioso. Deixou de haver o espaço colectivo para haver diversos espaços, tanto ao nível dos espaços individuais como ao nível dos espaços que reflectem a divisão da sociedade em classes. Assim, o indivíduo e as colectividades deixam de se ver inseridos num espaço que é de todos e cuja responsabilidade de manter é de todos, para se tornarem cada vez mais senhores da sua “pequena propriedade”. Um exemplo disto é a ilusão de que “a minha vida e o meu bem-estar não depende do bem-estar dos outros”. No entanto, depende. E cada vez mais num mundo global onde todas as relações são interdependentes. Mesmo assim, o mundo onde vivemos leva-nos a perceber que a ilusão da independência tem de se esbater perante as novas realidades económicas, sociais e ambientais.

domingo, maio 09, 2010

Sinais da Modernidade



Nunca deixando de ter em vista o significado de “modernidade” como tendência em moda, e não como sinónimo de progresso (como é de uso corrente), é mister fazer uma síntese geral dos principais sintomas da modernidade em que vivemos.

Hoje, são pelo menos dois os sinais dos tempos. A saber,

1) os grupos económicos transnacionais têm cada vez mais poder político, sobrepondo-se largamente ao poderio nacional tradicional, influenciando-o e esbatendo-o em nome de interesses eminentemente lucrativos. Isto é perfeitamente sintomático no actual estado-de-coisas, na medida em que a dependência financeira dos países em relação às entidades financiadoras é cada vez maior, colocando-os à mercê de empresas de rating e de especuladores sem escrúpulos.

2) as pessoas, habituadas à redoma de uma existência controlada, aos ecossistemas artificiais, a uma previsibilidade aparente fundada na evolução tecnológica, parecem cada vez mais alienadas dos ritmos que o homem não tem capacidade de controlar, noutras palavras, os ritmos naturais. Só isto explica o absurdo constrangimento que a maioria das pessoas imputam às “entidades oficiais” por “nada fazerem”, quando um fenómeno natural ocorre e impõe paragens preventivas nos ritmos artificiais. Sim, é garantido que o vulcão na Islândia se “está nas tintas” para os problemas humanos, e é bom que as pessoas se habituem à velocidade da natureza que sempre vence, e sempre vencerá.

Quanto ao primeiro sintoma, uma evolução linear assente na sua premissa conduzirá inexoravelmente à dissolução dos estados nacionais em prol de estados transnacionais, assentes em modelos empresariais que redefinirão fronteiras e assentarão em novos “fascismos” assentes na produtividade como objectivo primário, reeditando a ideia do “homem novo” voltado para novas escalas de valores que serão consequência de um novo status quo.

Quanto ao segundo, a Natureza se encarregará progressivamente de desiludir a humanidade, impondo-lhe cada vez mais os seus limites, e confrontando-a com a inevitabilidade da sua hegemonia, à qual os ritmos artificiais e humanos terão de se subjugar, e não ao contrário como até hoje tem acontecido.

Entenda-se como se quiser.

terça-feira, abril 20, 2010

Homem versus Natureza - dois mundos a duas velocidades


A erupção do vulcão islandês e consequente paralisação do tráfego aéreo nestes últimos dias, teve o condão de nos despertar para uma importante realidade: a fragilidade dos fundamentos da nossa economia e, em última análise, dos pilares da nossa civilização. Uma simples erupção – num vulcão considerado “pequeno” pela comunidade científica – foi capaz de pôr a Europa de joelhos durante quatro dias, provocando avultados prejuízos às companhias aéreas, e inesperados atrasos e adiamentos no movimento de pessoas, bens e serviços.

Dá que pensar. Os fenómenos da natureza fluem a uma velocidade diferente da dos fenómenos eminentemente humanos. Se para uma sociedade humana quatro dias de paralisação nos transportes conduzem a um caos sem precedentes, para a natureza quatro dias são apenas o aperitivo para um muito maior e mais prolongado período de mudanças geológicas que se manifestam através de sismos e de actividade vulcânica. Um vulcão como o Eyjafjallajökull pode manter-se activo durante dois anos, sem qualquer contemplação ou compaixão pela realidade humana para quem quatro dias são já prenúncio de apocalipse. A natureza não tem quaisquer contemplações em relação à humanidade, e não hesitará um segundo em destruir tudo aquilo que os homens constroém durante anos e dão como garantido.

Existem diversos vulcões por todo o mundo, alguns muito conhecidos e de má memória para muitos povos que tiveram a infelicidade de construir a suas vidas nas imediações das suas caldeiras. O Vesúvio,que na década de 70 d.C. arrasou a cidade de Pompeia, ou o Etna na Sicília; o Krakatoa perto de Sumatra que, em 27 de Agosto de 1983, despertou numa explosão apenas equivalente a uma potente bomba H, provocando a destruição da ilha de Krakatau e um maremoto gigantesco que matou quarenta mil pessoas ao rebentar nas costas de Java e Sumatra. Existem neste momento, em todo o mundo, 450 vulcões activos, uns de carácter efusivo como os conhecidos vulcões do Havai, e outros de carácter explosivo/catastrófico como o já referido Vesúvio, ou mesmo o do vulcão de nome impronunciável que continua a expelir nuvens piroclásticas ao fim de seis dias de actividade na Islândia. Para quem já ouviu falar na eminente e poderosa Civilização Minóica, cuja capital Cnossos se situava na Ilha de Creta, e que se desenvolveu entre 2700 a.C. e 1450 a.C, não será novidade o facto de esta civilização ter sido destruida praticamente de um dia para o outro por uma erupção titânica na ilha vizinha de Santorini que, de acordo com os cientistas, terá provocado maremotos gigantescos que em pouco tempo engoliram a ilha arrasando-a por completo. Há quem diga, inclusive, que a lendária catástrofe da ilha de Creta terá servido de inspiração a Platão para "inventar" o mito da Atlântida.

O que importa registar é que num mundo cada vez mais global e interdependente, existe cada vez mais uma real possibilidade de um fenómeno natural catastrófico imprevisível poder lançar o caos. Por exemplo, os sistemas de comunicações estão dependentes de sistemas electrónicos. Os telemóveis são, nos dias que correm, praticamente indispensáveis. Pois, o que aconteceria se, subitamente, ficassemos impossibilitados de os utilizar? E se uma tempestade solar, por exemplo, fosse capaz de inutilizar os circuitos electrónicos dos satélites ou mesmo das centrais eléctricas comuns - como aliás já aconteceu por diversas vezes nos EUA e no Japão -? Como reagiriam as populações a apagões que durassem, não dias, mas meses a fio? Como poderiam os aviões navegar às cegas sem os modernos sistemas de navegação global?

segunda-feira, abril 05, 2010

As ideias que mudam o mundo são geralmente o fruto de mentes solitárias.

cenáculo dixit

quarta-feira, março 31, 2010

Teístas e A-teístas - o deus paradoxal



Porque vivemos numa época de trincheiras, de extremos que não se tocam, ou recusam tocar-se sob o signo do orgulho; porque tenho ouvido falar os crentes, e também muitos não-crentes (que são apenas crentes de outras "divindades"), e porque uns e outros parecem sustentar as suas crenças em pés de barro, deixo aqui uma pequena reflexão sobre a existência ou não-existência desse ser absoluto a que se chama "Deus". É uma reflexão que não pretende dar respostas, receitas de "abertura fácil" ou de uso "instantâneo". A questão da divindade e da crença talvez se coloque mais em termos de pergunta que não admite resposta, ou de mistério que perenemente se eleva para além de qualquer cogitação.

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A eterna questão: Deus existe? Se existe, o que é Deus? Em que consiste o seu ser, a sua substância? Se não existe, porque o enunciamos tão recorrentemente, nas suas mais variadas formas, há milhares de anos? Se admitirmos que não existe, ficará a questão resolvida sem apelo? Podemos provar a existência ou o seu contrário? É Deus “provável”, ou noutras palavras, verificável? Um Deus provado, ainda é Deus? Se acreditar é o único critério para crer, então porque precisa o crente de provas?

O Universo, as suas leis, os objectos que o constituem, comportam a existência de Deus? É conciliável o universo como o conhecemos, como o entendemos à luz da ciência, como teorizamos acerca do modo como surgiu e se expandiu, com Deus? Qual a ideia mais perfeita que podemos engendrar, mais semelhante à divindade? Absoluto? Infinito? Porque é que, necessariamente, atribuímos a Deus uma absoluteidade ilimitada infinita iluminada? Será Deus apenas o expoente máximo dos mais abrangentes conceitos engendrados pela mente humana, uma ideia sem correspondente real? Ou será Deus algo exterior, transcendental e intangível ao pensar humano? Se Deus existe, o seu “existir” é igual ao “existir” de uma árvore, ou de uma pedra? Existirão, pelo contrário, diversos tipos, planos, dimensões do existir?

Destilado o deus que engendrámos das impurezas do mito, o que sobra? Isso que sobra, é ainda Deus? É mais fácil afirmar categoricamente que o Minotauro não existe, ou que Deus não existe? Qual a diferença?

Expurguemos, fragmentemos, a ideia de Deus. Vejamos se o que resta é digno de ser chamado de divino. Separados todos os atributos de Deus, sobra apenas um nome. Um nome é uma palavra. Não é um deus. Porém, só através das palavras nos podemos socorrer para falar dele. Se fragmentarmos uma cadeira, se lhe retirarmos peça a peça, o que sobra? Por um lado, sobra – novamente – um nome. Cadeira sem os atributos da cadeira, sem a sua substância, é apenas uma palavra oca. Em termos materiais, o que resta da cadeira fragmentada? O que fica no lugar da cadeira? Puro espaço. Resta puro espaço, que é o que dá à cadeira a possibilidade de o ser, porque nenhum objecto é sem estar delimitado por uma dimensão espacial. E Deus? Partindo do princípio que existe uma materialidade que é Deus, o que resta da fragmentação do divino? Que tipo de espacialidade, de dimensão geométrica pode dar a tal objecto a possibilidade de ser, de se delimitar? Por outro lado, se o próprio espaço material é uma ideia, o que resta da cadeira talvez seja isso mesmo – pensamento. O espaço material esfuma-se para dar lugar a qualquer coisa inefável e exterior ao pensamento, algo que não podemos verdadeiramente conhecer, por ser puro objecto. O mais próximo do nada, sendo ainda alguma coisa. É a espacialidade de Deus também ela, em última instância, pensamento? Nosso pensamento? Contudo, se procuro deslindar os limites, a espacialidade onde se integra Deus, apenas me ocorre uma ideia – infinito. Contudo, o espaço material, esse mesmo onde se integra a cadeira, só é espaço porque é limitado e ao mesmo tempo limita, ou delimita. Espaço infinito é espaço nenhum. A infinitude do espaço é a negação da possibilidade de delimitação. Espaço ilimitado não contém objectos limitados. É Deus limitado, ou ilimitado? Assim, se Deus for infinito não pode estar contido ou delimitado por qualquer espacialidade. Existe sem espaço, ou fora dele. Diz-se que duas rectas se cruzam no infinito, ou que qualquer recta faz parte do arco de uma circunferência infinita. Porque não afirmar que o infinito de Deus encontra os seus limites no infinito? Se o centro de um universo infinito está em todo o lado, porque não dizer que o centro de Deus está por toda a parte?

O que me leva, mais uma vez, a cair na tentação de dar atributos a isso que não conheço, e chamo Deus?

Pensemos a ideia contrária. Deus é nada. Não existe. Assim, o infinito é apenas o infinito. Este não contém nada. Talvez nem o próprio infinito exista ou seja. Mais uma ideia, uma palavra. Existe apenas universo, materialidade, o que posso ver através dos meus olhos, ou de instrumentos científicos diversos. O que posso calcular ou prever. Se assim é, elimino todos os paradoxos? Posso acreditar na finitude e na delimitação, mesmo sabendo que para além dos limites do universo algum tipo de espacialidade tem de existir para permitir a sua progressão? Posso acreditar na finitude e na delimitação, mesmo sabendo que me é difícil compreender que antes do primeiro momento de expansão universal – Big Bang – nada existia? De onde veio, então, o tudo? Não é o próprio universo, na sua materialidade, que se oferece ao paradoxo, à infinitude e à absoluteidade?

quinta-feira, março 25, 2010

País endividado é país amansado



O nosso país, esta pequena região à beira mar plantada, periférica e a longo prazo irrelevante, está cada vez mais refém dos ditames económicos e políticos internacionais. Se até há alguns anos tínhamos como obrigação cumprir os critérios da burocracia belga, hoje, outras autoridades se (a)levantam. Mercê de uma dívida externa crescente, Portugal é hoje visado, como num jogo bolsista ultra-avançado, por instâncias norte-americanas de controlo de risco. Instâncias essas que não são – pelo menos na sua essência – políticas, mas antes empresariais. Instâncias essas que são financiadas por grandes grupos económicos norte-americanos que, ao mesmo tempo, financiam a economia europeia através do crédito. Essas instâncias têm como objectivo avaliar o “risco da dívida”, ou seja, a capacidade de um país credor vir ou não a pagar os juros desse mesmo crédito. O mais curioso é que essas mesmas instâncias de risco não foram capazes de, em tempo útil, prever o colapso financeiro que teve início com a crise do sub-prime no seu próprio país! Os EUA são, ao mesmo tempo, o país mais endividado do mundo, tanto a nível de défice interno como externo, mas impõem agora tipificações de risco aos países europeus, vítimas secundárias da irresponsabilidade dos agentes económicos norte-americanos, da especulação imobiliária, do crédito irresponsável tanto do lado do credor como do devedor. Portugal, já de si garroteado pelas imposições dos PEC´s, vê-se agora também constrangido no colete de forças das empresas emissoras de crédito. Quem ainda tem dúvidas de que certas instâncias económicas têm mais poder político que os próprios governos soberanos dos estados, têm aí, à vista, a prova, a chaga aberta para tocar e crer. É assim, por estes meios, que continentes inteiros atrasam e condenam outros continentes à anemia económica, através de um controlo crescente que é imposto pelo endividamento. É a ameaça não mais velada do “ou cumpres, ou aumento-te o juro”. Há pelos vistos um ditado que diz que “Povo endividado, é povo amansado”. Podemos talvez parafraseá-lo no contexto das nações: nação endividada, é nação amansada...

Neste contexto, a Europa só poderá levantar-se e afirmar-se economicamente se 1) for capaz de encontrar outras fontes de financiamento da economia, 2) for capaz de se solidarizar internamente com os estados mais fracos, sem esperar que instâncias externas como o FMI o façam, 3) for capaz de aliviar o garroteamento que os estados mais fortes impõe sobre os mais fracos, nomeadamente através da imposição de quotas de produção – regime obsoleto -, e de saneamentos de contas públicas em – absurdos – períodos de 3 anos. No contexto actual, o que se passa é que os estados mais fortes da União limitam o progresso dos mais fracos, e os países financiadores como os EUA limitam, por sua vez, o progresso tanto dos fortes como dos fracos – bem como o seu próprio progresso, em última instância -.

Da parte dos agentes políticos em geral, o que se vê é um mastigar lento, uma política débil e cobarde de gestão do status quo. Ninguém tem coragem de mudar, de impor políticas a sério, não de quatro anos, mas de dez ou quinze. O que se passa é uma anedota. A soberania é cada vez mais uma caricatura de si mesma, e cada um dos agentes públicos é um peão, um joguete, um soldadinho de chumbo no tabuleiro das nações.

A ver vamos.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Um pseudo-orçamento de um pseudo-país



Muito se tem falado nos últimos dias desse tal “orçamento de Estado”. Este orçamento – aliás como todos os orçamentos – mais não é do que uma previsão das despesas e receitas para um determinado ano. Sublinho o facto de ser uma previsão. Sabemos bem o valor das previsões neste nosso país à beira mar plantado. São em geral feitas por baixo, e terminam quase sempre em monumentais derrapagens, à semelhança dos orçamentos para as grandes obras. Será este uma excepção? Não, nem perto disso, sobretudo se tivermos em conta que é um orçamento gizado sob a supervisão e orientação de Bruxelas, das instituições económicas internacionais, e da pressão política interna. É um orçamento em grande medida construído para agradar, para serenar ânimos e acalmar oposições. É um orçamento ligado inexoravelmente ao futuro de um governo.

Portugal vive garrotado pelas imposições da burocracia belga. Há muito que perdemos a nossa soberania económica, e até, em larga medida, a política. Mas ocorre-me também que é um processo natural, herdeiro da integração europeia e de uma concepção da soberania dos estados que atribui primazia à abertura do mercado dissolvendo todas as fronteiras e esbatendo nacionalismos. Esta realidade não é absolutamente má, muito pelo contrário. Contudo, a cada orçamentação, Portugal vê-se obrigado a corresponder às exigências, aos pactos de estabilidade, às regras europeias. Uma observação rápida e desapaixonada da actuação do governo obriga a uma não menos rápida – ainda que não totalmente rigorosa – conclusão: o governo é apenas o fiel tradutor da legislação e regulamentação de Bruxelas. Surge manietado, sem capacidade de manobra ou de real decisão. É mandatado, não por quem o elege, mas por quem dita as regras na Europa. Assim sendo, é indiferente que seja um governo de esquerda, direita ou centro. Chegado ao poder, cumpre-lhe simplesmente obedecer e fazer cumprir as regras impostas, sob pena de se ver processado e eventualmente multado nas instâncias europeias por “incumprimento”. A regulação é fundamental, e evita muitos perigos. Contudo, coarcta factualmente a liberdade e margem de manobra de um governo para resolver os problemas estruturais do seu país. Como e com que moral Bruxelas impõe a manutenção do défice abaixo dos 3 por cento, se não revê ao mesmo tempo o regime de quotas, regime obsoleto e verdadeiro espartilho do desenvolvimento económico? Como e com que meios um governo pode baixar impostos de forma real e significativa de modo a aliviar famílias e empresas, se vive ameaçado com o espectro da coacção europeia?

Um dos maiores erros do nosso actual governo foi ter emitido dívida pelas piores razões. Quando – aparentemente – o défice estava controlado, surgiu uma crise financeira internacional que obrigou os governos a emitirem dívida para darem garantias a bancos e sustentarem políticas sociais. Curiosamente – e até um pouco estranhamente – Bruxelas deu aval à emissão de dívida para a maioria dos estados, sempre com a retórica de que o sistema financeira estava a colapsar e havia risco sistémico evidente. Em Portugal, uma só nacionalização obrigou o estado a “enterrar” mais de 2 mil milhões de euros, já para não falar na garantia de 20 mil milhões às diversas instituições bancárias - se há garantia, há dinheiro, e se não há dinheiro, há dívida potencialmente emitida -. Em dois anos, o défice público cresceu de 3 por cento para 8, sendo que neste momento – segundo números do governo – está nos 8,7 por cento. A pergunta que eu faço é simples, e é a seguinte: não teria sido mais proveitosa a emissão de dívida para que se baixassem significativamente os impostos? Quantas empresas teriam sido salvas? Quantos postos de trabalho se teriam mantido? Quantos milhões o Estado teria poupado em prestações sociais, e quantos outros milhões arrecadaria através de receitas fiscais provenientes de empresas funcionais, bem como dos correspondentes trabalhadores? Isto seria, acredito eu, uma política de longo prazo, sustentada e inteligente, ao contrário da política que tem sido seguida, imediatista e sempre obcecada com a manutenção do equilíbrio orçamental.

É óbvio que o país não pode endividar-se ad infinitum. O imediatismo das medidas obsessivamente centradas no equilíbrio da balança do Estado é inimigo do desenvolvimento, pela simples razão que o verdadeiro equilíbrio das contas não se resolve com aumento de impostos de ano para ano, nem com perseguição fiscal, nem com privatizações à la carte. Resolve-se com fortalecimento da sociedade civil, com a pujança dos projectos individuais e colectivos, com desgarroteamento fiscal e aposta na produtividade. Em paralelo com isto, é preciso reduzir a despesa excessiva do Estado, começando pela despesa corrente da classe dirigente que deve ser mais eficiente e menos "pomposa". A reforma da administração faz-se do topo para baixo, e não ao contrário. É urgente largar certos atavismos próprios de um Estado ainda muito dado a "tiques monárquicos", e apostar na eficácia, nos recursos humanos qualificados, na ideias.

Atenção: com isto não estou de modo nenhum a desresponsabilizar o governo. Ele é em grande medida cúmplice deste estado de coisas, demonstra uma visão deficiente em relação ao país, bem como em relação ao verdadeiro caminho a seguir. Revela subserviência e falta de poder negocial com as instâncias europeias. Nem o facto do Presidente da Comissão Europeia ser português serviu de alguma coisa na hora de negociar.

terça-feira, janeiro 19, 2010

HAITI - COMO POSSO AJUDAR?

Veja que organizações deve apoiar no esforço para ajudar as vítimas do sismo no Haiti. Clique Aqui, ou veja no scroll do lado esquerdo desta página.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

O Lugar do Deslumbramento - filosofia, critérios de utilidade, futuro


A atitude filosófica caracteriza-se, desde logo, por uma atitude de radicalidade, ou seja, de regresso à raiz. Na raiz, subsistem as questões mais antigas da Humanidade, as mesmas que colocam a totalidade do mundo e da existência em questão. O que é o mundo? De onde vimos? Para onde vamos? Quem somos? Porque existe tudo em vez de nada? A primeira grande certeza que temos, aliás bem ao jeito cartesiano, é a de que, à excepção da grande maioria dos seres viventes que conhecemos, somos os únicos que, por alguma razão, fomos capazes de despertar para a dúvida eminentemente existencial. Não nos limitámos ao acto recolector, à satisfação sexual, ao mero satisfazer das mais básicas necessidades de sobrevivência. Subitamente, o Homem despertou para a absurdidade do seu lugar no mundo, absurdidade não num sentido pejorativo ou negativo, mas num sentido de pura estranheza eivada de mistério. A estranheza de existir e de ser. Sem este sentimento de estranheza - e até de alguma incomodidade - nunca o ser humano teria colocado qualquer questão acerca do mundo e do seu lugar nele. Teria apenas e só vivido.

Creio que isto dirá muito acerca da natureza humana. Desde os primórdios, os indivíduos e as comunidades tiveram necessidade de explicações, soluções mitológicas que dessem resposta às grandes questões: como foi criado o Universo? Como foi criado o Homem? Qual o lugar do Homem no Universo? As grande cosmogonias procuraram servir este propósito. Em grande medida, as respostas mitológicas serviram de cimento para o aglomerar das primeiras comunidades sedentárias, essas mesmas que mais tarde fundaram cidades-estado ou mesmo civilizações. Isto diz bem a necessidade que o ser humano tem de se sentir integrado num contexto maior, e a importância desta mesma integração para a realização individual e colectiva. Prova também, em larga medida, que o ser humano é capaz, desde os primórdios, de colocar as questões essenciais, e que a sua evolução em termos civilizacionais dependeu, em grande medida, do modo como procurou responder-lhes. Não é por acaso que a decadência de modos de pensar, de ideologias, de crenças, tenha estado ligada à decadência de civilizações, enquanto novas se forjavam a partir do cimento de novos paradigmas. Um exemplo paradigmático é o do Império Romano, cuja decadência se deve, em grande medida, ao abandono progressivo do politeísmo e da mitologia greco-romana, em prol do pensamento cristão evanescente.

O ser humano tem uma necessidade natural de compreender o seu lugar no mundo, a sua identidade própria, o sua função no contexto global da história. Noutras palavras, a sua Identidade. Esta necessidade identitária conduziu, como já afirmei anteriormente, à elaboração de mitos e cosmogonias, próprias de cada cultura. A Grécia Antiga não fugia à regra. Contudo, foi na Grécia que nasceu, em virtude da nova atitude de compreensão racional do mundo, a História como ciência, da qual Heródoto terá sido talvez o maior expoente. Melhor dizendo, o processo de contextualização identitária sofreu um novo ímpeto, baseado já numa tentativa de análise rigorosa, factual, científica do passado fundador, ao contrário da atitude acrítica baseada na tradição escrita e oral de cosmogonias e mitologias fundadoras. A Filosofia procurava, neste aspecto, devolver ao homem a verdade acerca de si mesmo. Com isto não quero dizer que todas as civilizações posteriores adoptaram este rigor, porque é errado dizê-lo. A atitude filosófica da Grécia Antiga brilhou como uma super-nova durante cerca de 6 séculos, mas só verdadeiramente se implantou na nossa civilização depois de uma prolongada noite de 1500 anos, numa catadupa de paradigmas renascentistas, iluministas, positivistas que durou os 400 anos seguintes, e culminou com a vitória da ciência como método, técnica e atitude de pensamento, já em pleno séc. XX.

Hoje, no despontar do novo milénio, lográmos realmente responder a todas as questões fundadoras? Descobrimos finalmente a nossa Identidade? Que civilização seremos, e quais os paradigmas que lhe darão forma? Existe ainda lugar para a Filosofia, ou ela não passa apenas de uma atitude que é necessário continuar a cultivar?

Hoje, o principal paradigma é o económico. Não há nenhum sector da sociedade que não tenha sido invadido e tomado pela urgência económica, pelo factor rendimento, pelo factor lucro. A abertura dos mercados a um nível global dissolveu fronteiras, esbateu nacionalismos, e substituiu em larga medida a ideologia pelo pragmatismo. A rede de interesses entre as nações é urdida pela lei da troca-por-troca. Há uma interdependência cada vez maior que se coloca acima do meramente político ou institucional. Em última análise, tudo se reduz um pouco ao critério da utilidade a curto ou médio prazo, em detrimento de outros critérios por ventura superiores – como os Direitos Humanos por exemplo -. Há claras desvantagens, ainda que existam também óbvias vantagens. Esta interdependência é capaz de assegurar, ainda que a médio prazo, uma paz possível entre os diferentes estados, na medida em que um estado não tem interesse em diminuir outro que lhe é comprador ou fornecedor, ou estaria a enfraquecer-se a si mesmo. Estou certo – e isso é já hoje visível – que as guerras do futuro terão mais haver com a diminuição da oferta de certos recursos dos quais todos precisam, e que começam já a escassear – petróleo, água, etc -. Acredito que a dissolução dos nacionalismos em prol do económico conduzirá a um novo tipo de imperialismo – o dos grandes grupos económicos. Uma grande multinacional tem hoje um poder tentacular, empregando milhares ou mesmo milhões de pessoas, criando muitas vezes as suas próprias regras, influenciando governos para que legislem a seu favor, deslocalizando-se conforme os seus critérios de utilidade independentemente de estados, fronteiras ou regimes políticos vigentes. Os estados eminentemente liberais e democráticos, mais permissivos em termos económicos, tenderam a ser colonizados por estes poderes, ao contrário de estados de regime totalitário e corporativista que tendem a chamar a si os grandes grupos económicos, não para se deixarem colonizar, mas para os controlarem. Não é por acaso que países como a China estejam em vias de controlar a economia global. O seu poder despótico associa o poder político de carácter nacionalista ao poder económico. Isto conduz ao fortalecimento – perigoso e nada desejável – das ideologias e práticas dos estados totalitários, pois são eles aparentemente os mais eficazes em termos económicos. Os estados democráticos, para poderem competir, apressam-se a baixar salários, a destruir direitos adquiridos, a responder a todas as solicitações e exigências do poder económico. Não têm outro meio de os segurar nos seus próprios territórios senão cedendo às suas exigências. O futuro da nossa civilização talvez pertença a novos totalitarismos associados a critérios de utilidade que despojam o indivíduo de si mesmo.

Não falarei aqui novamente na já muito afamada diatribe acerca do consumismo. É óbvio que o económico aprecia e precisa de consumo, como de pão para a boca. Hoje, as pessoas são, antes de mais, consumidores. É assim que o poder económico as vê, e é assim, em última análise, que cada pessoa se vê a si mesma perante o contínuo bombardeamento dos produtos especialmente criados para “as suas necessidades”. Poder-me-ia alongar por aqui, mas penso já ter falado o suficiente sobre isto.

O individualismo, sinal da vitória da razão prática – vitória apenas aparente – vê-se capaz de abdicar de uma moral colectiva em prol de uma moral própria, individual, digna de respeito como qualquer outra. Cada indivíduo considera-se uma ilha na qual nenhum outro tem autorização para aportar. Cada um arroga para si mesmo o direito a ser feliz, à sua maneira, sem intervenção de qualquer entidade ou moralidade exterior. Lenta e progressivamente, o indivíduo abdica da sua própria identidade, da compreensão do contexto maior em que se integra, da participação activa e consciente nesse mesmo contexto. Lentamente, o indivíduo desenraiza-se daquilo que o transcende e lhe daria, em última análise, algo próximo de uma identidade. Ele não precisa de nada disso. Basta-lhe os meios para poder adquirir os bens que o farão, certamente, feliz. Basta-lhe o pequeno grupo de “amigos” que lhe darão, certamente, algum sentimento de pertença. Basta-lhe uma noite regada a álcool, de música alta e luzes psicadélicas para esquecer qualquer veleidade metafísica. O indivíduo só precisa de viver neste círculo fechado e tribal para ser feliz. O crescimento exponencial das sociedades, aliado ao paradigma económico, aos critérios de utilidade, à dessacralização do mundo, conduz aquilo que eu chamo uma neo-tribalização da sociedade. As sociedades estão não só a dividir-se, com a fragmentar-se em milhares de milhões de pedaços muito pequenos, tantos quantos os elementos que as constituem. Isto conduzirá, na minha modesta opinião, a uma reconfiguração global das fronteiras, dos blocos geopolíticos, dos regimes e das ideias, a médio ou longo prazo.

Está a ciência a trabalhar no sentido de dar respostas às grandes questões? Sim, ainda temos ciência pura, ainda que cada vez mais pressionada por prazos e financiamentos quase sempre escassos. Está a ciência – mais precisamente a técnica – cada vez mais colonizada pelos critérios de utilidade/económicos? Sim, certamente. De notar o poder da indústria farmacêutica, que ainda agora recentemente foi capaz de influenciar a mais alta instituição de saúde mundial (OMS) a exagerar nos efeitos da gripe A, apenas para conseguir vender os excedentes das vacinas em stock.

Ainda existe, nesta sociedade, lugar para o deslumbramento, para o espanto, para a dúvida radical? Muitos dirão que não, pois afinal tudo é previsível. A imprevisibilidade não faz parte do léxico das sociedades que tudo planeiam, e cuja técnica tudo prevê. Mais um engano. É mister que, hoje, a Filosofia, mais como atitude do que como ciência, chame a si o dever que colocar novamente as perguntas de sempre, com a admiração de sempre. Alguém tem de chamar a si a capacidade de propôr novas perspectivas, de ver a “Big Picture” e de a tornar pública para que melhor se entenda onde estão as falhas e o que é possível fazer para as expurgar. É preciso “ligar à terra”, beber de novo sabedorias antigas, abrir as janelas das mentes cristalizadas e com cheiro a mofo. Há por aí muito mofo, é certo. A Filosofia tem o dever de ligar todos os pedaços, fundar novos sistemas e paradigmas que contextualizem os vários fragmentos ideológicos, sociais e científicos da época que vivemos.

A Filosofia tem o dever de pôr em causa os critérios da mera utilidade. Tem o dever de religar – é daqui que vem a palavra religião). A Filosofia é e será sempre contra-corrente.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Para uma vida mais autêntica - Viva 2010



Estou em crer que todo o ser humano tem as suas dúvidas, os seus dilemas, os seus bloqueios à felicidade, na maioria das vezes recalcados e subjugados pelos imperativos da modernidade. Não posso estar de acordo com o que se afirma recorrentemente acerca da ignorância como sinónimo de felicidade. É mentira. A ignorância, sobretudo se auto-imposta, apenas aumenta a dúvida ao ponto de a tornar insuportável. A fuga ao esclarecimento torna-se embriaguez e auto-adormecimento. Isso não é felicidade.

A dúvida existe em cada homem. Não se trata, na maioria das vezes, de uma dúvida concreta, uma questão formal e distinta da qual o indivíduo tenha consciência profunda. Noventa e nove por cento da Humanidade vê-se incapaz de formalizar ou concretizar as suas próprias insatisfações interiores. Assim, se não é capaz de as formular, muito menos é capaz de as esclarecer.

Tomo consciência diária das minhas próprias dúvidas. Conheço-as bem, pois convivo com elas lado a lado. Fazem parte do meu quotidiano porque delas não procuro fugir. Integro-as e vou tentando dar-lhes resposta. Por vezes, entrevejo-lhes as soluções, os meios para lhes dar resposta através de escolhas que alterem o meu modo de vida. Tenho-as no meu horizonte como referências, como polares ou cruzeiros do sul.

Nas vidas dos outros, nas suas gargalhadas e alegrias aparentes, vejo véus de felicidade. Penso diversas vezes, “Como são eles felizes! A vida é para eles tão fácil, tão limpa e escorreita. Não se questionam, vivem, apaixonam-se!”. Mas talvez seja eu a ver nos outros o que eu gostaria para mim próprio. Melhor dizendo, serei eu projectando nos outros uma hipotética felicidade que não existe. Uma ilusão pura e simples. Que felicidade existe para esses que “não têm ambições”, que “aproveitam cada dia como se fosse o último”, ou que “pedem apenas saúde”? Como podem ser mais felizes do que eu, que tenho dúvidas, que penso, que dou mais valor ao que dura do que aquilo que é efémero, que tenho ambições de proporções míticas, de gloriosas e nobres conquistas? Afinal, de que felicidade falam eles que a mim não me satisfaz?

Não será mais provável que cada uma dessas pessoas – cada um de nós – seja pródigo em manobras de auto-diversão para se auto-iludir? Não serão cada uma dessas “filosofias de bolso”, essas mesmas de trazer por casa, ditas populares, meros panos quentes, paliativos para a dúvida que jamais desaparece?

Quero crer que ninguém se pode iludir eternamente. Cada um de nós tem sonhos de grandeza, objectivos ambiciosos, dúvidas e dilemas que nunca deixam de existir. Existem diversas doenças crónicas com as quais os homens aprendem a viver, sejam diabetes, dores de cabeça, fibromialgias diversas. A doença crónica da modernidade, essa para a qual usamos paliativos diariamente, é a doença da não-realização. Aprendemos a superar a dor da dúvida e a adiar os sonhos como se aprende a injectar insulina à hora marcada.

Aproveitemos o novo ano para dar voz a essa voz que diariamente tem de se calar. Aproveitemos os silêncios, os pequenos interregnos que a sociedade nos concede, para entrarmos dentro de nós de espírito aberto, preparados para dar azo às dúvidas e aos sonhos. Seremos mais e melhores se formos completos. Seremos de uma vez por todas Homens e Mulheres com letra maiúscula.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Brainstorming - aberto a todos



A nossa sociedade avança a dois tempos. Por um lado, as solicitações profissionais, tecnológicas e económicas; por outro lado, as solicitações éticas e morais. É certo que a evolução não é paralela, e conduz os indivíduos e comunidades a desafios cada vez mais persistentes, dilemas que derivam de uma premente necessidade de adaptação e sobretudo de compreensão, por parte dos mesmos indivíduos e comunidades, de antigas e novas realidades.

Todas as crises destroem tanto quanto constroem. Esvaziam e criam novos espaços, novas oportunidades de germinação e génese. Acredito cada vez mais na necessidade de abrir novos espaços de diálogo. Acredito no poder da formação e das ideias.

Por isso, gostaria de pedir ao leitores deste blog uma espécie de "brainstorming". Quais são, na vossa opinião, as necessidades formativas mais prementes da nossa sociedade? Que espaços de formação e de diálogo seriam mais construtivos para os indivíduos comuns? Dessas mesmas propostas, quais as mais capazes de preparar o indivíduo para cada um dos desafios que se lhe deparam hoje?

Fico a aguardar!

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Mais um degrau - a formação é um direito




Finalmente, amanhã termino a curso de formação de formadores. Cumpri mais um pequeno-grande objectivo, com algum sacrifício e jogo de cintura para conjugar a indeterminação horária do meu actual emprego com os horários do curso. Farei uma apresentação, assim como todos os meus outros colegas, que será avaliada segundo 14 critérios de correcção, e que nos dará acesso ao tão desejado CAP.

Nestes quase dois meses de formação conheci gente extraordinária, cheia de histórias de vida, de idiossicrasias diversas com as quais muito aprendi. Valeu em grande medida por toda a experiência adquirida, não só no âmbito pedagógico, como no âmbito do relacionamento inter-pessoal. Tenho de agradecer a todos os formadores, e em particular ao Dr António Fonseca, gestor e formador da WPM - empresa de formação onde tirei o curso -. De notar a atenção que disponibilizou, a genuína preocupação com que lidou com o meu caso pessoal, fazendo os possíveis para ajustar o horário do curso ao meu horário de trabalho.

Admiro a iniciativa de cada um dos meus colegas, sobretudo daqueles que vêm de meios profissionais muito diversos da formação, ou são mesmo considerados "indiferenciados" pelo mercado de trabalho, dado possuirem apenas o 12º ano. Toda a vontade de aprender mais e melhor é, não só absolutamente legítima, como prova de uma humildade profunda capaz de levantar mundos. Ninguém tem de se sujeitar eternamente a ser mal pago, explorado e muitas vezes humilhado no seu local de trabalho. Ninguém tem de ser eternamente "carne para canhão" das empresas, visto como facilmente substituível, dispensável, descartável. Há uma facto de que ninguém se pode esquecer, sobretudo aqueles que estão em cargos de chefia ou comando: todas as pessoas têm dentro de si um senso de dignidade que tem de ser respeitado. Este senso é tão grande quanto a pessoa se sente digna de ser vista como aquilo que é, ou aquilo que se esforça por ser. Procurar mais e melhor formação é assumir que se é digno respeito, e até de admiração, ainda que muitas vezes baste uma palavra de reconhecimento.

Como estou a ler num livro esquecido e empoeirado dos anos sessenta, esquecido algures entre as prateleiras da Biblioteca da Junta da Senhora da Hora, ferir o senso de dignidade de um ser humano gera ódio e ressentimento. O ódio e o ressentimento mal geridos e recalcados conduzem à maldade, ao desrespeito mútuo e à violência, que na nossa sociedade se expressa em criminalidade violenta, menos violenta, violência doméstica, e até nas guerras nas quais fomos e somos ainda protagonistas.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Porque não escrevo...

Escrevo hoje para pedir desculpas. Deve parecer estranho, sobretudo aos mais assíduos leitores deste blog, que eu nada tenha publicado neste últimos tempos. Pois é. Na vida há escolhas que temos de fazer, escolhas muitas vezes dificeis, escolhas das quais depende a satisfação das necessidades mais básicas e imediatas de uma (sobre)vivência com qualidade.

Goradas todas as minhas expectativas profissionais mais imediatas, vi-me forçado a fazer uma escolha profissional que em nada me dá prazer ou realiza. Actividade essa que me ocupa 9 horas por dia em turnos incertos que não respeitam noite ou dia, natal ou ano-novo, familias ou afectos. Actividade essa que me deixa muito pouca energia para reflexões, para análises filosóficas, para leituras que tanto prazer me dão. Actividade que em tudo diverge da minha formação, ou sequer da minha vocação.

E não me chamem ingrato porque não o sou. Aceito, mas não quer dizer que me resigne a este estado de coisas. Há muito quem seja feliz desta forma, talvez porque as suas expectativas sejam menores, ou até porque se sentem mesmo realizados neste meio. Não sou hipócrita ao ponto de dizer que o sou, porque não é verdade. De todo. Faço o que tem de ser feito, porque simplesmente TEM de ser feito. Entretanto, aponto o meu olhar para a montanha lá à frente, essa mesma que sempre se afasta mas que nos dá o norte. Mantenho a esperança.

Peço desculpa mais uma vez.
Obrigado pela vossa compreensão.

Ruben

segunda-feira, novembro 09, 2009

Gripe A - ignorado mais uma vez

Publico aqui o texto que enviei, mais uma vez, para a página do leitor do jn, e que, como já vem sendo hábito nos textos acerca da gripe A que envio para o jornal, este ignorou completa e eloquentemente.

Afirma-se frequentemente - e erradamente - que a gripe A é mais agressiva e mortífera que a gripe sazonal. De facto, um médico francês afirmou recentemente, num artigo publicado no Le Monde, que a gripe A poderá matar cem vezes mais que a gripe sazonal. Contudo, ele compara dados estatísticos de França, com dados obtidos em ilhas da Papua Nova Guiné. Ou seja, segundo o médico em questão, a gripe – sazonal ou de outro tipo – mata normalmente por via do síndrome de insuficiência respiratória aguda (SRAG) – vulgo pneumonia -. De acordo com o próprio, em França existem em média cinco a seis casos de morte por SRAG num universo de seis milhões de infectados por gripe sazonal! Por outro lado, o mesmo médico afirma que, na Ilha Maurício, morreram pelo menos sete infectados com Gripe A num universo de setenta mil infectados, por via da SRAG. Serve-se, portanto, este eminente doutor francês de uma comparação que não tem comparação para fazer valer o seu ponto. Sabemos bem que o nível de propagação de uma infecção por gripe é muito mais rapido em meio insular, pelo facto de existir uma maior densidade populacional e a população ter menos defesas imunológicas contra o vírus, mercê do facto de viverem isolados em relações de proximidade e até de consanguinidade. Não é preciso ser médico para deduzir isto. Em boa verdade, e como já confirmou o infecciologista do Curry Cabral, Fernando Maltês, em declarações ao Público, “a morbilidade e a mortalidade provocadas pela a gripe A não são maiores do que a verificada todos os anos por acção da influenza sazonal.”. Uma responsável pela infecciologia do Hospital de São João, no Porto, afirma também no mesmo artigo que a virulência da Gripe A é menor em relação à da gripe sazonal. Ora, ainda que algo reticente, fui ao site da OMS para ver os números. Diz num artigo acerca da gripe sazonal que todos os anos, em todo o mundo, cinco a seis milhões de pessoas são infectadas das quais entre 250 a 500 mil não sobrevivem. De seguida, fui comparar com os números da Gripe A: até ao dia 11 de Outubro havia registo de 4735 mortes num universo de quase 400 mil casos conhecidos! Pasme-se! O ratio de mortalidade da gripe sazonal é de 6 em 100, e o de gripe A de 1 em 100. Qual o mais mortífero afinal? Quanto vão ganhar as farmacêuticas à custa desta campanha de marketing extremamente bem elaborada?

quinta-feira, outubro 29, 2009

Direito à Heresia - a pérola de Saramago



Recentemente, durante o debate com o padre Carreira das Neves acerca da Bíblia e do seu modo de interpretação, Saramago lançou uma pérola deveras extraordinária, sobretudo em alguém que se afirma conhecedor e informado acerca das coisas do mundo e da vida. Pois, segundo Saramago, a Declaração Universal dos Direitos do Homem deveria contemplar “o direito à heresia”. Ora, devo esclarecer o nosso Nobel em dois pontos que me parecem fundamentais. Em primeiro lugar, se existisse explicitamente um artigo que salvaguardasse o “direito à heresia”, ipsis verbis, então seria necessário esclarecer que de que heresia se tratava, visto que há diversas heresias possíveis, tantas quantas as crenças e convicções existentes. Em segundo lugar, já existe algo que muito semelhante a esse dito direito à “heresia”. Tratam-se do artigos 18º e 19º da mesma Declaração, que passo a transcrever na íntegra.

Artigo 18º
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.

Artigo 19º
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.


Cá está o seu “direito à heresia” senhor Saramago. Espero ter-lhe sido útil.