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domingo, agosto 30, 2009

O Poder de Votar




Trust the people - this is the crucial lesson of history
Ronald Reagan



No dia 27 vamos a votos para escolher a próxima legislatura. O PS já apresentou o seu programa eleitoral, bem como o PSD, e é de esperar que hoje seja apresentado o do CDS.

Acredito que estas eleições legislativas serão decisivas, talvez as mais importantes e significativas num tempo de crise económica e política. Quem será capaz de mobilizar os portugueses, de se assumir com uma liderança capaz, eficaz, e inovadora? Devemos apostar na continuidade e na estabilidade, ou na ruptura? Precisaremos de uma nova maioria, ou estaremos preparados para governos de minoria? Teremos novas eleições já daqui a dois anos?

E quanto às questões concretas: deveremos assumir como inevitável e inultrapassável a crise de crescimento e de desemprego, ou haverá de facto lugar para a mudança? Que forças políticas serão capazes de a levar a cabo? Podemos conduzi-la sozinhos, como país, ou teremos de rever as nossas relações com a UE, bem como os critérios e prerrogativas que figuram no tratado de adesão?

Será possível encontrar uma solução para a falta de empregabilidade dos jovens? Será possível - no contexto de um mundo globalizado e dominado cada vez mais pelas prerrogativas laborais dos países emergentes - acabar com a precariedade laboral, os baixos salários, o desemprego crescente? E se tal solução existe, será ela compatível com a competitividade das empresas num contexto internacional?

Haverá forma de potencializarmos e fomentarmos o investimento em áreas do sector terciário - agricultura, pescas, agro-pecuário - sem entrarmos em conflito com o regime de quotas? Estaremos preparados para rever as nossas prerrogativas de adesão, e se for necessário, abdicarmos de fundos estruturais em nome do desenvolvimento dentro de portas? Seremos capazes de acabar com a crescente dependência a todos os níveis da sociedade civil, de criar oportunidades e dar força às pessoas para que ponham em prática os seus projectos, os seus sonhos, os seus planos de vida? Estaremos preparados para criar uma política de subsídios mais justa e menos cega, dada a desvarios igualitários sem qualquer correspondência com o mundo real?

Estaremos preparados para acabar com certas «aristocracias» ainda remanescentes, de responsabilizarmos cada vez mais a administração pública - e aqui incluo os próprios políticos -, apostando cada vez mais na eficácia dos serviços, no atendimento informado, capaz, na resolução eficiente, informada e rápida das solicitações e problemas das pessoas? Neste contexto, haverá solução para a Justiça?

E para a educação? Seremos capazes de uma vez por todas de tomar consciência da importância fundamental, primordial, axial da educação e da formação? Será possível que as escolas, as famílias, as comunidades se tornem verdadeiros veículos de cidadania, de respeito pelo próximo, de responsabilidade e sentido crítico em relação à sociedade e ao mundo? E sem prejuízo da importância da vertente técnica e profissional, haverá salvação para os currículos das humanidades, da filosofia, da história e da arte, sem os quais não existe um desenvolvimento equilibrado e esclarecido da pessoa humana? Será assim tão importante o inglês quando não se fala/escreve correctamente em português? Será assim tão importante o Magalhães, quando as crianças não conhecem o valor da leitura?

É possível acabar com a insegurança sem pôr em causa as liberdades civis? Será possível acabar com os guetos urbanos e integrar devidamente as pessoas que neles residem? A emigração descontrolada será uma boa opção perante as dificuldades de integração daqueles que já cá estão?

As questões são muitas e de resposta urgente. Votem em consciência! Não deixem que outros escolham por vocês, porque não faltam velhos do restelo a dizer que «não vale a pena» ou que é «inútil». São esses mesmos velhos do restelo que, com a sua indiferença, nos tiram o poder de decidir e fazem as delícias de quem não tem interesse em deixar os seus «poleiros»...

quarta-feira, agosto 26, 2009

Rubrica quase humorística - Paraísos e outros risos


Como se sabe, existem vários tipos de paraíso. Existe o vulgar edén ajardinado, cheio de árvores de fruto, pequenos ribeiros de água límpida e anjos e arcanjos de túnica branca. Este é o típico paraíso cristão. O homólogo muçulmano também é interessantíssimo, e embora não tenha relva – os jardins árabes não têm relva – tem mais virgens à solta que qualquer praga de erva daninha (curioso, porque à semelhança da relva, as virgens são também verdes e tenrinhas). Contudo, há um tipo de paraíso que começa a ganhar adeptos um pouco por todo o mundo. Não, não se trata de uma nova religião. Aquela história de que deixamos cá tudo quando morremos é uma grande mentira, porque neste novo tipo de paraíso, o dinheiro que temos cá na terra – ou na terrinha – chega lá antes de nós. Antes, os ricos iam todos para o inferno. Já diz a Bíblia que mais depressa passa um camelo pelo rabo da agulha do que um rico vai para o paraíso! Ora, a solução encontrada para não deixar os ricos de fora, foi inventar o paraíso fiscal! João Rendeiro tem o privilégio de ser um dos primeiros a usufruir deste novo tipo de paraíso, e para o merecer não teve de fazer boas acções. Bastou comprá-las a preços baixos, e vendê-las depois em alta! Para o merecer não foi preciso ter valores. Bastou extorqui-los fartamente aos depositantes que confiaram na sua idónea instituição financeira. Estou certo que o paraíso fiscal é a solução para todos os males do mundo, em particular para o terrorismo. Senão vejamos: quando um talibã estiver prestes a carregar no botão para fazer explodir os 8 charutos de dinamite que tem à cintura vai pensar, «Eh pá, 70 virgens ou 70 milhões nas Caimão?». Estou certo que preferirá os 70 milhões, e tornar-se-á um homem novo. Se preferir as 70 virgens, de certeza absoluta que mais tarde ou mais cedo ficará destroçado por não ter escolhido correctamente. O seu coração – e não só – ficará em pedaços por saber que poderia estar a comer chocolate alpino e a beber leite de vaca suíça.

Uma outra nota interessante desta última semana foi a tonelada de diplomas legislativos que o nosso presidente foi obrigado a levar para férias. Nas suas próprias palavras, a quantidade é tão grande que «dava para encher um jipe». Falta, obviamente, saber a que tipo de jipe se referia Cavaco. Sabe-se de fonte segura (eu sei aliás) que na última conversa semanal entre Belém e São Bento, o primeiro-ministro propôs a Cavaco Silva que levasse todos os diplomas gravados no Magalhães. Afinal, sempre poderia pôr os netinhos a ler enquanto jogavam um qualquer jogo com coelhinhos a correr e a saltar. Depois era só vetar.

Por falar em Magalhães, lembrei-me que seria interessante se fizéssemos uma espécie de tratado de Methuen com a Venezuela. Em vez de fornecermos vinho do Porto em troca de têxteis ingleses, forneceríamos Magalhães (por mim podiam ser todos) em troca de misses venezuelanas. No fundo, as misses são em tudo semelhantes aos Magalhães, nomeadamente no facto de não falarem português. E estou certo que seria muito melhor para a nossa economia, sobretudo no turismo, se tivéssemos mais mulheres bonitas, em vez de andarmos a distribuir computadores com joguinhos «didàticuz».

Há uns meses, um estudo revelou que muitos casamentos estavam em vias de terminar por causa, imagine-se só, da Internet. Ao que parece, muitos homens preferem estar abeirados juntos aos seus computadores, do que abeirados junto às suas mulheres. E não os censuro, porque, em grande medida, mais tarde ou mais cedo, a relação entre um homem e uma mulher torna-se tão rotineira que não passa do digital, e em boa verdade é mais fácil encontrar o G num teclado do que numa mulher. Além de que, no pc dá sempre para baixar o som e pôr a hibernar sempre que se quiser.

terça-feira, agosto 18, 2009

Sobre o método de Aconselhamento Ético-Filosófico




Transcrevo um pequeno artigo que escrevi acerca do conceito de aconselhamento ético-filosófico para esclarecimento geral.


Sobre o Aconselhamento

É necessário clarificar conceptualmente o conceito do aconselhamento EF. Para ter alguma credibilidade, é necessário que se apresente com uma base mais ou menos científica, com métodos próprios conducentes a resultados verificáveis. Desta forma, e enunciando genericamente, o aconselhamento ético filosófico tem como objectivo orientar o cliente num processo de auto-compreensão do seus modos de pensamento, das suas concepções acerca da vida, do mundo, dos valores, bem como dos erros patentes nestas mesmas concepções. De uma forma quase socrática e maiêutica, o conselheiro deve ser capaz de colocar as questões certas, de forma a orientar o clt nos caminhos das suas próprias opiniões, conceitos, ideias, sonhos, para que este tenha consciência das concepções que estão na base da sua acção, e, em última análise, das suas felicidades ou infelicidades. O conselheiro deve ajudar o cliente a ver para além dos seus próprios preconceitos (pré-conceitos), e da falibilidade inerente aos mesmos, conduzindo-o, em termos ideais, a mudanças de paradigma de pensamento e de acção. É aquilo a que chamo de Metanóia. O conselheiro é aquele que ajuda o cliente a ver para além do Véu de Maya dos seus próprios pensamentos e conceitos mais imediatos, rotineiros e cristalizados. Filosoficamente falando, o conselheiro procura compreender a causa, a origem do preconceito que pode derivar de um erro de pensamento, um paralogismo, uma premissa que conduziu a uma sucessiva sedimentação de crenças feridas do erro da premissa original. Obviamente, o preconceito pode também derivar de uma experiência traumática, e compreender tal experiência pode também estar ao alcance do conselheiro filosófico. Embora os aspectos patológicos da experiência só possam ser devidamente compreendidos pela psicologia e pelos seus métodos, é preciso não esquecer que por detrás de uma experiência está um pensamento. Não existe experiência sem pensamento, e não existe pensamento sem conceitos. Embora o preconceito possa ser aprendido, através da sociabilização, da educação e por virtude de se estar inserido num contexto social-político-ideológico, este deriva também originalmente de uma experiência. No primeiro, estão em causa estruturas simbólicas e semióticas que se auto-reproduzem conduzindo a novas estruturas (Saussure). Estas estruturas culturais, à semelhança do que afirmava Saussure, são independentes, ou seja, o sujeito torna-se um reprodutor de estruturas semióticas que o antecedem. Parece não haver verdadeira liberdade de acção e criação, inclusive porque o próprio inconsciente é ele mesmo uma estrutura linguística (Lacan). Em última análise, a causa da acção é o pensamento, e o pensamento é feito de linguagem, que por sua vez é causado por estruturas semióticas e simbólicas que se situam num contexto maior, histórico por natureza. Portanto, quanto mais um ser humano compreender a estrutura do seu próprio pensamento, e o modo como esta estrutura se relaciona com o contexto simbólico em que está inserido, tanto melhor para atingir o objectivo máximo da felicidade. As experiências têm o dom de reforçar estruturas, simbolos e semiologias, e quando a experiência é particularmente traumática, torna-se numa espécie de verdade fundacional que justifica e corrobora enunciados indutivos, cujo risco maior está em se tornarem axiomas para onde toda a experiência futura remeterá. É uma espécie de ciência inversa. Esses axiomas transformam-se em arreigados preconceitos que condicionam a acção. É no perigo da generalização que radica o erro; é daqui a que nasce a irracionalidade da acção.

É dever do conselheiro permitir ao cliente que tome consciência desta irracionalidade, e do modo como esta atitude do sujeito põe em causa a reflexão acerca dos problemas e dilemas que o atormentam. Há um exercício que talvez seja interessante que é o de colocar o sujeito fora de si mesmo, permitindo-lhe observar o seu pensamento a partir de uma perspectiva exterior. É sempre mais fácil compreendermos algo a partir de uma perspectiva exterior, sem estarmos comprometidos com ela, seja de um modo afectivo ou identitário. Quando somos portadores de opiniões, ideias ou concepções, estas não são exteriores a nós mesmos. São de facto nós mesmos. Fazem parte do nosso ser, da identidade que somos e vamos construindo. Não podemos fazer uma análise objectiva dos mesmos sem a devida distanciação. Por isso, o conselheiro pode solicitar ao cliente que anote num papel as suas palavras, que transforme em proposições escritas as suas principais concepções acerca de questões particulares. Pode depois pedir ao cliente que parta do princípio que tais enunciados foram feitos por uma outra pessoa. Alternativamente, pode apresentar-lhe os enunciados algum tempo depois de ter iniciado as consultas, de forma inclusive a avaliar os progressos obtidos. A este método chamo de análise objectiva de enunciados subjectivos. Pode ser solicitado ao cliente que faça isto recorrentemente, à medida que os seus próprios paradigmas vão sendo reformulados. Contudo, deve partir sempre, em larga medida, da consciência do próprio cliente. Talvez seja verdade a ideia implícita no obra de Santo Agostinho, O Mestre, de quem não temos a capacidade de ensinar sejo o que for a alguém, porque não podemos compreender por esse alguém. A compreensão que conduz à mudança tem de ser realmente compreendida pelo indivíduo, não lhe pode ser imposta.

Dilemas éticos

Só existem dilemas éticos porque existe o compromisso com valores. Quem não tem qualquer tipo de comprometimento consciente ou inconsciente com valores morais e éticos, não tem qualquer tipo de conflito pessoal na hora de agir. Assim, o conselheiro deve em primeiro lugar ajudar o cliente a clarificar os valores com os quais está comprometido. Se surge um dilema ético, uma decisão a tomar, talvez seja melhor saber primeiro o que se pretende com tal decisão, ou seja, qual o verdadeiro objectivo, a causa primeira da acção que se pretende empreender. Para Aristóteles, o objectivo da Ética consiste em ter uma «vida boa». O imperatívo fundamental é o de compreender o modo como a virtude nos permite ter uma vida que corresponda ao que queremos e não ao quer achamos que queremos, ou simplesmente nos apetece. Savater, na sua Ética para um Jovem, faz uma análise muito interessante desta questão. Se alguém lhe apetece comprar uma mota, talvez essa pessoa evitasse gastar dinheiro – ou quem sabe ter um acidente mortal – se tentasse perceber qual é o verdadeiro objecto da sua vontade. Quer a mota pela mota, ou quer é mota porque esta lhe dá uma sensação de liberdade? Se a pessoa entender que o que ela procura verdadeiramente é liberdade, talvez possa encontrar outros meios de lá chegar. Por exemplo: ontem enquanto falava com uma amiga, esta apresentou-me um dilema ético típico para o qual seria interessante encontrar uma solução no âmbito do aconselhamento. Ela vai para Lisboa com o objectivo de fazer vida a longo prazo com o namorado, visto que ele é de lá. Como é obvio, um dos requisitos para mudar de cidade é o de ter um emprego minimamente estável. Depois de algumas semanas de procura, parece ter encontrado o emprego que procurava num infantário em Oeiras. Contudo, a vaga em questão existe porque a funcionária que a ocupava está doente – provavelmente com um cancro – e está, portanto, de baixa. A questão é a seguinte: se a mulher recuperar poderá voltar, em princípio, ao emprego, e a minha amiga é despedida. Se ela não recuperar e até falecer, a minha amiga terá o contrato renovado e poderá aspirar a um futuro dentro daquele infantário. A minha amiga está numa espécie de dilema, pois coloca as coisas em termos de «o mal dela será o meu bem». Ou seja, ela deseja ardentemente um emprego a longo prazo naquele infantário, mas, por outro lado, não deseja a morte da antiga funcionária. Como enfrentar este dilema? Em primeiro lugar, penso que é necessário clarificar o que está por trás deste conflito interior, ou seja, quais os valores com os quais a minha amiga está comprometida. Obviamente, se a questionar ela me dirá que «o respeito pela vida» está acima de qualquer outro valor, embora eu possa contra-argumentar que é igualmente legítimo «o direito à realização e ao trabalho». Claro, ela dir-me-á que esse direito só tem fundamento se não implicar a desgraça de ninguém! Está em causa o valor do mérito individual. Ainda que eu lhe diga que não está em causa o seu mérito individual, e que ela não tem qualquer responsabilidade no que está a acontecer com a outra funcionária, ela acredita que, ao permitir a situação, está a ser cúmplice do que lhe pode vir a acontecer. Portanto, a raiz do conflito ético está no acreditar que se é parte, ou que se tem cota de responsabilidade nas vicissitudes de outrém, porque, neste caso particular, estará a pactuar conscientemente com a desgraça do outro. A questão é: estaria a pactuar quando? Em que momento? Porque, se se mantivesse no emprego até ao momento em que a outra funcionária recuperasse, então a minha amiga será mandada embora e acaba-se o dilema. Por outro lado, se a funcionária não recuperar, então o contrato da minha amiga é renovado. Ou seja, até ao momento da recuperação ou não da outra funcionária, a minha amiga apenas está a cumprir um dever, está a substituir alguém a pedido de uma instituição que precisa de alguém, porque, em última análise, são as crianças que precisam de alguém que cuide delas nesse intervalo de tempo. É éticamente aceitável e desejável que saibamos honrar compromissos da melhor forma possível, e saibamos também corresponder às necessidades dos outros se for caso disso. Agora, eu poderia perguntar-lhe: então, porque simplesmente não cumpres o teu tempo, aceitando já a possibilidade de vires embora independentemente da recuperação da funcionária, partindo aliás já desse princípio? Porque se partires desse princípio, saberás que para já estás a cumprir um dever, mas quando esse dever terminar sabes que te vens embora. Poderia inclusive procurar outro emprego enquanto estivesse a trabalhar nesse infantário. Em qualquer uma das possibilidades, vinha-se embora. Fim do dilema ético? Então, e ainda que a senhora não recupere, se a minha amiga vier embora ainda assim, não estará ela a fugir ao dever? A instituição precisa dela, as crianças precisam dela e do seu trabalho. Não é justo para as crianças verem caras diferentes de ano a ano. Precisam de estabilidade. E também a minha amiga precisa de estabilidade. Contudo, a minha amiga continua a não querer compactuar com uma possível desgraça alheia. Nesta altura, eu posso perguntar-lhe: e se, mesmo que a funcionária recupere, te for pedido pela instituição para que fiques? Melhor ainda, e se o motivo pelo qual tu sejas convidada a ficar, não seja a morte de alguém, mas o teu mérito puro e simples? Aquilo que eu diria à minha amiga, e que concerteza ela acabaria por entender por ela mesma, seria o seguinte: cumpre o teu dever enquanto ele te é solicitado, e cumpre-o da melhor forma possível. Porque, ao cumprires o teu dever não estás a prejudicar ou a compactuar com a desgraça alheia, e se o fizeres da melhor forma possível é certo que o teu mérito será valorizado na hora de todas as decisões. Serás seleccionada por seres cumpridora e profissional, e não simplesmente porque havia uma vaga livre.

quinta-feira, agosto 13, 2009

A Dama de Rangum



Ela tem 64 anos, chama-se Aung San Suu Kyi, e tem dois filhos que já não vê há 10 anos, mercê do facto de estar em prisão domiciliária por delito de opinião há 14. Em 1999, e como se não bastasse tudo o resto, Suu Kyi perdeu o seu marido, o britânico Michael Aris, vítima de cancro. Aparentemente sem nada a perder, Suu Kyi decidiu fintar a loucura e a depressão impondo a si mesma uma disciplina diária estrita e rigorosa. Nas palavras da própria, é muito importante estabelecer uma rotina e segui-la de modo muito estrito para evitar o desperdiçar inconsciente do tempo. É admirável a lição desta verdadeira “dama de ferro” birmanesa. Ela não pode estar mais certa. A disciplina estrita e auto-imposta permite-nos dar o nosso tempo como válido, útil e preenchido. Permite-nos avançar, progredir, e em suma, construir! Nada se faz de verdadeiramente válido e útil para a humanidade sem esta auto-disciplina. Os grandes do mundo não o foram por obra e graça, mas por força das suas próprias vontades. Numa conjuntura de opressão, como a vivida por Suu Kyi, bem como por muitos outros presos políticos do passado e do presente (são muitos e todos merecem o nosso maior respeito e atenção), esta auto-disciplina revela um sentimento profundo, uma subtil chama de esperança que se mantém acesa, numa espécie de fogo fátuo capaz de alimentar a acção, intocável e indestrutível por qualquer mordaça, metralhadora, ou condenação imposta por uma qualquer junta militar que só conhece a linguagem da bota que pisa, ou da palavra que oprime. É com esta profunda dignidade que um oprimido se apresenta ao mundo como verdadeiramente livre: nenhuma prisão consegue tirar a liberdade a quem se mantém digno do principio ao fim, nem a quem tem a razão a servir-lhe de chão, ou, se for preciso, de sepultura.

É obrigação de todos os povos livres estarem solidários com os presos ou os exilados políticos, estejam eles estiverem, seja qual for a sua origem.

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terça-feira, agosto 11, 2009

Peças quase humorísticas

Olá.

Porque sei que o Humor é importante, e também em homenagem aos humoristas do nosso país, e em particular a Raúl Solnado, de hoje em diante, todas as quartas-feiras de quinze em quinze dias publicarei um texto quase humorístico da minha autoria. Rir é sem dúvida o melhor remédio.



Hoje apetece-me falar de humor. De notar que falar de humor não é o mesmo que fazer humor. Pode-se, contudo, ser-se engraçado enquanto se fala sobre a graça. Por isso, amiga Graça, se estiveres a ler este texto já sabes, não leves a mal, está bem?

Humor é parecido com Amor, com a diferença substancial que o Humor é menos doloroso. Sim, claro, podem delapidar-me por dizer tal blasfémia! Eu sei que o amor é lindo, e que é melhor amar e sofrer do que nunca amar... E, já agora, que tudo é eterno enquanto dura! Viva os chavões da modernidade. O que ninguém ainda parece ter percebido é que, o que é mesmo eterno enquanto dura não é o amor, mas um pontapé nas gónadas masculinas! O que parece mesmo eterno enquanto dura é a dor, porque dura sempre demasiado, nem que seja só um segundo... O próprio Einstein explicou a teoria da relatividade da seguinte forma: se a tua namorada se senta ao teu colo durante uma hora, parece-te um segundo (isto, é claro, convenhamos, se ela não sofrer de obesidade mórbida). Porém, se te sentas durante um segundo numa chapa muito quente, esse segundo parece-te uma hora! Portanto, caro Vinicius, pah, estavas enganado (a não ser obviamente que gostes de sofrer).

O Humor é a prova provada de que evoluímos. Evoluímos de um ser macacóide que fazia esgares verdadeiramente ridiculos, mostrando toda a dentadura e soltando gritos excruciantemente dolorosos - só semelhantes aos da Júlia Pinheiro – em direcção ao patamar de seres pensantes, capazes de rir para dentro, capazes de não se deixarem levar exclusivamente pelo engraçado mas de reconhecer o engraçado por detrás do aparentemente menos engraçado. O nosso cérebro evoluiu ao ponto de ser capaz de criar associações bizarras, unir conceitos aparentemente opostos, gerar ideias novas e inusitadas. O inusitado e pouco convencional faz rir, e até as epifanias religiosas, místicas, científicas, criativas, são verdadeiramente humorísticas! Conta-se que o Newton, aquando daquele ataque que sofreu por parte de uma maça tresloucada que se soltou de uma árvore (a maçã é que leva sempre com as culpas) primeiro chorou como um bebé tal foi a dor, mas depois acabou a rir como um louco ao ser iluminado subitamente pela noção de gravitação universal! Quanto à maça, consta-se que casou com um maçon da loja maçonica de Inglaterra e foi feliz para sempre. Viram, eis uma piada que associa elementos aparentemente opostos e que gera toneladas de riso! Ou não... Só por curiosidade, Newton processou a maçã e foi às Manhãs da TVI fazer queixa dela, e ainda aproveitou para dizer que estava desempregado há dois anos, estava grávido e tinha ratos em casa.

Acho até que o Índíce de Desenvolvimento Humano - o famoso IDH que serve de instrumento estatístico para avaliar a qualidade de vida e o desenvolvimento de um país – deveria incluir o Humor, tanto ao nível do acesso de todos os cidadãos ao bom humor, como à qualidade desse mesmo humor. O painel de jurados deveria ser constituido essencialmente por humoristas consagrados, nomeadamente esse senhor do humor português em geral, e do europeu em particular, Alberto João Jardim. Proponho Alberto João Jardim para tal honra por considerar que reúne, ao mesmo tempo (o que é raro) qualidades de político e de palhaço. Alberto João Jardim inovou o panorama do humor nacional, substituindo as tradicionais anedotas de alentejanos e de loiras por anedotas sobre chineses e comunistas, e ainda abriu uma nova modalidade de caça na Madeira, chamada caça ao dirigível.

Humor é sentimento. E não me venham dizer que o Fado é que espelha verdadeiramente o sentimento lusitano. Blhack. O que espelha o sentimento lusitano é o humor lusitano, meio sacana e quase sempre polvilhado de ambiguidades linguísticas que conduzem, quase inexoravelmente, ao sexo. A piada portuguesa teria deliciado Freud, porque não há frase ou palavra em português que não tenha um correspondente em sexualês. Daí dizer-se que a língua portuguesa é muito traiçoeira... e a razão para isto acontecer é tão simples de entender que até enoja. Os portugueses tiveram de calar durante demasiado tempo, o pudor e os bons costumes obrigaram-nos a dizer por meias palavras, por rodeios, aquilo que facilmente, noutras circunstâncias, se diria claramente e sem ambiguidades. Agradeça-se à Inquisição e à Ditadura, as mães da sacanice do humor português! Graças a Deus, os tempos mudaram. Agora fala-se – quase abertamente – de tudo. Até se fala demasiado do que não interessa. Agora fala-se demasiado na Gripe A, e mete-me medo só de pensar que ainda temos pelo menos mais 22 letras para baptizar gripes futuras. Quando chegarmos à Z pode ser que as farmacêuticas já estejam ricas e não seja preciso inventar um novo alfabeto para baptizar gripes fraudulentas. A não ser que inventem a Gripe AAA, tipo as pilhas. Gripe mais dura: AAA; gripe menos dura: AA. Ou Gripe para todos os tamanhos: gripe S, M, ou XL.

quinta-feira, julho 30, 2009

Novidade - Consultas de Aconselhamento Ético-Filosófico - Seja o Primeiro



É verdade. Decidi finalmente iniciar a minha actividade de conselheiro ético-filosófico. Para quem não sabe, esta actividade nasceu há poucos anos nos EUA, como forma de aconselhamento alternativo (ou complementar) à psicologia. O livro que, segundo sei, lhe está na génese é o Mais Platão, Menos Prozac, do autor Lou Marinoff.

Em Portugal, esta actividade está ainda no seu estado embrionário. As principais associações que a desenvolvem são a APAEF, bem como o Gabinete Project do Dr Jorge Dias. Talvez valha a pena ler alguns dos exemplos que o mesmo descreve acerca das suas próprias consultas:clique aqui

O site da APAEF também pode ser útil para esclarecer qualquer dúvida

www.apaef.com

Para que serve? De que se trata?

Tentando ser o mais claro possível, as consultas são vocacionadas para qualquer pessoa, preferencialmente a partir dos 16 anos, independentemente das habilitações ou da experiência de vida. Visa ajudar a resolver conflitos pessoais, dilemas éticos, depressões, dificuldades de relacionamento inter-pessoal, problemas de sentido para a vida. É isso mesmo que se pretende: orientar e encaminhar da melhor forma, ouvindo e esclarecendo.

Para marcar consultas ou pedir qualquer tipo de esclarecimento enviar e-mail para manotime@gmail.com

segunda-feira, julho 27, 2009

A gripe A é um mito - a confirmação

Escrevo sobre o mito da gripe A, e meses depois cronistas e fazedores de opinião do JN e de outros jornais dão-me razão.

Escrevo sobre a crise do jornalismo, envio o texto para a página do leitor do JN, e sou, pela primeira vez, completamente ignorado. É preferível publicar os poemas dos velhinhos e os textos especialistas do mal-dizer.

Escrevo e continuamente vejo confirmado o que escrevo. Já pareço o Paulo Portas a dizer que o governo, no fim de contas, dá-lhe sempre razão ao pôr em prática as suas propostas.

Talvez um dia destes faça o mesmo que a Maria João Pires e o Miguel Sousa Tavares querem fazer: naturalizar-me brasileiro. Estes país é cada vez mais o país da «Treta». Já começa a cansar-me e a fazer-me mossa...

Por isto, publico novamente o texto que escrevi há alguns meses sobre a mentira da gripe A.


Temos sido bombardeados nas últimas semanas com o papão terrivel e inevitável de uma pandemia mundial. A gripe A (que começou por ser Suina até que os porcos finalmente foram redimidos da sua culpa) partiu do México e propagou-se por vinte e tal países. Tudo bem. Até aqui entendo o que se pretende dizer por pandemia. Porém, parece-me que existe aqui uma enorme incongruência, alimentada pelas mais altas instâncias mundiais de saúde, nomeadamente a OMS.

É verdade que houveram já mortos, mas agora a OMS chegou à fantástica conclusão de que, ainda que haja pandemia, será moderada e não causará a extinção da espécie. A minha pergunta é muito simples e directa: se a gripe sazonal mata em média 300 mil pessoas por ano em todo o mundo, qual é alarme em relação à gripe A que, até ver, matou 150 pessoas, e nenhuma na Europa? Porque é que se considera a Gripe A uma pandemia, e não se declara uma pandemia todos os anos sempre que a Gripe Sazonal ataca? Qualquer pessoa que esteja a ler este blog já passou pela experiência da gripe sazonal, e nem por isso ficou alarmada com isso. Nada que um cházinho, muito descanso e benurons não resolvam. Pronto, concedo ao senhores da OMS que a gripe A parece provocar vómitos e diarreias fortes, mas a verdade é que a gripe sazonal é mais mortífera, sobretudo quando atinge crianças e idosos mais vulneráveis. Qual é a novidade, alguém suficientemente versado pode explicar-me?

Posso sempre especular e dizer que esta gripe A é uma bela mistificação, orquestrada pelas mais altas instâncias da saúde pública reféns de outras altas instâncias a trabalhar na obscuridade, nomeadamente a poderosissima indústria farmacêutica... Será a gripe A uma estrondosa campanha de marketing patrocinada pelos grandes laboratórios para que se venda o tal Osertamivir, esse mesmo medicamento que dizem ser o apropriado para esta maleita? Porque pelos vistos, o Tamiflu já não serve...

Vá-se lá saber. Até ver, quem tem ganho com esta pseudo-maleita são os vendedores de máscaras faciais. E, até ver, quem tem perdido mais são os porcos. Que o digam os pobres porcos egípcios que foram chacinados...



Estão contabilizadas já perto de 200 infectados no nosso país. Pasme-se! Não há mortos. Pasme-se mais ainda! Já morreu mais gente este ano de gripe sazonal comum! Chega. Chega. Chega. Acho que 40 milhões de euros gastos pelo estado português para comprar 2 milhões de vacinas já é suficiente para a ganância das farmacêuticas, não acham?

segunda-feira, julho 20, 2009

A decadência do jornalismo é a decadência da Democracia


Essa tal grande, pródiga e de costas largas crise financeira e económica que vivemos actualmente teve o condão de fragilizar as sociedades, de empobrecer e de fomentar dependências. A queda da confiança nas instituições bancárias, e no sector privado em geral, está a conduzir a uma afirmação dos estados, dos governos como os grandes «salvadores», legitimando que, em última análise, estes amplifiquem os seus poderes de intervenção, de tentacularização da sua acção, por ventura à socapa dessa tão recentemente apregoada solução de uma «maior regulação». Porque, em última análise, é disso que se trata: aumentar o controlo sobre a opinião pública, sobre as pessoas e a sua liberdade. Sabemos bem o papel que as crises do passado tiveram na ascensão dos regimes totalitários, tanto de esquerda como de direita.

Hoje, estamos a assistir a um fenómeno que não augura nada de bom para a democracia. A imprensa, nomeadamente a escrita, vê-se a braços com grande dificuldades em manter-se de pé, sobre o peso das dificuldades económicas e, sobretudo, sobre o peso de uma filosofia de mercado e de concorrência que substitui o bom jornalismo pelo mau jornalismo. Há pouco tempo, cento e muitos dos melhores jornalistas do Jornal de Notícias, com sede no Porto, foram pura e simplesmente despedidos, alguns já com trinta anos de experiência. O Primeiro de Janeiro já despediu também centenas de jornalistas, substituindo-os – e é isto que é muito grave – por estagiários a recibo verde, já para não falar em todos aqueles que são convidados para estágios não remunerados e são, ao fim de três meses, convidados a ir para a rua. O Público, um dos jornais de referência, está também na mesma rota de desintegração, e os seus trabalhadores deixaram de ter quaisquer garantias da estabilidade dos seus postos de trabalho. Amanhã, podem bater com o nariz na porta, descartados em troca de «mão-de-obra barata». Pode argumentar-se que tudo tem a ver com a concorrência dos jornais gratuítos, ou com o facto dos jornais de papel estarem a perder terreno em relação ao jornais on-line. A questão aqui não é essa. A questão essencial é a de que o jornalismo de qualidade e referência, independente e sério, não tem garantias de sobrevivência quando está nas mãos de profissionais cujas carreiras subsistem no fio da navalha, ou nas mãos de estagiários que não tem tempo para mostrar o que valem, ou não ganham o que merecem, ou nem sequer podem fazer estágios não-remunerados porque a vida não se condói com este tipo de precariedades, nem com esta falta de futuro. Não pode haver um jornalismo independente, informado e sério quando se tem o emprego em risco. Não pode haver bom jornalismo quando a concorrência é feroz e o importante não é a boa informação, mas a informação sensacional. Não há bom jornalismo sem bons jornalistas e sem continuidade e liberdade de acção, e nem uma nem outra estão garantidas nas redacções do nosso país. Nenhuma destas. Puxe-se a meada do jornalismo, da boa informação, e é certo que toda a estrutura da democracia cairá por terra. Antes de mim, já penso que Jefferson o terá dito. Então, se não há segurança nos privados que gerem a imprensa, então devem ser os estados a tomar conta, como se fizeram com muitos bancos por todo o mundo? É verdade que com os jornais não há riscos sistémicos, nem perigos para a confiança económica. Ou pensando melhor, há outro tipo de riscos sistémicos que têm a ver com a confiança na informação. Hoje, a confiança nos bancos é diminuta, e basta fazer uma simples sondagem à opinião pública para percebermos que, em última análise, «só o banco do Estado parece dar garantias de segurança». E se o mesmo se vier a passar com o jornalismo? E se, perante as inseguranças dos jornalistas e dos consumidores, os governos decidirem também tomar conta da imprensa, criar novos jornais, abrir novos canais noticiosos, oferecendo segurança, credibilidade, aparente isenção? Não seria este o contexto ideológico certo para o fazer? O que seria então da independência política, da verdadeira isenção? Não seria esta situação o princípio do fim da democracia? Há uma verdade insofismável na política: quando a sociedade civil enfraquece, o caminho está aberto para os totalitarismos. Esta crise teve o condão de provocar a decadência há já muito anunciada da sociedade civil, dos privados, da iniciativa, da criatividade individual e colectiva. Os governos, perante esta situação, praticam a política do subsídio, do pão para a boca, e subliminarmente aumentam o seu controlo e domínio sobre as populações. Veja-se o que está a acontecer em Portugal. As pessoas não gostam da insegurança, da incerteza, e porque estão frágeis, desgastadas pelas vicissitudes e dificuldades, só aspiram por governos fortes. Terreno fértil, não é? Lembra algo que já sucedeu muitas vezes no passado... E a corda na garganta começa, precisamente, na precariedade e incerteza de um posto de trabalho. Um governo que dá acredita estar legitimado para cobrar. Uma sociedade civil fraca e dependente não é garantia de prosperidade e futuro para nenhum país. É assim que um país perde a sua liberdade; é assim que um país perde a sua independência. O povo diz: «Antes fossemos espanhóis!».

quinta-feira, julho 16, 2009

Vale a pena lembrar - Gripe A

Enquanto navegava por outros blogs encontrei esta referência importante - e tão óbvia que é incompreensível que o ministério da saúde ainda não tenha dito nada acerca disto -, relativa à punição prevista na lei para aqueles que, por negligência ou desinteresse, contribuirem para a propagação de doenças contagiosas. Vale sobretudo para quem continua a viajar, independentemente dos avisos do Ministério da Saúde e da Direcção Geral de Saúde relativamente aos perigos de contágio da Gripe A.

Artigo 283º (Código Penal)
Propagação de doença, alteração de análise ou de
receituário

1 - Quem:
a) Propagar doença contagiosa;
(...)
e criar deste modo perigo para a vida ou perigo grave para a integridade física de outrem é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos.
2 – Se o perigo referido no número anterior for criado por negligência, o agente é punido com pena de prisão até 5 anos.
3 – Se a conduta referida no nº 1 for praticada por negligência, o agente é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.

As agências de viagem também têm culpa no cartório. Aproveitam o alarme para baixar os preços da viagens.

segunda-feira, julho 13, 2009

O lugar da Filosofia - eternidade, validade, utilidade


Actualmente, é patente que a filosofia se debate para assumir um espaço próprio, pelo reconhecimento da sua validade e utilidade num mundo em mudança, dominado pelas ciências e pela técnica. Deixou de ser a procura de um arqué natural, ou uma ciência do ser enquanto ser. A ciência assumiu-se como tribunal último da natureza, das suas causas, leis e comportamentos. Os métodos plenamente empíricos, a experimentação e a possibilidade de verificação dos fenómenos através da observação e da manipulação em meios controlados, assumiram por fim um patamar de validade quase inexpugnável. As questões que eram, em tempos, eminentemente filosóficas, encontraram respostas na ciência e nos seus métodos. A epistemologia, ou seja, a questão essencial de saber como é possível conhecer, ou de onde provém afinal o conhecimento verdadeiro - questão que ocupou os filósofos durante séculos e séculos e que originou dicotomias clássicas como idealismo/realismo, ou racionalismo/empirismo – parece hoje não fazer grande sentido. Ou terá, por outro lado, assumido outra forma, outra abordagem? Um dia, talvez daqui a 2 ou 3 séculos, um historiador da filosofia olhará para trás no tempo e dirá que as mesmas dicotomias, os mesmos problemas filosóficos, estiveram sempre presentes, ainda que camuflados em diferentes conceitos, diferentes abordagens metodológicas, diferentes roupagens conceptuais. É bem possível que tal venha a suceder! Não sabemos. Curiosamente, a ciência é o culminar de toda a especulação epistemológica, de Platão a Kant, do Idealismo das formas puras, ao realismo de um Aristóteles; do cepticismo radical de um Descartes, ao cepticismo falibilista de um Hume; das guerras civis entre empiristas e racionalistas, à conciliação de ambos com um Kant. Porém, parece óbvio que a matemática faz ciência. Desde Pitágoras que se acredita que a matemática é a expressão do mundo e das suas leis, e que só através dela poderão os fenómenos ser compreendidos. Por um lado, ela está verdadeiramente no mundo, ou seja, ela expressa um realismo. Por outro lado, a matemática resulta da conceptualização da mente, das abstracções desta em relação ao mundo e a sua contingência. Esta conceptualização gerada pela mente numa teia de relações (inatas ou adquiridas é uma questão já muito discutida) verdadeiramente é capaz de explicar o mundo exterior e as suas leis, expressando desta forma um idealismo. Seja como for, isto possibilita ao físico teórico estar sentado no seu escritório a escrevinhar fórmulas que conseguem, em última análise, expressar o comportamento de uma galáxia, de um quasar, ou até especular acerca de novos corpos celestes desconhecidos. E porque é que a ciência e os cientistas não dedicam as suas vidas a esta discussão epistemológica? Porque, aparentemente, o importante é que tais métodos funcionam. Enquanto for possível, com os mesmos métodos, colocar homens na lua, ou corroborar hipóteses científicas, então tais métodos são válidos. Enquanto for possível, obviamente, porque, à semelhança desse falibilismo humeano de que já falei, no dia em que determinado método não funcionar, uma de duas coisas terão sucedido: ou o método falhou, ou falhou a teoria. No dia em que a física newtoniana falhou na compreensão do Universo e na análise dos fenómenos físicos, em primeiro lugar colocou-se em causa o Universo, e depois de repetidas incompatibilidades com as novas descobertas, foi necessário inventar uma nova física, menos absoluta, menos dogmática, mais relativista. Essa mesma física tornou possível explicar novos fenómenos, enquanto esses mesmos fenómenos tornaram também possível corroborar essa nova física. É o caso do eclipse solar que provou que a teoria da relatividade de Einstein estava correcta, anos depois desta ter sido enunciada. É por funcionar, ou por ser útil que a ciência se autonomizou verdadeiramente das outras áreas do pensamento. Contudo, esta autonomia não é ilimitada. A ciência tem os seus métodos e o seu caminho próprio, porém, no limite, vê-se confrontada com questões para as quais não tem resposta, nomeadamente no que concerne às fronteiras éticas. A Biologia deve seguir o seu caminho, mas no seu caminhar deve fazer uso de todos os meios para atingir os seus fins? Será ético fazer experiências em chimpanzés, ou até em seres humanos, para salvar o resto da humanidade?
Será ético conduzir experiências físicas de colisão de partículas, mesmo sabendo que, algures no futuro, certos governos farão uso dos resultados obtidos para construir armas de destruição maciça? E é então que, perante estes novos problemas, os mesmos conceitos, as mesmas questões filosóficas do passado fazem todo o sentido. De onde deriva a legitimidade moral ou ética? Onde radica a dignidade do ser humano? Será da alma, ou da sua consciência peculiar? Virá de Deus, ou de algo diferente que nos coloca um grau acima do resto da criação? Deve a ética basear-se numa espécie de direito natural (realismo), ou num direito baseado na nossa autonomia moral, ou racional (lá está o racionalismo a espreitar)? E, se assim é, como podemos nós conhecer e encontrar uma legitimidade quase «científica» para a dignidade humana, para a ética? Será a dignidade uma espécie de transcendental à semelhança do Sumo Bem, do Belo, da Verdade? É aqui que a filosofia reencontra o seu lugar ao sol, pois a ciência, só por si, não tem meios de provar, verificar ou elaborar teorias pragmáticas e empíricas acerca destas questões. Será mesmo assim? E se amanhã a ciência provar (e a ciência acredita estar muito perto disto) que afinal somos mesmo animais, e que os 2 por cento que nos separam do genoma do chimpanzé não garantem nenhuma superioridade moral? Cairá a ética por terra? Teremos o direito e a legitimidade necessária para usarmos os humanos como cobaias, ou para atropelarmos a dignidade humana em prol das multidões? Não me parece. Ainda que a ciência prove que não somos diferentes das formigas, estes problemas nunca desaparecerão, simplesmente porque, para sermos humanos, necessitamos de regras e de códigos para viver em sociedade, e nunca será aceitável, por parte da maioria da humanidade, um estado de «sobrevivência do mais forte», ou de «regresso à cegueira das leis naturais». A confiança no próximo e nas instituições são condição sine qua non para a estabilidade e para a coesão social. Parece-me, sinceramente, que o imperativo categórico kantiano ainda não perdeu o seu valor. E a razão é, ironicamente, bastante simples - ele funciona.

segunda-feira, junho 29, 2009

Blog muda de nome para estar mais de acordo com a realidade - Cenáculo do (pseudo) Filósofo



Tendo recebido inúmeros feedbacks de que o nome do meu blog é pretensioso, e tendo também em conta que já perdi uma certa ingenuidade infantil passados quatro anos, decidi alterar-lhe o nome. A partir de agora chamar-se-á Cenáculo de um (pseudo) filósofo. Espero com esta alteração ser levado mais a sério, embora exista também a possibilidade contrária...

Quanto mais aprendo, quanto mais penso, quanto mais vivo, mais me apercebo da dúvida e do quanto eu não sei. A bem dizer, não sei absolutamente nada de nada. Cada vez tenho mais consciência do quanto me mantenho à superfície, em vez de cumprir com o conselho do meu professor de filosofia do 10º ano de «mergulhar no mar do conhecimento, em detrimento da calma da praia, ainda que nos afoguemos na dúvida...)

Acreditava eu que existiam pensadores acabados, diplomados e absolutamente sábios. Não podia estar mais enganado! Somos antes de mais aspirantes a qualquer coisa, eternos estudantes, eternas crianças esbracejando e brincando com pedaços de lego e carros de corrida...

domingo, junho 28, 2009

Heal The World

Deixo aqui duas das canções de Michael Jackson que considero mais extraordinárias, e que, em última análise, mais nos podem ensinar, assim como às futuras gerações.

Os ícones, na verdade, nunca morrem.



quinta-feira, junho 25, 2009

PSD em coma - parte II



É cada vez mais óbvia a desorientação ideológica do PSD. A entrevista de hoje com Manuela Ferreira Leite acentuou a sensação que eu já tinha de falta de ideias, de rumos e sentido. Ferreira Leite não conseguiu, em nenhum momento da entrevista, ser objectiva e concreta. Não concretizou ideias, não apresentou soluções, limitando-se a afirmar que existem «outras fórmulas para agir», ou «que o caminho é errado», aliás como vem fazendo desde sempre. Quando foi questionada se estaria ou não de acordo com a nacionalização do BPN, o silêncio que sucedeu a sua meia-resposta foi constrangedor, e soou a incompleto. Se eu fosse a entrevistadora perguntaria objectivamente «que soluções? Que alternativas? O que faria de forma diferente se de facto fosse governo?» Já não falo dos «TVG´s», porque afinal a senhora estava bastante nervosa e todos erramos sob pressão (ou quase todos). A sensação que dá é a de que a líder do PSD vai tendo umas ideias avulsas, umas noções disto e daquilo, mas nada de verdadeiramente consistente que se possa dizer que constitua um projecto, ou um plano de acção para a governação de um país. Fica a sensação de que a oposição (ou a tentativa de oposição) posta em prática pelo PSD é levada a cabo quase como uma obrigação pela estatuto de «maior partido da oposição». Não basta de todo enunciar o perigo do endividamento crescente, ou a necessidade de se reformular a política de obras públicas, por mais bem intencionados e pertinentes que sejam tais enunciados. Fica sempre o vazio da alternativa. Soa sempre a forçado e a falso. O PSD de hoje é uma sombra fugaz do que foi com Sá Carneiro ou com Cavaco, e não vale a pena vir com o argumento de que «ganhámos as europeias!». Não sei verdadeiramente se foi o PSD que ganhou as europeias, ou se foi o PS que as perdeu, ou até se foi a abstenção a grande vencedora. A tal muito reverberada «politica de verdade» tem de ter conteúdo, e não apenas forma. Não basta adjectivar de «escandaloso», «inaceitável», «impensável», é preciso apresentar objectivamente aquilo que será o contrário do escandaloso, o realmente aceitável, e o pensável.

É preciso poder de decisão e de inovação. O PSD não pode apresentar-se como uma partido de paliativos, ou de caminhos batidos. A vocação original de um PSD é a de partido reformador e progressista, voltado para a liberdade económica conduzida em paralelo com o progresso social nas vertentes económica, cultural, educativa, humana e social. O homem é o «princípio e a meta», não o meio. Foi o próprio fundador do partido que o disse, não eu.

O partido deve definir-se, perante si mesmo e perante os eleitores. Que ideias tem para a educação, para a saúde, para economia, para a superação da crise financeira. Contudo, a seguir a uma crítica, tem de vir a medida alternativa, e a seguir à medida alternativa tem de vir a explicação fundamentada para a aplicação dessa medida. Se se disser apenas que se pretende, por exemplo, privatizar um determinado sector da economia, é útil explicar as causas e os efeitos, e sobretudo o contexto em que se insere tal privatização, com o prejuízo de, caso não exista esse esforço pedagógico, a medida soe demasiado «ideológica» e não seja verdadeiramente fértil e acessível ao entendimento dos mais diversos sectores da sociedade. É assim que se fazem reformas, com pedagogia (sem esquecer obviamente a humildade).

E muito gostaria de deixar aqui algumas ideias minhas para a governação de um país sob a égide de um governo social-democrata, mas ficará para uma próxima.

terça-feira, junho 23, 2009

Fé na Razão




Não, não estou a parafrasear o adagio de Santo Agostinho “creio para compreender e compreendo para crer melhor”. Não me refiro aqui à Fé num sentido estritamente religioso, nem à Razão como modo de justificar a Fé.

A Razão tem muitos nomes, muitos meios de ser entendida e abordada. Desde os primórdios gregos do pensamento ocidental que ela existe como contraponto ao irracional, ou noutras palavras ao mitológico. Ou seja, nesses séculos que precederam Sócrates, é posta em prática uma atitude racional intimamente associada ao natural, à explicação e à especulação expurgada de causas divinas ou da ordem do sobrenatural. Pelo menos é o modo como nós interpretamos, embora Tales de Mileto, um dos sete sábios da Grécia e o primeiro dos filósofos especulativos tenha escrito algo do género Tudo está cheio de deuses. Sem esquecer, obviamente, a sua afirmação peregrina de que a água era o elemento primordial. Contudo, esta dicotomia entre mito/razão que tantas vezes invocamos não é tão linear e distinta como gostariamos, ou como se pretende impôr. A partir de Sócrates surge uma outra abordagem (surge ou tem continuidade em diferente grau?) racional, sempre especulativa mas muito mais voltada para a Ética, a Estética, a Moral. O evento Sócrates (quem diz Sócrates diz, em última análise, Platão) marca o nascimento do pensamento conceptual, desmaterializado, descarnado, puro. Obviamente que este tipo de pensamento descarnado, associado à virtuosidade e à justiça, sempre existiu, embora num plano divino e mitológico fundacional que o justificava só por si mesmo. Contudo, embora o pensamento natural tenha estado sempre presente, urge para este novo tipo de pensamento justificar também especulativamente aquilo que possibilita ao homem ser justo, viver uma «vida boa», ser bom cidadão. Ora, o mero estudo do natural e a busca pela physis não determina como deve viver o homem, não lhe dá regras nem orientações para ser feliz. A razão é, neste caso particular, a exploração daquilo que é meta-natural, ou numa palavra mais consensual, metafísico. O curioso, e é disto que se apercebe Platão (digo eu...) é que a razão tem uma espécie de capacidade autónoma para gerar a sua própria matéria prima de pensamento. A razão não pensa no vazio, ela elabora conceitos com os quais joga para formar ideias, raciocínios. Aquilo que terá despertado Platão para a luz no exterior da sua caverna talvez tenha sido a própria matemática. Platão viajou muito antes de ser o grande filósofo dramaturgo, díscipulo fidelissimo do seu mestre Sócrates. Nas suas viagens, Platão conheceu de perto a mitologia egípcia, bem como a hindu, e o que o terá impressionado em grande medida terá sido o modo como os egípcios utilizavam a matemática para contruir templos, noutras palavras, para criar o real. É óbvio que a tradição pitagórica já havia influenciado enormemente o pensamento de Platão, bem como a noção de que a matemática é o modo mais profundo de compreender a natureza e as leis que a regem. Portanto, se o mundo é matemática, como é possível que a Razão humana, por si só, gere os conceitos e a matemática possível para entender a própria natureza, exterior à Razão? O que há na razão de tão íntimo com a natureza última do Universo? É em grande medida esta dúvida circunstancial, nascida da prática matemática, que dá origem à teoria do conhecimento de Platão, e abre caminho sem dúvida a toda a especulação epistemológica que se lhe seguiu até aos dias de hoje. Conhecer é recordar, é uma anamnese daquilo que a razão já conhece pois antes de existir já existia num mundo superior, de essências, anterior e transcendente ao mundo do visível, dos sentidos, que lhe é inferior. Apenas um reflexo torpe e de aparências desse mundo que o transcende. De notar a influência do pensamento hindu, da ideia do Véu de Maya e da aparência do mundo, no pensamento de Platão. Viria a ser Aristóteles, durante muito tempo discípulo de Platão, que viria a provocar a tensão filosófica necessária para projectar a especulação filósofica em direcção aos séculos dos séculos. Se Platão era um Idealista, um crente nas formas puras, nas ideias e na superioridade de um mundo metafísico em relação ao sensível que, em boa verdade, nem sequer tinha consistência ontológica própria (não existia independentemente de outra substância), Aristóteles era em grande medida um Realista. Embora não descurasse a importância da Razão (é a Aristóteles que devemos a definição do homem como animal racional) este pensador era, antes de mais, um naturólogo. Era um adepto da experimentação, pelo que são vários os seus escritos sobre anatomia, botânica, zoologia. Ao contrário de Platão que só consideraria dignos de estudo as formas puras, através da geometria e da matemática, Aristóteles considerava que também os objectos da natureza eram dignos de análise e compreensão. Na verdade, não acreditava que existissem formas puras, ou noutras palavras, essências sem o correspondente concreto na natureza. Aliás, as ditas essências não eram na verdade transcendentes aos objectos, mas imanentes a eles. Uma casa não era um correspondente participante da casa ideal que existe no mundo das ideias, mas faz parte de uma espécie ou género a que se chama casa. E a consistência ontológica da casa não emana de um mundo supra-sensível, mas da própria definição. São os objectos individuais que dão origem à definição, à substância. Noutras palavras, é mais importante a substância individual (um homem por ex.), do que a substância humanidade, que corresponde a um género, e os géneros são substância em segundo grau. Para Platão não seria assim. A Humanidade como substância é a única verdadeiramente válidade e verdadeira, é na verdade da Ideia de Homem que todos os homens individuais vão beber a sua própria consistência ontológica, a sua existência, através da participação.

Contudo, não é dos conteúdos das teorias que estamos a falar, mas da razão e das várias formas que assumiu ao longo dos séculos.

O pensamento medieval é herdeiro, em grande medida, desta tensão entre Platão e Aristóteles. Obviamente, a Fé e não se colocava em causa, nem a Biblia como fonte de verdade. O objectivo do pensamento medieval foi o de adaptar o pensamento grego aos trâmites da religião, justificá-la e dar-lhe uma consistência racional que efectivasse o domínio do pensamento cristão sobre o pagão. A razão especulativa que estava na base do pensamento medieval era a de uma metafísica da Fé, arredada de naturalismos, com a excepção talvez de um Occam, ou de um Nicolau de Cusa que tentaram nadar contra a corrente dominante.

A partir do séc. XV, com o evento do renascimento, da imprensa, dos descobrimentos, há um renascimento, ou seja, perante uma nova abertura, uma nova liberdade de pensamento e um acesso mais alargado aos escritos greco-romanos, o pensamento assume uma nova forma a vários níveis. Voltou-se a dar valor ao pensamento natural, à matemática, à reflexão empírica. Apareceu um Galileu, um Da Vinci, e no séc. XVII um Newton, um Kepler, um Leibniz, um Descartes. Deu-se a Reforma da Igreja com Lutero, com Calvino, com a heresia de um Henrique VIII e a reforma anglicana. Deu-se a feroz resposta de uma Igreja ameaçada – a Inquisição. Foi profunda e vasta a revolução, quase que se poderia dizer que a revolução foi coperniciana, fazendo jus a Copérnico e à importância fundamental, não só a nível científico, mas também social, político e humano, do acto de retirar o homem do centro a atirá-lo para a periferia de um sistema em que o sol era o rei. Que tipo de razão surge nestes séculos? Podemos falar já em razão científica, ou noutras palavras, numa razão metódica e empírica. O pensamento metafísico sempre lá esteve, e podemos inclusive afirmar que Descartes inaugurou esta nova forma de pensamento. Descartes, com a sua dúvida metódica refundou os alicerces do pensamento, procurando em certa medida conjugar a metafísica com a ciência, tornando-a ela mesma (a metafísica) numa ciência. Se por um lado procurou encontrar um método infalível para as ciências, por outro, procurou também provar que a metafísica se basta a si mesma, e que a verdade fundacional (dúvidamos, pensamos, logo existimos) não precisa de dados sensíveis ou exteriores ao pensamento para ser atingida. Determinou também (e aqui parece haver uma espécie de conciliação milenar entre conceptualizações) o mundo extenso e o mundo das ideias (no caso de Descartes falamos em coisa pensante [res cogitans] constituida por ideias inatas) não precisam um do outro para terem consistência ontológica. São substâncias autónomas e independentes.

A razão metódica passa também pela invenção do método experimental nas ciências. Durante muito tempo as posições extremaram-se. Alguns, adeptos incondicionais das ciências e do empirismo, negaram qualquer possibilidade de conhecimento inato proveniente da razão (Locke, Hume). Descartes, por outro lado, era um verdadeiro racionalista, crente no poder da Razão para conhecer a abstrair do real a verdade do mundo, sobretudo através da matemática.

Nos dias de hoje, a Razão é acima de tudo método científico. A filosofia continua a ter um papel fundamental como motor de pensamento, como escrutinador de todas as actividades humanas, seja na ciência, na política, na religião. Para tal, já Popper, afirmou que a ciência verdadeira implica que as proposições que dela emanam sejam verificáveis, falsificáveis e refutáveis. Ou seja, está na base do próprio pensamento científico e da sua fiabilidade, o facto de poder ser posto em causa. Para Popper, toda a forma de ciência que não cumpra estes requisitos é pseudo-ciência ou pior. O autor não põe em causa a metafísica em si mesma, que considera necessária e válida, mas a metafísica que pretende ser ciência. Ele afirma também que os problemas filosóficos são legítimos, e emanam em grande medida de dúvidas e problemáticas que surgem no decorrer da prática científica, religiosa, política, ética, e de tudo o que estas dimensões implicam para o progresso da sociedade humana. Contudo, tais problemas têm por vezes soluções muito simples, arredadas do processo metafisico, por vezes propostas pelo progresso da ciência. Os problemas filosóficos podem ser, em última análise, problemas cientificos, e como tal, terem uma resolução científica. Por exemplo, a questão da mente e do processo do conhecimento teve, nas últimas décadas, importantes contributos a nível da neurociência, seja com a chamada «epistemologia naturalizada» de Quine, seja com o contributo do nosso tão português António Damásio com os seus estudos acerca das emoções e dos processos cerebrais nelas envolvidos. Para tal vale a pena ler O Sentimento de Si, ou o Erro de Descartes, escritos pelo mesmo autor.

Afinal, o que é a razão? A razão parece ser a faculdade humana do julgamento, do raciocínio, e em última análise, da decisão. Nos dias de hoje, a robótica, a ciência da computação, está novamente a procurar recorrer à filosofia para entender o que é a razão, como funciona, quais os seus limites, e de que modo esta pode ser reproduzida a nível tecnológico. É a tal Inteligência Artificial. De resto, a tendência natural, ao longo dos séculos tem sido a fragmentação da filosofia em inúmeras ciências e disciplinas, bem como o quase fechamento sobre si mesma numa tentativa solipsista para se auto-compreender. Afinal, não era esta a filosofia hegeliana? O Espírito (pensamento) procurando compreender-se de forma cada vez mais elevada até à síntese final, e ao fim da história? Em última análise, todos utilizamos essas faculdade de julgamento todos os dias, sem sequer termos disso consciência. Contudo, temos também consciência da falibilidade da razão, e do modo como os erros de pensamento podem conduzir-nos ao caos e à confusão. Contudo, porque continuamos a acreditar tanto nela, ou melhor, como é possível que continuemos a ter tanta FÉ NA RAZÃO?

terça-feira, junho 16, 2009

Mais um daqueles pensamentos fulminantes que se apropriam de nós - Quem nunca desejou ser tudo o que nasceu para ser?

Porque nunca é demais pensar e reflectir (e para não se dizer que este blog perdeu a sua vocação original de espaço de pensamento) fica mais uma daquelas notas repentinas. A nobreza do desejar tudo, e querer ser tudo o que se nasceu para ser...


Não há nada mais nobre do que desejar tudo! Tudo sonhar, tudo ansiar, com a vontade profunda, calma e silenciosa daquele que sabe desejar verdadeiramente, e cujos objectos de desejo mais não são do que calmas e geométricas formas puras, sonhos e metas legítimas e gloriosas. Porque querer tudo não é o mesmo que querer todas as coisas, nem é o mesmo que querer só por querer, ou para ter, ou para parecer que se tem, ou para se preencherem vazios existenciais com o lixo nauseabundo que define a pobreza de espírito. Quem quer verdadeiramente não deseja mais do que o cumprimento da sua própria grandeza, no início só potência mas que anseia por ser acto, ou no início só essência que anseia por existir. Atingir os limites de si mesmo, contemplar-se do alto, subir ao céu que se é, e amiúde se ignora. É-se o Universo, é-se força infinita, é-se poder verdadeiro, tudo comprimido e condensado numa amálgama pensante de carne e dúvida. Nasce-se acreditando que se é pequeno, que se é frágil e impotente, e enforma-se a própria vida de acordo com o que se pensa, e sobretudo com o que se aprendeu a pensar. Pode ser-se tudo, pode sonhar-se alto, muito alto, com a glória dos deuses que não se fecha ao homens, pois que é o homem feito às suas imagens. Pode fazer-se, construir-se na pedra com alicerces graníticos, fundar-se na rocha o edifício do que se é, e terminar apenas quando este arranhar o céu para onde aponta, fálico e viril, pronto para penetrar no Infinito e gerar mundos novos, civilizações, morais, mistérios profundos, humanidades. Não é só o querer que é poder, mas também o saber, o pensar, e sobretudo o sonhar audaciosamente. O homem só se religa à divindade para nele mesmo reconhecer a divindade que em si habita. É essa a religião verdadeira, aquela que move montanhas e conduz o homem há libertação de todas as correntes que o aprisionam desde o início dos tempos. O homem só se reconhece naquilo que é, quando se deixa penetrar pela profundidade do mistério que largamente o ultrapassa, milhares de milhões de vezes o ultrapassa, mas que em última análise lhe está no sangue e se chama Alma.

segunda-feira, junho 15, 2009

4 anos e 157 publicações depois...



Pois é. O dia 13 de Junho, Sábado, teve três significados importantes. Em primeiro lugar, marcou os 121 anos do nascimento de Fernando Pessoa, um dos maiores ícones da literatura e da cultura portuguesas. Em segundo lugar, marcou mais um dia de Santo António, símbolo da fé e da portugalidade além fronteiras, pelo seu mérito de conversor e diplomata, mesmo entre os muçulmanos que também o adoram como se fosse seu. Em terceiro lugar, (não menos importante) marcou os 4 anos deste meu espaço. 4 anos e 157 postagens depois, é grande a diferença a nível de forma, conteúdos e maturidade em relação a 2005.

Agradeço a todos os que acompanharam este blog desde o início, sem esquecer obviamente os que o descobriram mais tarde e que dele se tornaram fiéis leitores e seguidores.

O meu sincero obrigado.

Ruben Azevedo

quinta-feira, junho 11, 2009

10 de Junho - (nas palavras de alguns dia do trabalhador!) - O Império das 27 maravilhas


Ontem, dia de Portugal, de Camões, e das comunidades portuguesas, foram divulgadas as 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo. A votação decorreu de 7 de Dezembro de 2008, a 7 de Junho de 2009. Não se sabe se abstenção foi grande ou pequena, mas aventuro-me a especular que terá sido bem mais significativa que a das europeias. Se existe quem não saiba sequer o significado do 10 de Junho (durante uma entrevista na rua alguém respondeu que era o dia do trabalhador!), é normal que haja quem não tenha qualquer tipo de interesse no património ou na história de Portugal. Para muitos, o 10 de Junho é mais um excelente feriado para passar o dia no shopping, ou (se o tempo ajudar) na praia.

Contudo, esta iniciativa das 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo teve o condão de mostrar o quanto fomos, a certa altura da nossa história, ubíquos e influentes em toda a parte. Tivemos a hegemonia dos mares e do comércio durante 150 a 200 anos, mas acabámos por ser ultrapassados e a até certo ponto subjugados por outras potências europeias com maior potencial bélico e humano, nomeadamente pelos ingleses e pelos espanhóis. Mas o que é admirável no meio disto tudo é o facto de sermos, na época, menos de 3 milhões de portugueses, e de termos sido a primeira potência mundial a lançar as bases de um império, e a última a perdê-lo. Com isto não quero expressar nenhum tipo de saudosismo nacionalista ou passadista. É apenas pura curiosidade intelectual. O império nasceu com a tomada de Ceuta em 1415, e terminou, 587 anos depois, com a independência de Timor Leste em 2002. Quantos portugueses sabem isto? É óbvio que uma visão demasiado romântica sobre os descobrimentos esconde outras realidades menos românticas. Também pilhámos, subjugámos pela força, convertemos com a bíblia numa mão, e o chicote na outra. No entanto, fomos talvez dos menos maus entre os maus. Não foi nunca nosso hábito o extermínio e a chacina, e sempre fomos mais adeptos do diálogo do que da imposição cega. Tivemos um Padre António Vieira, símbolo da diplomacia e da defesa dos oprimidos, que sempre cultivou uma atitude de tolerância e pedagogia perante os ditos «selvagens» do Brasil. E Vieira é apenas um exemplo possível.

De todos os locais do mundo onde estivemos e onde deixámos marcas, tanto físicas como a nível dos hábitos e costumes, admirou-me a fortaleza de Ormuz, no Irão, em pleno estreito de Ormuz. Hoje fala-se muito no estreito de Ormuz, em parte por ser um ponto estratégico por onde passam diariamente toneladas e toneladas de barris de petróleo, e por ser um ponto quente de discórdias latentes entre as grandes potências e o Irão. Pois é. Nós fomos os primeiros europeus a lá chegar e a controlar, a partir de lá, as rotas marítimas entre a Ásia Central e a Europa. Tive pena que não fosse esta uma das 7 maravilhas escolhidas, não tanto pelo aspecto estético da fortaleza, mas por aquilo que ela representa.

As 27 maravilhas portuguesas, espalhadas por 16 países, são as seguintes:

Centro Histórico de Malaca
Sé Catedral de Goa
Convento de St. António e Ordem Terceira
Fortaleza de Mazagão
Ilha de Moçambique
Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro
Fortaleza de Kilwa (Quíloa)
Forte do Príncipe da Beira
Convento de São Francisco e Ordem terceira
Convento do Carmo de Luanda
Cidade Velha de Santiago
Gorgora Nova
Mosteiro de São Bento de Olinda
Igreja de São Francisco de Assis da Penitência
Santuário do Bom Jesus de Matosinhos
Fortaleza de Safi
Colónia do Sacramento
Fortaleza Qal’at al Bahrain
Igreja de São Paulo
Igreja do Bom Jesus de Goa
Fortaleza do Bom Jesus de Mombaça
Cidade de Baçaim
Fortaleza de Damão Grande
Fortaleza de Diu
Fortaleza de Ormuz
Fortificação de Mascate
Fortaleza de São Jorge da Mina

Para mais infomações e para conhecerem também os vencedores, não hesitem em clicar aqui

segunda-feira, junho 08, 2009

Vitória a saber a social-democracia



A vitória do PSD era tudo menos previsível, sobretudo naquela dimensão e contra a maioria das sondagens. É óbvio que estas eleições capitalizaram todo o descontentamento contra o governo e a sofreguidão de quatro anos de reformas duras, anti-corporativas, pouco concertadas e, quase todas elas, inacabadas. Nunca um governo teve um desgaste tão grande em quatro anos! Parece que Sócrates já está no governo há 8 anos, parecem ter já passado dois mandatos consecutivos, tal é o desgaste que a sua imagem tem levado perante a contestação social, dos professores, dos agricultores, das polícias. A imprensa tem também a sua quota de responsabilidade no cartório, empolando, reavivando, trazendo a lume suspeições, freeportes, casas da beira, licenciaturas mal amanhadas ao domingo, primos amantes de kung fu. É caso para dizer que a imprensa livre não dá descanso ao primeiro-ministro! Por um lado, é esse o papel da imprensa independente numa democracia saudável. Por outro, é preciso ser de aço para resistir às investidas e a um escrutínio tão rigoroso.

Um percentagem de 63 por cento de abstenção é só por si uma vergonha, e não abona em nada a mudança que se pretende para Portugal. Contudo, daqui é possível fazer uma análise para as legislativas. Se tivermos em conta que em relação à esquerda e ao seu eleitorado tradicional, pouca ou nenhuma abstenção existe (e com esquerda quero significar desde a CDU ao PS, passando pelo BE), seja pelo facto das suas máquinas partidárias serem melhor oleadas, ou de haver um certo sentido de dever e militarismo que não existe no centro, ou mais à direita, é bem possível que, a existir uma menor abstenção - como é de esperar - nas legislativas, o PSD e o CDS poderão não só manter, como subir nas intenções de voto, o que já torna o cenário da vitória do PSD nas legislativas possível, ainda que sem maioria absoluta. Será, quase certamente, a reedição da coligação PSD/CDS de há alguns anos. Será mau? Será pelo menos preferível ao caos de uma vitória minoritária do PS. O PS está sozinho, não tem aliados nem parceiros a quem recorrer. Nem o BE nem a CDU se querem deixar contaminar com uma possível parceria pós-eleitoral com o PS. São demasiado diferentes, e exigiria de Sócrates uma viragem de leme que se advinha radical. Seria coligação de pouca dura. Com o CDS? Nos tempos de Soares e Freitas do Amaral, não deu resultado. Daria agora? Com o PSD? Bloco Central? Talvez fosse mais plausível, sobretudo em pontos chave como a justiça, mas também me parece uma parceria difícil, talvez condenada à partida. Uns querem obras públicas, outros não. Estilos diferentes, práticas diferentes, mundos diferentes. Sócrates não está habituado a partilhar, não é o seu estilo. Provavelmente, perante uma minoria ou a necessidade de acordos vastos, eu até acreditaria que Sócrates apresentasse a demissão. Num país como o nosso em que a oposição, salvo raras excepções, é irresponsável e conflituosa, dificilmente um governo minoritário sobrevive. E do que o país precisa é de estabilidade e de um governo capaz de levar a cabo reformas até ao fim. Isto é muito importante: até ao fim. Precisamos de mais serenidade, de responsabilidade e coragem. Precisamos de aprender a ter objectivos comuns, e todos os intervenientes a nível nacional, desde a imprensa (pública ou privada), às empresas, às instituições, à própria sociedade civil, têm de aprender a cooperar e a remar para o mesmo lado, em vez de cada um puxar a brasa para a sua sardinha numa conflitualidade sem fim.

domingo, junho 07, 2009

Notas sobre o dia de hoje



Já cumpri o meu dever de eleitor. Eram 10 horas estava na Maia para votar, e fiquei agradavelmente surpreendido ao ver a quantidade de gente que ia e vinha das mesas de voto. Contudo, achei que os boletins de voto estavam demasiado simplistas. Referem apenas e unicamente os partidos envolvidos na cena eleitoral, sem referir os cabeças de lista a deputados. Infelizmente, grande parte das pessoas, sobretudo as menos informadas, as mais idosas ou até as mais novas, não associam as personalidades aos partidos que as representam. Outras, votam no partido como se de um clube do coração se tratasse. Votam no PS, ou no PSD tão naturalmente como ir à missa, e pura e simplesmente porque sempre o fizeram, como um ritual de longa data. Isto desresponsabiliza as personalidades e esvazia o voto de sentido. O boletim deveria referir, em primeiro lugar, o nome do cabeça de lista, e em segundo lugar, o partido que lhe serve de base de apoio. Claro que por uma questão de facilitismo (deve ser para poupar papel) colocam-se só os partidos. Pode ser que os mesmos boletins sirvam também para as legislativas. Escusa-se imprimir novos boletins a cada eleição... porém, isto é errado. Cada eleição é uma eleição, e cada homem ou mulher é diferente, embora reflictam nas suas acções, até certo ponto, a ideologia do partido onde estão inseridos. A democracia tem de ser mais activa e informada, e não apenas um ritual processional de 4 em 4 anos. Quanto à abstenção, que não considero augurar nada de bom, já enviei sms a quase toda a gente a apelar ao voto. E não me venham dizer que democracia é também escolher não votar, porque a história está cheia de gente que morreu, se sacrificou, foi torturada em nome desse direito simples de colocar a cruz no boletim, e o boletim na urna. Remeto esta minha chamada de atenção sobretudo às mulheres...

Quanto à fantástica sondagem que teve lugar neste blog, é curioso verificar que dos 34 votantes, 11 votaram no Miguel Portas (o vencedor), e o pretenso favorito a nível nacional, o sr Vital, teve apenas 1 voto... a verdade é que também não conheço bem a amostragem, nem sei se será suficientemente significativa em termos de espectro partidário, mas se estes resultados se reflectirem também a nível nacional... Desde já agradeço a todos os que votaram, fazendo votos para que passem a ser visitantes assíduos deste meu espaço.

Em última análise, acredito que ser político é das formas mais nobres de se ser intelectual. Aqueles que dizem que ser a-político é que é intelectual e digno de uma alma que não se quer conspurcar e prefere manter-se na sua torre de marfim, estão bastante equivocados. Mas também para esses, envio o meu abraço sincero. Sou marxista, mas apenas num e só num ponto: já há muito quem interprete o mundo (e deixem-me que diga que muitos o fazem, ou fizeram, mal); o que é preciso é mudá-lo.

sexta-feira, junho 05, 2009

Faltam 24 horas para terminar a sondagem. Se ainda não votou, vote!

Uma sondagem publicada no JN de hoje dá a vitória ao PS com 34 por cento dos votos, seguido do PSD com 32%, a CDU com 11%, o BE com 10%, o CDS com 4%, e os restantes votos polvilhados pelos partidos mais pequenos, dos quais o MEP é a maior revelação com 2% dos votos.

terça-feira, maio 26, 2009

Que vão afinal fazer os eleitos para o PE? Que poderes? - FAQ´S



O PE pode decidir sobre todas as matérias ?
As decisões aprovadas pelo PE carecem de aprovação por outro organismo ?
O PE ausculta outros órgãos antes de tomar decisões ?
O PE intervém na PESC (Política Externa e de Segurança Comum) ?
E o PE participa na UEM (União Económica e Monetária)?
E o PE participa também nas áreas do terceiro pilar (Justiça e Assuntos Internos) ?
O PE tem muitos poderes ?


Legitimado pelo sufrágio universal directo, o Parlamento Europeu, eleito de cinco em cinco anos, foi obtendo, através da reforma dos Tratados, uma maior influência e poderes cada vez mais alargados. Esses Tratados, nomeadamente os de Maastricht de 1992 e de Amesterdão de 1997, transformaram o Parlamento Europeu, de uma assembleia meramente consultiva numa assembleia legislativa com poderes comparáveis aos dos parlamentos nacionais, mas à escala europeia.

Como todos os parlamentos, o Parlamento Europeu exerce três poderes fundamentais:

o poder legislativo: Participa por diversas formas no processo comunitário de decisão em conjunto com o Conselho, nomeadamente no processo de "co-decisão"

o poder de controlo de executivo: quer ao nível da constituição e da destituição. A Comissão é politicamente responsável perante o Parlamento que pode, mediante a aprovação de uma moção de censura, forçá-la a demitir-se. Dispõe ainda de um controlo democrático sobre o conjunto da actividade comunitária, estendendo-se às restantes instituições.

o poder orçamental:(que foi a primeira competência atribuída ao Parlamento Europeu) quer na elaboração do Orçamento, quer no controlo da sua execução;

O poder legislativo:

O processo legislativo comunitário é singular: A iniciativa legislativa pertence, em exclusivo à Comissão e o processo de decisão final incumbe ao Conselho. O PE participa no processo legislativo, de acordo com a Base Jurídica de cada decisão através dos seguintes processos:

a) consulta - a Comissão apresenta a proposta e envia-a para o Parlamento e para o Conselho. Este, para decidir tem de obter o parecer do Parlamento, que não sendo vinculativo, constitui uma formalidade essencial para o processo.

b) parecer favorável - a Comissão envia a proposta para o Parlamento e para o Conselho, este só pode decidir, se houver um parecer de concordância por parte do Parlamento. Se não houver , o Conselho tem de decidir por unanimidade para poder aprová-la.

c) co-decisão - a Comissão envia a proposta para o Parlamento e para o Conselho. O Parlamento faz a 1ª leitura , se concorda, envia para o Conselho e este pode aprová-lo , senão envia-a para o Conselho, para que analise a posição do Parlamento. Faz os seus comentários e devolve-a ao Parlamento para proceder à 2ª leitura. O Parlamento continuando a discordar, envia-a para o Conselho. Este discorda e cria-se novamente o Comité de Conciliação. Se este não consegue chegar a acordo, abandona-se o acto, se consegue um acordo envia-a para o Conselho para aprovação.

Para saber mais clique aqui

Retirado do site do deputado europeu Carlos Coelho do PSD

Para votar na sondagem do lado esquerdo é só escolher um candidato e clicar onde diz Votar

Vá lá, faltam só seis dias!

Obrigado

sábado, maio 23, 2009

Dia 7 de Junho quem quer ir para Bruxelas?



Aproxima-se a passos largos o dia das eleições europeias, o dia em que serão eleitos os nosso representantes no parlamento europeu. Para muita gente (inclusive para mim) estas eleições têm muito pouco interesse e significado, num contexto em que o parlamento europeu, como órgão de soberania europeia, tem na verdade muito pouco poder. Tal não significa, porém, que nos devamos desinteressar completamente.

Os candidatos mais mediáticos são Vital Moreira (PS), Nuno Melo (CDS), Miguel Portas (BE), Idalina Figueiredo (PCP), e Paulo Rangel (PSD). Contudo, existem pelo menos mais 8 candidatos. A lista é a seguinte:

Movimento Esperança Portugal (Laurinda Alves)

Movimento Mérito e Sociedade (Carlos Gomes)

PNR (Humberto Nuno de Oliveira)

PCTP-MRPP (Orlando Alves)

POUS

Partido Humanista (Luís Guerra)

MPT-Movimento Partido da Terra (Pedro Quartin Graça)

PPM (Frederico Duarte Carvalho)

A intenção de realizar um debate entre os 13 candidatos na RTP foi muito boa, porque numa democracia ideal todos os intervenientes, independentemente das máquinas publicitárias ou partidárias que os antecedem, têm o direito de apresentar as suas propostas num plano de igualdade, sejam pequenos ou grandes, mais mediáticos ou menos mediáticos. Contudo, ficou bem patente durante o debate que, na prática, nem todos têm o mesmo direito de antena. Alguns candidatos, como por exemplo o Luís Filipe Guerra do PH, foi quase despachado e pouco pode dizer. É pena, porque conheço o Luís e as ideias do Partido Humanista, e acho que merecia ser ouvido com mais atenção.

Acho que estas eleições podem ser uma boa oportunidade para mudarmos o panorama político nacional. São a antecâmara de umas legislativas, e podem bem ser o princípio de uma nova era da política em Portugal. Precisamos urgentemente de renovação, juventude e esperança, mas tal só é possível se não nos abstivermos e dermos voz a quem ainda não tem grande voz. Proponho que em vez de nos abstermos, saibamos atribuir um voto útil aos pequenos partidos que estão a crescer. Falo do MEP, do MMS, e de outras pequenas forças políticas como o PH. Com um panorama político mais amplo e diversificado, certamente que a política em Portugal ficará mais enriquecida, mais fértil em ideias e propostas, e até em intervenientes. Escusado será dizer que a variedade também potencia um maior número de escolhas, e uma melhor e maior competição entre as diversas forças.

Eu não me vou abster certamente, nem acho que a abstenção seja uma boa opção para nenhum de nós. Se não quisermos escolher, então certamente que outros escolherão por nós.

quarta-feira, maio 13, 2009

Carácter, Símbolos e Felicidade



Um homem tem de crescer mais tarde ou mais cedo. Um homem tem de aprender a afirmar-se, a não se deixar abater pela ignorância e pelo desprezo de quem lhe é muitas vezes alheio e inferior. Tem de ter personalidade, não no sentido de persona (personagem), mas no sentido de uma individuação caracterizada por uma componente de espontaneidade, e outra de responsabilidade e sentido crítico. A isso se chama ter carácter. Um homem com carácter é um homem com espinha dorsal, o oposto da ideia de serpente frequentemente associada ao mal e ao homem sem carácter, precisamente por ser um animal rastejante (logo inferior) e imprevisível no seu serpentear (embora tenha também uma espinha dorsal, apesar de muito mais flexivel). Talvez a maldição que Deus lançou sobre a serpente, a de comer pó e rastejar como ser maldito até ao fim dos tempos, surja precisamente da ideia de que o hábito de rastejar, ou seja, de ser inferior e imprevísivel em termos morais, se torna num puro vício que em nada dignifica a Humanidade e, antes de mais, está na raiz da perdição. É a perversão da centelha divina que ilumina o coração de cada homem, ela mesma símbolo e porta de Deus no mundo. Esta dualidade biblíca, religiosa, e com raízes profundas que derivam dos primórdios da civilização, assenta na noção do conflito sempre presente entre o bem e o mal, uma tensão jamais ultrapassada, um combate permanente no coração de cada homem. Apesar de moldado à imagem do seu Deus, basta uma simples tentação para atirar por terra a face divina do homem e condená-lo para sempre. Cada homem é um campo de batalha, um armagedão entre as forças da luz e as das trevas; cada homem vive o seu próprio juizo final sempre que olha para trás e se confronta com os monstros que ele próprio alimentou conscientemente; cada homem vive o seu pecado original sempre que surje o momento da decisão e, ao invés de fazer jus à divindade que em si habita, se deixa fraquejar. Um homem que fraqueja uma primeira vez está pronto para fraquejar muitas outras vezes. Acaba mais tarde ou mais cedo por acumular fraquezas com a naturalidade de quem colecciona selos ou moedas. Um homem que se habitua a ser fraco, é por natureza um homem condenado ao pessimismo. Deixa de acreditar em si mesmo e, mais grave ainda, deixa de acreditar em toda a Humanidade porque nela projecta a sua própria frustração, confundindo a parte pelo todo, tomando a sua natureza individual pela natureza universal. É por isso que um homem perdido pode perder toda a Humanidade, assim como o contrário também pode ser verdade. Quem se habitua à fraqueza passa a vida inteira à espera do seu redentor pessoal, um messias cujo sangue derramado lhe trará a purificação e lhe dará uma segunda oportunidade que ainda que tal lhe seja concedida, raramente aproveitará. A queda, ou seja, o próprio mal, deriva da fraqueza. Sócrates via na ignorância a mãe de todos os males. Porém, mais condenável do que a ignorância - na maioria das vezes involuntária - é a fraqueza, que deriva do conhecimento pleno da acção que se pratica, e das consequências dela derivadas. Diria que a ignorância é a mãe de todos os males, e a fraqueza é o pai – se é que tal incoerência de género se permite -. Ainda que a mulher derive de uma costela do homem, e com tal ideia se pretende designar a baixeza e inferioridade do feminino, a verdade é outra, totalmente oposta e reveladora. O sagrado feminino é aquilo que completa a incompletude do homem, é o que lhe dá substância e plenamente o aproxima do divino. Por alguma razão, as grandes virtudes são todas designadas no feminino, e dos sete pecados, só seis são femininos; a liberdade, a igualdade, a beleza, a verdade, a bondade, a própria Virtude (em oposição ao Vício designado no masculino); Desde a Vénus neolítica de abundantes seios, à Virgem Maria ou à Maya dos hindus, o sagrado feminino está por todo o lado e é porta priveligiada para o divino e o mistério; as ninfas, as musas (também as havia demónios, é certo); a Graça, essa palavra tão usada e tão significativa; a Terra, ou mãe terra para muitos; o útero sempre foi mais importante e abrangente que o pénis. O pénis penetra, mas só o útero acolhe e alimenta. As pedras neolíticas a que se convencionou chamar de menires, símbolos fálicos que apontam para o Céus, ansiosos por penetrar nos mistérios acolhedores da verdade celeste; contudo, só as mamoas e as antas podem acolher o corpo e devolvê-lo ao pó original. A estrela de David, intersecção entre o triângulo que aponta para cima (fálico e masculino), e o triângulo invertido (símbolo uterino e vaginal); as pirâmides do Egipto, as de Chitchen Itzá ou as de Teohituacan, cujo vértice aponta para o Céu, erectas e profícuas em saber e conhecimento astronómico e celestial. Pode haver melhor alegoria?

Um homem pode viver uma vida inteira alimentando-se apenas de mistérios antigos, de símbolos e de conhecimento milenar, que nunca se fartará, e certamente não tê-la-á vivido em vão. Contudo, o homem forte e com carácter sabe também olhar para o futuro com a mesma sofreguidão e entusiasmo com que olha para o passado. O homem forte e com personalidade confia no futuro, ainda que desdenhe largamente do presente. Porém, o presente contem já em si as sementes de todo o porvir. O homem com coragem, optimista e confiante, reconhece os sinais e aponta caminhos. Já muitas vezes no passado alguns homens olharam a sua contemporaneidade como prenúncio da decadência inevitável do mundo. Nenhuma esperança, divisavam apenas entre a poeira e o nevoeiro criador a destruição e o caos. E muitas vezes o caos e a destruição deram lugar à ordem; civilizações novas renasceram das cinzas como a própria Fénix. Os germéns da renovação residem no caos primordial, os sebastiões e os messias nascem precisamente do caldo das crises, e assim o universo progride, aparentemente com tantos armagedões como recomeços. Não há absolutos verdadeiros, porque verdadeiramente a morte não existe. O fim propriamente dito é apenas a antecâmera de um novo inicio, ainda que o Universo pareça ter vindo de um absoluto nada. A mente de um homem não abarca a linha lógica que torna coerente um paradoxo, não tem poder para se elevar e desapertar o nó górdio dos grandes mistérios, garantindo com isso a conquista do conhecimento supremo. Como o próprio Alexandre, o desejo de glória e o medo da morte compelem-nos a cortar o nó. Conquistar desta forma é condenar a conquista à instabilidade e à destruição precoce. Conquistar verdadeiramente é saber que se pode passar a vida inteira a desapertar o nó, deixando para as gerações futuras a tarefa de continuar o que foi começado. A conquista do conhecimento verdadeiro é um altruismo sincero, talvez um dos únicos que existam de facto. O homem fraco corta o nó; o homem forte desaperta-o.

A rotina destrói e corrói quando condena o homem a ser apenas uma pequena parte do que pode ser. A perspectiva dos dias rotineiros provoca o desânimo e a descrença, sobretudo nos mais insatisfeitos e de mente aberta. A resignação a este estado de coisas é igual ao hábito de ser fraco, conduzindo o indivíduo ao pessimismo e à descrença na espécie humana. Hoje, num mundo de pessoas sem rosto, as relações entre os seres humanos reduzem-se à relação entre coisas. A relação aberta e total entre seres humanos, noutras palavras, a relação verdadeiramente aberta e genuína não é possível num mundo de gente deprimida e oprimida, em que cada um desconfia do vizinho do lado e o colega de trabalho. Não é possível quando as relações entre as pessoas se fazem dos pedaços de cada um, entre especializados e profissionais, entre produtos e produtores, entre mascarados e travestidos. O homem corajoso liberta-se disto, aplica um pontapé raivoso, vindo do estômago já meio ulcerado por muitas desilusões e crispações sem propósito nesta vida baça, semelhante a um quadro de Magritte de rostos, chapéus de coco e objectos tão grandes quanto fúteis. O homem corajoso e forte liberta-se disto, mas não foge. Libertar-se é desapertar o nó da sua própria vida, não é cortar o nó e fugir. Essa é a maior tentação do homem lúcido: fugir! Fugir para longe, tornar-se eremita num amplo convento de paredes grossas, entre claustros silenciosos e frescos. Há quem se torne caminhante, agarre um cajado e percorra vales e serras verdes, num esforço contínuo de comunicar com a inocência original de todas as coisas. O que cansa nos homens é precisamente a mistificação, a perda da inocência original que deriva da entrega verdadeira e quase infantil; o que cansa nos homens é viverem numa espécie de carnaval permanente de máscarados tristes. Paradoxalmente, só quando lhes é pedido para se vestirem e travestirem em dias instituidos de carnavalidade, eles verdadeiramente se revelam. O que cansa nos homens é a falta de futuro – e em mesma medida, de passado, que no fim vai dar ao mesmo – nos seus modos de agir e viver. Nem passado, nem futuro, apenas um presente triste, rotineiro e verdadeiramente cinzento para a maioria dos seres humanos. O homem forte conhece o futuro e o passado, e esforça-se por viver com um passo naquele e outro neste. O homem fraco entrega-se ao presente, polvilhando os seus dias de pequenos sem-sentidos que em nada o enriquecem e elevam. Um presente feito de agoras que derivam de uma sociedade voltada para o já: Compre já!, Adquira já!, Procure já!, Conheça já!, Vá já!... Seja feliz já e agora, sem mais delongas, é um dos lemas da modernidade. Não faltam livros para ensinar a arte de ser feliz, receitas elaboradas de cura e de enriquecimento já! Em última análise, tais livros fazem - algumas - pessoas felizes, sobretudo os próprios autores e editores de tais obras miraculosas que se vêem ricos já...

Bens não são felicidade. Adágio, lugar-comum, verdade aceite. A verdade é que ter dinheiro, só por si, não trás felicidade. O que trás felicidade é tudo aquilo que liberte o homem das suas próprias escravidões pessoais, que lhe aponte o caminho e o leve a ser ele mesmo o mais amplamente possível. Possuir bens materiais pode ter o efeito adverso de conduzir precisamente a mais escravidões, nomeadamente tornando um homem ainda mais desconfiado dos outros homens, ou implicando o acentuar de rotinas destruidoras para manter e até dilatar os bens que se possui. Um homem fraco pode enriquecer precisamente para fugir dos outros homens e da rotina, porque em última análise acredita que quanto mais bens possuir, melhor será visto, maior e mais respeitável será o seu estatuto, acedendo à elite e dispondo-se a olhar os outros homens como seres inferiores. Neste caso, ter bens é construir paredes à semelhança dos claustros dos conventos, muralhas que legitimem a sua superioridade -distanciamento - em relação aos comuns mortais. O homem forte e corajoso não se refugia no estatuto que o dinheiro ou os bens lhe possam trazer, o que não o impede de enriquecer ou possuir um império. O homem forte não é escravo do que tem; o homem fraco é o maior servidor do que pensa possuir. Em regra, o homem rico que é fraco torna-se avarento e desconfiado. O próprio Gandhi, um dos homens mais frugais da história da humanidade, dizia que, em si mesma, a riqueza não é um mal, desde que o homem rico não se deixe escravizar pelos seus bens, sendo como uma espécie de rio onde outros homens se alimentam, porque o dinheiro pode ser com um rio, dar vida por onde passa, ou como um lago entrofizado, caso esteja parado e sirva apenas como uma espécie de tesouro pessoal indissociável daquele que o possui, e onde aquele vai buscar a sua legimidade perante os outros homens. A água parada rapidamente se torna venenosa, não leva vida a lado nenhum. É antes morte. Contudo, um homem pode também servir-se inteligentemente dos bens que possui para quebrar o ciclo demolidor dos dias que autofagicamente se devoram, das semanas ocas e do cinzentismo de uma rotina alienadora, espartilhante e capaz de apagar o brilho de um olhar. Pode servir precisamente para cumprir uma vida, para gerar o ócio necessário para se ser um profundo artísta, um profeta, um missionário, um grande empresário capaz de pôr em prática um conceito inovador. Pode ser apenas uma oportunidade para se ser homem. Nesse caso, um homem não quer ser rico pela riqueza em si mesma, mas quer apenas o suficiente para ter uma oportunidade de ser quem nasceu para ser. Não quer ter fortuna, mas os meios para cumprir os seus sonhos nos quais certamente não está o de ser rico. Poucos são, contudo, os que verdadeiramente definiram os seus sonhos de uma forma inteligente e realmente produtiva. Muitos confundem caprichos com sonhos. Não há nenhuma semelhança entre sonhar ser um artista de renome e ter um ferrari. Não há nenhuma semelhança entre cumprir o desígnio de uma vida e obedecer a uma excentricidade vulgar.