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Foto da Terra - pequeno ponto azul - captada pela sonda Voyager em 1990 a 6,4 milhões de Km da Terra |
O mundo é hoje uma rede complexa de relações, dependências e
interdependências entre estados, entidades supranacionais, empresas,
multinacionais, grupos e associações, movimentos internacionais, correntes
culturais, políticas e sociais. Há crises por todo o lado, de todo o tipo,
desde crises económicas e/ou financeiras, políticas e/ou religiosas, culturais
e/ou civilizacionais. No meio de tudo isto, há ainda uma imensidão de seres
humanos a nascer a todo o momento, mais ainda que o número de seres humanos a
morrer, pelo que a população mundial continuará a aumentar exponencialmente e
as crises também, na mesma medida.
O mundo ferve de tanta ação, tanto frenesim ideológico, tanta correria e
competição. As fronteiras esbatem-se, a informação corre sem qualquer filtro
dando várias voltas ao mundo no espaço de um piscar de olhos. “A mentira”,
dizia Churchill, “dá a volta ao mundo sem que a verdade tenha tempo de se
vestir”. Hoje, diríamos, a verdade dá a volta ao mundo à mesma velocidade que a
mentira, mas no meio de tanta informação, de tantos dados, bites e bytes, já
não há quem guarde ainda a paciência dos garimpeiros de outros tempos, cujo
olhar treinado permitia destrinçar as pepitas de ouro dos grãos de areia dos
rios.
Joga-se, neste frenesim, o próprio destino do mundo. O jogo de forças é
cada vez mais feroz e frenético, e as finalidades de sempre – poder, crescimento, influência, lucro,
estatuto – acentuam a entropia de um sistema que já não tem mais para onde
se dilatar. O mundo é só um, não há mais terras por descobrir nem novos mundos
para explorar. A colonização de outros planetas é uma possibilidade, sim, mas
ainda remota e que, numa primeira fase, será só para alguns, muito poucos. Os
recursos existentes são cada vez em menor quantidade para um cada vez maior
número de pessoas. Todos vamos, por assim dizer, para onde todos os outros vão,
levados pela vaga cega que nem por estarmos em cima dela, na crista da onda, pode iludir-nos de que
somos, efetivamente, levados por ela, por mais forte que seja a nossa vontade.
Surfar a onda não significa que a dominemos. Significa apenas que encontramos
um modo mais gracioso de sermos
conduzidos por ela. Mas essa graciosidade não esconde a nossa incapacidade de
lhe fazermos frente, de negarmos a sua força e inexorabilidade.
Vamos andando, mesmo que por dentro reconheçamos que essa direção, esse
sentido, levar-nos-á ao abismo. Mesmo que denotemos algo de profundamente
incorreto e errado, vamos seguindo com a corrente na esperança de que
“melhores dias virão”, ou algo de súbito, uma revolução, uma espécie de milagre
sebastianico nos resgate deste conformismo e lassidez voluntários, para que
quando isso acontecer digamos, “Eu sabia!”. Sabia, mas pouco ou nada fiz.
Sabia, mas não fui capaz de assumir compromissos no sentido de procurar lançar
sementes de mudança e renovação.
O mundo é só um, e cada vez mais pequeno. Os interesses de hoje, as
finalidades no sentido de assegurar posições de poder e de influência, são
basicamente os mesmos de há setenta ou oitenta anos. Depois da Segunda Guerra
Mundial, o mundo conheceu uma revolução geopolítica e ideológica inegável que
determinou em grande medida o mundo de hoje. Os equilíbrios mudaram, o
mundo é hoje mais multipolar e não tão bipolar como nos primeiros anos da Guerra
Fria. Sem dúvida é verdade. Porém, muitos interesses instalaram-se e estão para
ficar. Só um exemplo: desejo boa sorte a quem tentar reformar o Conselho
de Segurança das Nações Unidas no sentido de retirar poder à China, à Rússia ou
aos EUA. Boa sorte! Muito boa sorte, aliás!
Basta olhar para a História para compreender um facto muito simples:
nunca os interesses estabelecidos e os equilíbrios de forças se alteraram sem
sangue, suor e lágrimas, que é como quem diz, guerras devastadoras e revoluções.
Isto diz muito de nós e do nosso passado coletivo, mas diz muito mais quanto ao
nosso futuro. Poder, crescimento,
influência, lucro, estatuto. Os mesmos interesses e equilíbrios
estabelecidos de hoje, vistos a partir das mesmas finalidades e meios para lá
chegar, simplesmente não têm futuro. A competição desenfreada, a insularidade e
o entrincheiramento ideológico, conduzirão todo o sistema – o mundo – a
terríveis convulsões sociais, políticas e económicas. Temos duas opções: ou
continuamos neste caminho – e nesse caso teremos de aprender à força e da forma
mais cruel a importância da cooperação –
ou tomamos desde já nas nossas mãos a tarefa de repensar o modo como nos
podemos relacionar num mundo e num sistema global cada vez mais pequeno para
tantas idiossincrasias ideológicas, vontades de poder e de estatuto, e no
qual a procura por recursos – alimentos, matérias-primas, etc – é
exponencialmente maior para uma oferta exponencialmente menor.
Só os grandes desafios, sobretudo aqueles que significam grandes perdas
ou grandes ganhos, podem ensinar o valor primordial da cooperação e da
humildade.